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sábado, 24 de setembro de 2016

QUINTETO DE OURO - PALMAS DE OURO

O Festival de Cannes desfruta de enorme prestígio não é de hoje. Uma das mostras de cinema mais antigas da Europa, juntamente com Berlim e Veneza, tem sua realização agendada normalmente para maio, e já são 69 edições de filmes, tapetes vermelhos, estrelas, musas, astros, polêmicas, vaias (muitas vaias), aplausos inflamados e tantos outros ingredientes que entusiasmam o público cinéfilo. Mas quem não é espectador inveterado também dá uma espiadinha nessa deliciosa celebração anual sediada à beira do Mar Mediterrâneo.

Para essa edição do Quinteto de Ouro, a tarefa árdua a que me propus foi selecionar meus preferidos entre os vencedores da láurea máxima, a Palma de Ouro. Como forma de reduzir a enorme dificuldade de chegar a apenas 5 nomes, adotei o critério de pinçar um filme por década. Com relação à ordem adotada para a apresentação desses eleitos, mais uma vez recorri à cronologia. O resultado pode ser conferido abaixo, com os parágrafos minimamente justificadores sobre cada escolhido.

1. A doce vida (Federico Fellini, 1960)


O longa mais longo de Fellini é tão emblemático que até contribuiu para o surgimento de mais uma palavra no vocabulário italiano e, a posteriori, de outras línguas, como o português: paparazzo. O termo vem do sobrenome do protagonista, vivido por um Marcello Mastroianni no apogeu da beleza e do vigor, embora essa última característica esteja eclipsada no personagem, um jornalista que sorve o espírito fútil da sociedade romana de seu tempo. O esplendor do Cinema poderia ser facilmente representado e entendido no plano em que Marcello chega com Maddalena (Anouk Aimée) à Fontana di Trevi e ela se deixa envolver pelas águas do monumento. Encanto e poesia para além da palavra.

2. Paris, Texas (Wim Wenders, 1984)


Histórias sobre a volta podem ser consideradas um subgênero cinematográfico, e Wenders compôs seu exemplar com notório sentimento e delicadeza. A jornada de um homem que tem medo de avião e obriga o irmão a percorrer quilômetros de estrada para levá-lo de novo ao convívio familiar reserva passagens memoráveis para seu público. Memória, aliás, é o que falta a Travis (Harry Dean Stanton no papel de sua vida), e à medida que o roteiro desvenda o que forma o passado da estrada de sua vida, as emoções afloram. E como esquecer a sequência do reencontro dele com Jane na conversa telefônica, tendo Natassja Kinski a maior do tempo em primeiro plano, destacando sua lourice desalentada?

3. Pulp fiction (Quentin Tarantino, 1994)


Afeito a miscelâneas de várias sortes, Tarantino é garoto serelepe que angariou uma legião de admiradores e advogados ferrenhos, para o bem e para o mal. Sua mistura mais acertada, porém, foi justamente a que saiu vitoriosa da Croisette: um vórtice dramatúrgico em que sujeitos desgarrados dos ditames da boa conduta giram sem compromisso com a estrutura linear. Não estranhe, portanto, se alguém que parecia ter saído de cena volte a comparecer sem o menor aviso prévio, e, no fundo, o entendimento da trama é até bem fácil de se obter. Difícil é destacar uma única cena ou diálogo genial dessa antologia pop de histórias menores (?) e absurdas (?!).

4. A criança (Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2005)


O cinema seco e com doses cavalares de realismo (quimera por vezes, superestimada) chega às linhas do zênite com A criança, pelo qual os Dardenne receberam sua segunda Palma. O cotidiano de Bruno (Jérémie Renier) e Sonia (Déborah François) é visto sem trilha sonora de violinos ou quaisquer outros instrumentos comuns em dramas calculados para emocionar. E o modo atabalhoado com que ele tenta conduzir a vida pós paternidade devasta. Quase sempre tendo a câmera bem rente a seus corpos em constante deslocamento, os jovens erram, se desentendem e experimentam a frialdade em mundo que lhes oferece baixíssimas expectativas. 

5. A árvore da vida (Terrence Malick, 2011)


Malick poderia facilmente receber a antonomásia de cineasta espiritual. Sua reflexão sobre a pequenez humana, a imensidão do universo e um Deus grande ao qual se lançam questionamentos e confissões embeveceu uns, afugentou outros. Mas indiferença não parece uma opção diante do filme, que vai aos primórdios da história terráquea e revela a beleza dura, tênue, perturbadora e estonteante da vida, só para ficar em alguns adjetivos. É o cinema buscando lidar com o indizível, flertando com a literatura ao adicionar fluxos de consciência à narrativa e evocando um pensamento do salmista Davi sobre Deus: Que é o homem mortal, para que Te lembres dele?

domingo, 11 de setembro de 2016

Aquarius: um baú de memórias e afetos

Assim como uma comida bem temperada atiça o paladar, um filme bem azeitado pode maravilhar seu público. A experiência de ver Aquarius (idem, 2016) pode então ser comparada à degustação de uma deliciosa iguaria condimentada por sentimentos de apelo universal. E o melhor: sem perder a brasilidade. Do prólogo ambientado em 1980, a "década que não acabou" ao desfecho memorável, o longa de Kleber Mendonça Filho tem açúcar, pimenta e afeto. Clara (Sonia Braga) está no centro da narrativa, fincada em solo recifense, que responde pela cor local da produção. Ao que parece, a maior parte de sua vida foi vivida na capital pernambucana. Esses e outros detalhes são inferências permitidas pelo subtexto do filme e algumas situações. 


O impasse estabelecido pelo roteiro do próprio diretor vem da relutância de Clara em abrir mão do apartamento localizado no edifício-título para a construção de um empreendimento de proporções (e intenções) megalomaníacas, de autoria do pretensioso Diego (Humberto Carrão). Porém, como nos grandes exemplares de bom cinema (ou literatura, teatro e outras artes), importa menos a "história" e mais os caminhos trilhados pelos personagens, sejam eles figurados ou denotativos. E Aquarius vai revelando sua vocação, a qual é, no fundo, a vocação de todo filme: o compartilhamento de uma(s) memória(s). Memórias essas que impregnam tanto Clara quanto outras pessoas de seu convívio, como a tia aniversariante lá nos anos 80. (Se a cômoda da sala falasse... Ela também é personagem.) Ou a filha Ana Paula (Maeve Jinkings), ressentida pelo biênio em que a mãe esteve ausente a trabalho. (Nesse momento, um puxão de orelha do irmão vem pela dedicatória de Clara no livro que escreveu nessa época, reconhecendo o tempo que lhes foi roubado.)

Boas memórias também podem vir acompanhadas de boas músicas, o que é habitual na vida de Clara, uma entusiasta da boa e velha vitrola, mas que também sabe usufruir da tecnologia vigente, embora sua entrevista sobre a carreira seja reduzida à mísera frase "Eu ouço mp3", usada como chamariz no título. Em outro momento, ela aconselha o sobrinho que vai receber uma garota carioca em casa a fazê-la ouvir Maria Bethânia: - Mostra logo que você é intenso, ela diz, doce e resolutamente. Aquarius fala sobre o cabelo, o amor e o câncer de Clara, e cada uma dessas três partes é permeada por uma delicadeza ímpar, muito mais imagética do que verbal. É cinema para olhos que veem, não que apenas enxergam. É filme para ouvidos aguçados, não apenas dotados de audição. É memória gostosa, que mora dentro do peito e brinca de vaivém entre coração e cabeça. A trilha primorosa vem logo na abertura, acompanhando uma coletânea de fotos que situa o público no Recife de outros tempos. 

A pimenta, bem nos olhos de Clara, vem da guerra que se instaura contra ela da parte de Diego, nem um pouco inclinado a entender o lado da única moradora que restou no edifício. Carrão, aliás, reitera sua queda para encarnar tipos revestidos de cinismo, além de uma conduta passivo-agressiva, como bem atesta Clara num dos únicos embates em que os dois se enfrentam abertamente. E o clima pesa. Algo de bem desconfortável e preocupante fica no ar, e essa nuvem incômoda lembra muito O som ao redor (idem, 2012), em que o mesmo Mendonça Filho subverte a gramática do thriller a serviço de uma varredura na hipocrisia e nos temores (!) da dita classe média. O cotidiano pacato da escritora, de caminhadas e mergulhos na praia de Boa Viagem, em frente a qual se encontra o prédio, não é mais o mesmo. Ameaças vêm de onde menos se espera, e vários ângulos escolhidos pelo diretor corroboram uma atmosfera de sobressalto. 


Para além de sua capacidade de evocar memórias e sensações, questionando inclusive pontos de vista - Se você não gosta, é velho. Se você gosta, é vintage -, Aquarius é um hino à resistência. Defender aquilo em que se acredita ou que se ama não é tarefa de fracos, sobretudo em tempos de verdades e conceitos voláteis. Clara é uma mulher de personalidade flexível, mas o roteiro focaliza seu lado leoa, disposta a impedir que o símbolo de toda sua vida seja violado. Que atriz não gostaria de ter um papel desses nas mãos? E tê-lo entregado a Sonia Braga foi um acerto imenso do realizador. Os espectadores mais antigos certamente têm suas memórias com ela, e os mais jovens podem agora apreciar esse escândalo de atriz dando seu melhor, que deixou Cannes apaixonada. As entrelinhas politizadas do texto são outro tempero muito bem-vindo a esse caldo bem cozido: Aquarius fala de uma ideologia fincada na exploração, de cupins metafóricos e literais que corroem tudo. E nos brinda com um sopro catártico lá pelas tantas, fazendo por onde, afinal, ser memorável.

10/10

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

BALANÇO MENSAL - AGOSTO

Mês de viagem, como nos dois anos anteriores, agosto teve menos filmes vistos e revistos, mas não quer dizer que não houve ótimos exemplares cinematográficos. Rolou meu terceiro Jia Zhang-ke logo no início do mês, e ele conquistou o primeiro lugar do pódio, deixando o resto dos dias só para decidir a prata e o bronze, que podem ser conhecidos abaixo, assim como os demais títulos com notas e algumas categorias com seus melhores. Seguem abaixo!

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

As montanhas se separam (Jia Zhang-ke, 2015)



Concebido como um tríptico em que os diferentes formatos de tela ajudam a delimitar as fases da história, o longa de Zhang-ke é uma potente reflexão sobre amores espargidos no ar e a poluição cada vez mais extrema da nação chinesa. Vale lembrar que até pôr do sol artificial já está sendo oferecido aos cidadãos. Entre passado, presente e futuro, o enredo acompanha dois homens em franca disputa por uma mulher - temática muitas vezes revisitada na ficção - e os descaminhos de cada integrante desse triângulo amoroso, cada vez mais escaleno. As paisagens flagradas pela câmera, uma recorrência em Zhang-ke, são parte fundamental da história, gerando planos embasbacantes. Tal qual outros compatriotas orientais (sobretudo Wong Kar-wai), ele tenta flagrar o tempo, esse signo tão potente, fora do qual parece não existir vida possível. E que belíssima sequência de encerramento...

MEDALHA DE PRATA

Julieta dos espíritos (Federico Fellini, 1965)



Dono de uma imaginação enorme, Fellini encontrou as cores pela primeira vez em Julieta dos espíritos, e ninguém melhor que sua Giulietta da vida real, a Masina, para encarnar essa mulher de alma e espírito dóceis. Nos minutos iniciais, sua câmera reluta em mostrar o rosto da protagonista, que surge iluminado, como alguém que não se abala mesmo diante das circunstâncias de infidelidade do marido. O fluxo imaginativo fica por conta de um guru que é levado por suas irmãs ao seu aniversário de casamento, e então começam a surgir visões de uma espécie de mundo paralelo em meio ao seu cotidiano. Comparado a outros títulos fellinianos, este até que é comportado, afinal, estamos falando do mesmo autor de 8 1/2 (idem, 1963) e Amarcord (idem, 1973). O esplendor do Technicolor é muito bem explorado na fotografia, bem como nos visuais excêntricos de Giuletta, uma baixinha que não se abatia.

MEDALHA DE BRONZE

Sing street (John Carney, 2015)



A poesia de canções originais pontua os fotogramas de Sing street e ratificam uma escolha louvável de John Carney: a de construir uma carreira de realizador formada por longas regidos pelo compasso musical. Assim como em Apenas uma vez e Mesmo se nada der certo, o realizador irlandês desfia uma repertório agridoce, melancólico e apaixonado para flagrar a jornada de um adolescente que encontra força e autoafirmação em uma banda que monta com outros garotos do seu colégio. Ao mesmo tempo, se vê à volta com uma típica paixonite que aumenta seu nível de endorfina, e felizmente o sentimento não parece unilateral. Carney triunfa com a simplicidade de seu olhar sobre crescer, mudar e aprender, verbos que, de alguma maneira, todos nós precisamos conjugar a vida inteira.

LONGAS

INÉDITOS


261. Terra estrangeira (Walter Salles, 1996) -> 8.0

262. As montanhas se separam (Jia Zhang-ke, 2015) -> 9.0
263. Valentin (Alejandro Agresti, 2002) -> 8.0
264. 007 - O espião que me amava (Lewis Gilbert, 1977) -> 6.0
265. Alpes (Yorgos Lanthimos, 2011) -> 6.0


266. Doido para brigar... louco para amar (James Fargo, 1978) -> 7.0
267. Como treinar o seu dragão (Dean DeBlois e Chris Sanders, 2010) -> 6.0
268. Shaun: o carneiro (Mark Burton e Richard Starzack, 2015) -> 8.0
269. Machuca (Andrés Wood, 2004) -> 8.0



270. A corrida do século (Blake Edwards, 1965) -> 7.0
271. Deus branco (Kornél Mundruczó, 2014) -> 9.0
272. Descompensada (Judd Apatow, 2015) -> 6.0
273. Um romance muito perigoso (John Landis, 1985) -> 7.5



274. Sing street (John Carney, 2016) -> 8.0
275. Julieta dos espíritos (Federico Fellini, 1965) -> 8.5
276. oo7 contra o foguete da morte (Lewis Gilbert, 1979) -> 6.0
277. Pulse (Kyioshi Kurosawa, 2001) -> 8.0
278. Os outros caras (Adam McKay, 2010) -> 6.0
279. Dois caras legais (Shane Black, 2016) -> 7.0
280. A noiva cadáver (Tim Burton, 2005) -> 7.5
281. Born to be blue (Robert Budreau, 2015) -> 7.0

REVISTOS

O aviador (Martin Scorsese, 2004) -> 7.0
Onde os fracos não têm vez (Ethan e Joel Coen, 2007) -> 9.0
O eclipse (Michelangelo Antonioni, 1962) -> 9.0

MELHOR FILME: As montanhas se separam
MENÇÃO HONROSA: Deus branco
MELHOR DIRETOR: Federico Fellini, por Julieta dos espíritos
MELHOR ATRIZ: Giulietta Masina, por Julieta dos espíritos
MELHOR ATOR: Fernando Alves Pinto, por Terra estrangeira
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Fernanda Torres, por Terra estrangeira
MELHOR ATOR COADJUVANTE: John Landis, por Um romance muito perigoso
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Jia Zhang-ke, por As montanhas se separam
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Blake Edwards, por A corrida do século
MELHOR TRILHA SONORA: Sing street
MELHOR FOTOGRAFIA: As montanhas se separam
MELHOR CENA: A música para os cães em Deus branco
MELHOR FINAL: Deus branco/As montanhas se separam

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

BALANÇO MENSAL - JULHO

Com o fim do sétimo mês do ano, tem lugar um novo balanço de filmes, que apresento a seguir nos moldes do que venho fazendo desde 2015. O pódio apresenta ouro e prata indiscutíveis, já que foram os únicos títulos com 9 e 8.5, respectivamente, enquanto o bronze foi uma escolha difícil, mas com critério. Assim como Julieta, fui ao cinema conferir Mãe só há uma, e ambos valeram uma nota 8. Mas, como já escrevi um texto para o longa de Anna Muylaert, achei válido tecer alguns comentários sobre o mais recente Pedro Almodóvar. Então, vamos aos filmes!

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Ao mestre com carinho (James Clavell, 1967)



Matriz de numerosos filmes sobre adolescentes desajustados sob o comando de um professor com o desafio de domá-los, Ao mestre com carinho também carrega o mérito de reforçar o talento de Sidney Poitier. No mesmo ano em que sambou como protagonista de No calor da noite (In the heat of the night, 1967), ele deu vida a um engenheiro que vai parar em um colégio interiorano com uma turma de baderneiros. Aos poucos, a perspectiva reducionista sobre os alunos vai se ampliando e o debate sobre preconceito, responsabilidade e o que deve ser ensinado em sala de aula começa a tomar forma. Por vezes, o discurso do professor tem aspectos datados, como quando afirma que mulheres mal comportadas não atraem homens interessados em compromisso sério. Mas não se pode condenar o todo por algumas partes, e quem acredita no poder transformador da educação vai se reconhecer ou entender muito bem várias passagens.

MEDALHA DE PRATA

O mundo dos pequeninos (Hiromasa Yonebayashi, 2010)



Carinho e proteção transbordam no decorrer da narrativa dessa animação japonesa com o selo Ghibli de qualidade. Em meio aos medalhões Miyazaki e Takahata, está Yonebayashi, que exibe ternura no traço por meio do qual mostra a história de um garoto e uma garota que fazem amizade. Até então, nada inovador, mas o detalhe extraordinário são as dimensões diminutas da garota, criada sob a visão medrosa de que os humanos lhe podem fazer muito mal. Porém, a exemplo de outras figuras femininas transgressoras de produções do estúdio, Arrietty explora novas possibilidades, deixando a mãe conservadora em choque. No universo imaginado aqui, as imagens falam tanto quanto encantam, e fazem repensar o lugar de cada um no mundo. Afinal, não é saudável e necessário ir além de certas fronteiras previamente estipuladas?

MEDALHA DE BRONZE

Julieta (Pedro Almodóvar, 2016) 




De volta ao melodrama após um flerte com suas origens cômicas e escrachadas, Almodóvar mostra que continua entendendo do riscado. Alternando presente e passado - recurso nem um pouco novo, mas que ainda pode dar caldo - , ele discorre sobre o perdão: a si mesmo e ao outro. Os anos passam na vida da protagonista e ela não consegue se esquecer de uma importante figura familiar com quem não tem tido contato, e suas lembranças são compartilhadas com a plateia, novamente brindada com um festival de tons fortes e quentes. Da pegada hitchcockiana em uma sequência no trem logo no primeiro quarto da narrativa, ele vai ao terreno em que vem se especializando, pelo menos, desde A flor do meu segredo (La flor de mi secreto, 1995), mas deixa de lado suas atrizes fetiche (à exceção de Rossy de Palma, em participação especialíssima) para recrutar Emma Suárez e Adriana Ugarte, em revezamento no papel título, escolhido em um segundo momento para evitar homonímia com um longa de Martin Scorsese.

INÉDITOS

LONGAS

228. Aura (Fabián Bielinsky, 2005) -> 8.0
229. Demolição (Jean-Marc Valée, 2016) -> 7.0
230. O pai da noiva - Parte II (Charles Shyer, 1995) -> 7.0
231. O quarteto (Dustin Hoffman, 2012) -> 6.0
232. Um caminho para dois (Stanley Donen, 1967) -> 7.5
233. Donnie Brasco (Mike Newell, 1997) -> 7.0
234. Paraísos artificiais (Marcos Prado, 2012) -> 7.0



235. A cabeça contra a parede (Georges Franju, 1958) -> 7.5
236. Julieta (Pedro Almodóvar, 2016) -> 8.0
237. Mens@agem para você (Nora Ephron, 1998) -> 7.0
238. Ao mestre com carinho (James Clavell, 1967) -> 9.0
239. Hanami - Cerejeiras em flor (Doris Dörrie, 2008) -> 7.5
240. Cupido é moleque teimoso (Leo McCarey, 1937) -> 8.0



241. O gato de nove caudas (Dario Argento, 1971) -> 7.5
242. 007 contra o homem com a pistola de ouro (Guy Hamilton, 1974) -> 5.0
243. Demon (Marcin Wrona, 2015) -> 7.0
244. Praça Saens Peña (Vinicius Reis, 2008) -> 7.0
245. De punhos cerrados (Marco Bellocchio, 1965) -> 7.5
246. Uma garrafa no mar de Gaza (Thierry Binisti, 2011) -> 7.0
247. O que os homens falam (Cesc Gay, 2012) -> 6.0
248. Contato (Robert Zemeckis, 1997) -> 7.0



249. O mundo dos pequeninos (Hiromasa Yonebayashi, 2010) -> 8.5
250. Desconhecido (Jaume Collet-Serra, 2011) -> 6.0
251. Miles ahead (Don Cheadle, 2015) -> 7.5
252. Sapatinhos vermelhos (Michael Powell e Emeric Pressburger, 1948) -> 8.0
253. Bem-vindo à vida (Alex Kurtzman, 2012) -> 6.5
254. Gatinhas & gatões (John Hughes, 1984) -> 7.5
255. Caça-fantasmas (Paul Feig, 2016) -> 7.0


256. Mãe só há uma (Anna Muylaert, 2016) -> 8.0
257. O pecado mora ao lado (Billy Wilder, 1955) -> 7.0
258. Agnus Dei (Anne Fontaine, 2015) -> 8.0
259. Cinzas que queimam (Nicholas Ray, 1955) -> 8.0
260. Histórias que contamos (Sarah Polley, 2012) -> 7.5

CURTAS

Casa de luxo (Kevin Herron, 2013) -> 7.0
Stutterer (Benjamin Cleary, 2015) -> 8.0
The ride (Drew Linne, 2015) -> 7.0
Take the plunge (Elizabeth Ku-Herrero e Nicholas Manfredi, 2015) -> 7.0

REVISTOS

O declínio do império americano (Denys Arcand, 1987) -> 7.5
As invasões bárbaras (Denys Arcand, 2003) -> 9.0
A noite (Michelangelo Antonioni, 1961) -> 8.5
Meia-noite em Paris (Woody Allen, 2011) -> 10.0


MELHOR FILME: Ao mestre com carinho
PIOR FILME: 007 contra o homem com a pistola de ouro
MELHOR DIRETOR: Pedro Almodóvar, por Julieta
MELHOR ATRIZ: Moira Shearer, por Sapatinhos vermelhos
MELHOR ATOR: Sidney Poitier, por Ao mestre com carinho
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Daniela Nefussi, por Mãe só há uma
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mateus Nachtergaele, por Mãe só há uma
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Anna Muylaert, por Mãe só há uma
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Hayao Miyazaki e Keiko Niwa, por O mundo dos pequeninos
MELHOR FOTOGRAFIA: Atsushi Okui, por O mundo dos pequeninos
MELHOR TRILHA SONORA: Cécile Corbel, por O mundo dos pequeninos
MELHOR CENA: A conversa mais longa entre Spiller e Arriety em O mundo dos pequeninos
MELHOR FINAL: Hanami - Cerejeiras em flor

sexta-feira, 22 de julho de 2016

QUINTETO DE OURO - MERYL STREEP

Tragam uma Meryl Streep para esse Oscar! Qualquer espectador de cinema que se preze - veja bem, não precisa ser cinéfilo - já esbarrou em algum filme com ela. A homenageada desse mês tem é bagagem nas costas, e às vezes parece encarnar uma personagem com o pé nas costas; não no sentido de interpretá-la relaxadamente, mas no de ter uma facilidade incrível de ser outra e outras. Sinônimo de qualidade de atuação, ela não deixa a desejar mesmo em filmes meia boca, já soma 19 indicações ao prêmio da Academia, das quais saiu como vencedora apenas 3 vezes, e nem foram por seus melhores trabalhos. Como de hábito, minha seleção vem em ordem cronológica, nada de ordem de preferência. 

Aliás, nenhum deles está entre meus eleitos para formar o quinteto de ouro de Meryl Streep. E vencer premiações de associações ou festivais é com ela mesma: a mulher já levou Bafta, Globo de Ouro, Emmy, Cannes, Berlim, San Sebastián... Pode não ser uma unanimidade, mas já provou inúmeras vezes que entende do riscado. Nascida Mary Louise há 67 anos, ela já entrou para o panteão de grandes atrizes há tempos, e não há mais porque sair de lá. Simplesmente Meryl.

1. As pontes de Madison (1995)


Geralmente loura, Meryl "se escondeu" sob fios pretos para viver Francesca, italiana radicada no interior estadunidense que vê sua aparente estabilidade sentimental mostrar a verdadeira cara quando da visita de um fotógrafo grisalho em busca de cliques para uma nova reportagem. O cenário bucólico, por si só, inspira paixão, mas, à medida que os encontros se tornam mais frequentes e as conversas, mais longas, Francesca vai mostrando sua vulnerabilidade e sua candura, as quais tenta conter com uma postura defensiva pouco eficaz. No fundo, ela só quer amar, e isso não é só "coisa de mulher", afinal. É uma mulher vista em seu passado, com cada atitude e pensamento registrado em um diário íntimo: ali está sua alma.

2. As horas (2002)


"Mrs. Dalloway disse que ela mesma compraria as flores." A frase que abre o romance de Virginia Woolf reverbera no cotidiano de Clarissa Vaughan. Ela vive a história narrada no livro que está lendo, e o único dia seu flagrado pela narrativa é uma montanha-russa de sentimentos e encontros que despertam reflexões. Se a Clarissa original era uma socialite da Inglaterra dos anos 20, a contemporânea é dona de casa, mas ambas estão envolvidas com os preparativos para uma festa, mero pano de fundo para que emerjam seus demônios interiores. O percurso existencial é penoso e mostra lados que ela se esforça em deixar cobertos, e um diálogo com o velho amigo à beira da morte é o rasgo final do véu de que se vale pelo bem da boa convivência em sociedade.

3. Adaptação (2002)


Peça fundamental em uma trama intrincada que brinca com a metalinguagem cinematográfica e literária, Susan Orlean transita por Adaptação como uma caçadora. Ela escreveu O ladrão de orquídeas, texto que Charlie Kaufman (Nicolas Cage, alter ego do verdadeiro, mas até que ponto?) tem grande dificuldade em verter para a linguagem fílmica. Perguntada sobre com quem gostaria de jantar e ter uma conversa, responde Jesus. É a personagem feminina mais forte do enredo pensado pelo Kaufman exógeno à narrativa e filmado com esmero por Spike Jonze. Meryl ficou muito interessada no papel e não fez por menos com ele nas mãos: é uma das mulheres mais descoladas de sua carreira, com sopros cômicos legítimos em meio à selva dramática na qual se embrenha.

4. O diabo veste Prada (2006)


Quem é capaz de aguentar uma chefe como Miranda Priestly? Seus cabelos brancos platinados à moda vilã da Disney, combinados com o tom de voz impostado, o figurino impecável e o olhar desintegrador a elevam não apenas à condição de diva inatingível, mas também de geradora de memes. Não há como negar que é um dos papéis mais populares de Meryl, uma comprovação de que nem só de filmes mais "artísticos" (um questionamento a esse termo levaria a outro artigo só para isso) se faz sua carreira. Da próxima vez que você quiser reclamar de seu regime de trabalho, por mais legítima que seja sua queixa, coloque-se um pouco no lugar de Andrea Sachs (Anne Hathaway), vulgo Emily: seu dia provavelmente vai ficar um pouco melhor. Mas não se engane: por mais brega que soe, as Mirandas também amam; por trás dos colares, bolsas de grife e saltos matadores, pulsa um coração.

5. Dúvida (2009)


Mais uma prova da especialidade dessa mulher na incorporação de sotaques: dessa vez, ela se apropriou do falar do Bronx, um dos condados do estado de Nova York. A Irmã Aloysius é inimiga figadal de qualquer colega que se desvie minimamente de seu sacerdócio, e basta uma leve suspeita para que ela trave uma cruzada contra o Padre Flynn (o saudoso Philip Seymour Hoffman), a quem acredita ter visto em ato libidinoso com um garoto. Se a base moral para sua campanha esmagadora é válida, o abandono do princípio da incerteza a torna uma locomotiva sem freio, e os diálogos arrepiantes entre ela e Flynn mostram a potência de um texto bem escrito, em que a visceralidade e o realismo comparecem com peso equiparado. 

domingo, 3 de julho de 2016

BALANÇO MENSAL - JUNHO

Vou direto ao ponto dessa vez: como já faço esse balanço de filmes há mais de 2 anos, os leitores já conhecem a estrutura que adoto. Então, seguem abaixo os 41 filmes que compuseram minha dieta cinematográfica de junho. Até a próxima edição!

MEDALHA DE OURO

Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)



Em uma das vezes nas quais foi entrevistado, Coutinho afirmou que não acreditava no cinema como instrumento de transformação política - talvez fosse pretensão demais para um filme. Melhor seria potencializar a reflexão através de muitas perguntas, nem todas respondidas, nem todas com respostas únicas, nem todas completamente respondidas. Não é de se estranhar, portanto, os questionamentos reverberando a todo volume na cabeça do espectador de Cabra marcado para morrer. Exemplar na aproximação com seu objeto de análise - os efeitos do regime ditatorial brasileiro sobre a vida de gente comum e trabalhadora -, e impregnado de uma metalinguagem angustiante, o longa cobre um arco de tempo real de quase duas décadas. E o senso de liberdade que aquele povo humilde carregava no peito sobrevive há gerações.

MEDALHA DE PRATA

O esporte favorito dos homens (Howard Hawks, 1964)




Deliciosamente espirituoso, o roteiro do longa de Hawks aborda a secular premissa de homem e mulher em batalha que, lá no fundo, estão caindo de amores um pelo outro. Ao escalar Rock Hudson e Paula Prentiss na defesa dos respectivos papéis, ele acertou em cheio, sobretudo por conta de Hudson, que pôde reforçar o quanto se prestava a encarnar personagens dramáticos (como nos melodramas de Douglas Sirk) como os engraçados (vide as três ocasiões em que contracenou com Doris Day). Mesmo incorporando alguns clichês ao longo da narrativa, O esporte favorito dos homens não deixa a peteca cair e reserva muitas estripulias que lhe garantem o selo de comédia genuína. O tal esporte do título, aliás, é a pescaria, pelo qual o personagem de Hudson não tem a menor afeição, mesmo sendo considerado uma referência para quem deseja fisgar um grande peixe.

MEDALHA DE BRONZE

O valor de um homem (Stéphane Brizé, 2015)



Já vem sendo dito há algum tempo (e parece que muita gente não está dando ouvidos) que estamos dando mais valor às coisas do que às pessoas. Stéphane Brizé deve se sentir incomodado com essa miopia coletiva, e essa suposição explica em boa parte a existência de O valor de um homem. Em sua terceira parceria consecutiva com Vincent Lindon (premiado em Cannes pelo trabalho), ele reflete não apenas sobre tal confusão em seu sentido mais amplo, mas também afunila o olhar para as relações entre patrão e empregado, cujos limites de sensatez e humanidade, por vezes, se mostram difusos demais. As questões se levantam: vale a pena defender um emprego com unhas e dentes apesar da intransigência das ordens superiores? As pessoas não devem ser consideradas por sua trajetória e não apenas por um passo em falso? O sopro de lucidez está reservado para o epílogo, profundo em sua simplicidade.

INÉDITOS

LONGAS


194. Trocando as bolas (John Landis, 1983) -> 7.0

195. A toda prova (Steven Soderbergh, 2011) -> 6.0
196. Ataque ao prédio (Joe Cornish, 2011) -> 7.0
197. A concepção (José Eduardo Belmonte, 2005) -> 5.0
198. Mais forte que bombas (Joachim Trier, 2015) -> 7.0
199. O valor de um homem (Stéphane Brizé, 2015) -> 8.0
200. Carrossel da esperança (Jacques Tati, 1949) -> 8.0
201. Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1985) -> 9.0
202. Zootopia (Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush, 2015) -> 8.0



203. Monstros (Gareth Edwards, 2010) -> 6.0
204. 007 - Os diamantes são eternos (Guy Hamilton, 1971) -> 7.0
205. Rastros de justiça (Oliver Hirschbiegel, 2009) -> 4.0
206. Carol (Todd Haynes, 2015) -> 7.5
207. Castelo no céu (Hayao Miyazaki, 1986) -> 8.0
208. Carícias de luxo (Delbert Mann, 1962) -> 6.0
209. Camelos também choram (Byambasurem Davaa e Luigi Falorni, 2003) -> 8.5




210. Get a job (Dylan Kidd, 2015) -> 5.0
211. Certo agora, errado antes (Hong Sang-Soo, 2015) -> 8.0
212. Ondas do destino (Lars Von Trier, 1996) -> 8.0
213. O fugitivo (Andrew Davis, 1993) -> 7.5
214. Decisão de risco (Gavin Hood, 2015) -> 8.0
215. Dois é bom, três é demais (Anthony e Joe Russo, 2006) -> 6.0
216. A tênue linha da morte (Errol Morris, 1988) -> 7.0



217. Viúvas sempre às quintas (Marcelo Piñeyro, 2010) -> 5.0
218. O esporte favorito dos homens (Howard Hawks, 1964) -> 8.0
219. A história da eternidade (Camilo Cavalcante, 2014) -> 7.5
220. A espera (Piero Messina, 2015) -> 6.5
221. Dodeskaden - O caminho da vida (Akira Kurosawa, 1970) -> 5.0
222. Três enterros (Tommy Lee Jones, 2005) -> 8.0



223. Fique comigo (Samuel Benchetrit, 2015) -> 8.0
224. Com 007 viva e deixe morrer (Guy Hamilton, 1973) -> 6.0
225. Abaixo o amor (Peyton Reed, 2003) - > 7.5
226. As vinhas da ira (John Ford, 1940) -> 8.0
227. Um homem um tanto gentil (Hans Peter Moland, 2010) -> 7.5

CURTAS

Game over (PES, 2006) -> 7.0
The present (Jacob Frey, 2015) -> 8.5
Laranjas (Kristian Pithie, 2004) -> 6.0

REVISTOS

Pequena Miss Sunshine (Jonathan Dayton e Valerie Falls, 2006) -> 10.0
Dirigindo no escuro (Woody Allen, 2002) -> 8.0
A aventura (Michelangelo Antonioni, 1960) -> 10.0
Sobre meninos e lobos (Clint Eastwood, 2003) -> 8.5

MELHOR FILME: Cabra marcado para morrer
PIOR FILME: Rastros de justiça
MELHOR DIRETOR: Howard Hawks, por O esporte favorito dos homens
MELHOR ATRIZ: Cate Blanchett, por Carol e Emily Watson, por Ondas do destino
MELHOR ATOR: Vincent Lindon, por O valor de um homem e Ewan McGregor por Abaixo o amor
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Sarah Paulson, por Abaixo o amor
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Barry Pepper, por Três enterros
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Byambasuren Davaa, Batbayar Davgadorj, Luigi Falorni, por Camelos também choram
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: John Fenton Murray e Steve McNeil, por O esporte favorito dos homens
MELHOR FOTOGRAFIA: Carter Burwell, por Carol
MELHOR TRILHA SONORA: Edward Lachman, por Carol
MELHOR CENA: A música para a mãe camelo deixar de rejeitar o filhote em Camelos também choram
MELHOR FINAL: Cabra marcado para morrer

sábado, 25 de junho de 2016

QUINTETO DE OURO - GRANDES PARCERIAS

Como em qualquer contexto que envolva seres humanos, a realização de um filme também possibilita encontros e reencontros, que acabam se fixando como parcerias para trabalhos recorrentes. Dessa forma, os profissionais envolvidos acabam se tornando queridinhos um do outro, e o público também se acostuma a vê-los sempre juntos. Uma olhada rápida para décadas passadas e também para a atual confirma a existência de inúmeros exemplos de atores, diretores, roteiristas, músicos e diretores de fotografia, entre outros, que se entendem muito bem, a ponto de a figura de um ser atrelada à do outro.

O tema do Quinteto de Ouro desse mês é justamente essas parcerias que deram tão certo que se repetiram várias vezes. Para chegar aos escolhidos, recorri a quatro critérios objetivos: considerei parceria todo caso em que dois profissionais trabalharam juntos pelo menos três vezes, seguidas ou não; só valiam parceiros de quem já tinha visto a maioria das parcerias - então, se alguma dupla está de fora, é por falta de filmes suficientes vistos (o caso de Frank Capra e James Stewart); e entendi que seria interessante não colocar apenas diretor e ator ou atriz, mas também diretor e fotógrafo, diretor e roteirista. 

Por fim, decidi não comentar todos os exemplares de cada dupla: a opção foi por destacar dois ou três dos vários trabalhos e enaltecer algumas de suas qualidades. Assim nasceu um pequeno panorama (seria um paradoxo) que, no fundo, são gavetas e janelas que dão passagem a diversos outros nomes, tempos e lugares. E vale dizer que, de novo, é uma lista sem ordem de preferência clara, mesmo porque não constam dela todos os meus preferidos, mas cinco entre meus preferidos...

1. James Gray e Joaquin Phoenix


Filmes: Caminho sem volta (2000), Os donos da noite (2007), Amantes (2008), Era uma vez em Nova York (2013).

O biotipo de Joaquin Phoenix cai como uma luva para homens problemáticos, e James Gray captou essa predisposição, usando-a brilhantemente por quatro vezes. Assim, nasceram Willie, Bobby, Leonard e Bruno, todos atormentados em maior ou menos grau. Em Os donos da noite, a impossibilidade de levar uma vida inteira à base de jogo duplo é confirmada em meio a tiros, escutas, chuva e perseguições, e Phoenix soube humanizar o empresário das noitadas que revê seus conceitos fluidos. Amantes, por sua vez, rebobina a fita do presente e nos leva de volta aos melodramas de uma Hollywood áurea, mas não necessariamente datada, na qual encontramos um sujeito destoante do mundo ao redor cuja âncora não é bem a que ele vislumbrava.

2. Woody Allen e Mia Farrow


Filmes: Sonhos eróticos de uma noite de verão (1982), Zelig (1983), Broadway Danny Rose (1984), A rosa púrpura do Cairo (1985), Hannah e suas irmãs (1986), Setembro (1987), A era do rádio (1987), A outra (1988), Crimes e pecados (1989), Simplesmente Alice (1990), Neblina e sombras (1991), Maridos e esposas (1992).

Casados à época na qual a parceria se desenrolou, Allen e Farrow e tornaram um dos exemplos de duplas mais recorrentes do cinema. Em 13 filmes rodados em um período de 10 anos, eles foram da comédia ao drama com notável desenvoltura, contracenando em quase todos os longas e quase sempre repetindo a relação amorosa da vida real. O auge da parceria se deu em dois anos seguidos, com A rosa púrpura do Cairo e Hannah e suas irmãs, nos quais Farrow viveu, respectivamente, a otimista ingênua Cecilia e a batalhadora personagem-título. Infelizmente, o casamento se dissolveu de maneira escandalosa ainda nos bastidores de Maridos e esposas, que acabou se tornando um retrato assustadoramente realista da falência dessa união em frente e atrás das câmeras.

3. Ingmar Bergman e Sven Nykvist


Filmes: Noites de circo (1953), A fonte da donzela (1959), Através de um espelho (1961), Luz de inverno (1962), O silêncio (1963), Para não falar de todas essas mulheres (1964), Persona (1966), A hora do lobo (1968), Vergonha (1968), O rito (1969), A paixão de Anna (1969), A hora do amor (1971), Gritos e sussurros (1972), Cenas de um casamento (1973), A flauta mágica (1975), Face a face (1976), O ovo da serpente (1977), Sonata de outono (1978), Da vida das marionetes (1980), Fanny & Alexander (1982).

Os recordistas de colaboração dessa lista atravessaram três décadas juntos, num casamento bem sucedido entre direção, escrita, ângulo e iluminação, entre outros aspectos que compõem o trabalho de um cineasta e um fotógrafo. Seja em preto e branco, seja a cores, cada filme de Bergman fotografado por Nykvist exibia marcas inconfundíveis, e o modo como as imagens são dispostas, aliado ao elenco recorrente, permitia reconhecer um filme como sendo dos dois mesmo que essas informações não tivessem sido entregues previamente. Os pesadelos psicológicos de Persona e A hora do lobo são ainda mais contundentes, assim como as nuances e matizes de Cenas de um casamento e Sonata de outono, sob suas lentes acuradamente manuseadas.

4. Aki Kaurismäki e Kati Outinen


Filmes: Sombras no paraíso (1986), Hamlet vai à luta (1987), A garota da fábrica de caixas de fósforos (1990), Se cuida, Tatiana (1992), Nuvens passageiras (1996), Juha (1999), O homem sem passado (2002), O porto (2011).

Ao olhar para a filmografia de Aki Kaurismäki, inevitavelmente deparamos com o nome de Kati Outinen na maioria de seus trabalhos. A figura da atriz combina perfeitamente com a proposta de cinema do diretor, que gosta de focalizar personagens marginalizados, aos quais falta algum tipo de calor no coração. Na pele da operária de uma fábrica de caixas de fósforos, Outinen encarnou à perfeição uma versão finlandesa de Macabéa - protagonista de A hora da estrela, de Clarice Lispector - e serviu de ilustração da miséria humana, num dos filmes mais pessimistas do realizador. Em Juha, não emitiu sons audíveis ao público, numa homenagem deliciosa ao cinema mudo, e resumiu a olhares e suspiros regados à comédia o arrependimento de uma mulher diante de uma escolha errada.

5. Sergio Leone e Ennio Morricone


Filmes: Por um punhado de dólares (1964), Por uns dólares a mais (1965), Três homens em conflito (1966), Era uma vez no Oeste (1968), Quando explode a vingança (1971), Era uma vez na América (1984).

Como dissociar as imagens desérticas e selvagens captadas por Leone das notas musicais em combinação certeira pensadas por Morricone? Essa dupla se encarregou de presentear olhos e ouvidos em histórias nas quais a selvageria é insígnia de sobrevivência e até de dignidade, e fez por onde ser lembrada por qualquer apreciador de bons filmes, não apenas dentro do mundinho cinéfilo. Assim como Allen e Farrow tinham uma relação para além dos estúdios, Leone e Morricone tinham sido colegas de ginásio, e o primeiro lembrou logo do segundo para a trilha de Por um punhado de dólares, inaugurando a trilogia que representa com folga o espírito do western spaghetti. Daí em diante, os dois romanos jamais deixaram de trabalhar juntos, até a morte de Leone por infarto. Que triste ele não ter podido contemplar a vitória tardia do amigo tempos depois: um Oscar por seu trabalho em Os oito odiados (2015).