Pesquisar este blog

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

BALANÇO MENSAL - NOVEMBRO

Parece que novembro teve apenas  15 dias, tamanha a rapidez com que passou. O mês do meu aniversário é também meu preferido, e gostaria de que ele se estendesse um pouco mais... Em se tratando de filmes, o ritmo continuou intenso, mas ando numa maré de títulos fracos que, por vezes, desanima. Por onde andam os filmes dignos de um 9 ou um 10? Talvez também conte o fato de eu estar decidindo algumas sessões em cima da hora, flexibilizando demais meus critérios e, com isso, venho entrando em contato com produções de gosto altamente duvidoso, que não tinham realmente como trazer um bom resultado. Seja como for, alguns nomes conhecidos fizeram o mês um pouco menos fraco, tais como François Ozon, King Vidor, Leon Hirszman e Jacques Demy


MEDALHA DE OURO

A turba (King Vidor, 1928)


É bom não confundir a turba do título com o instrumento musical, este sem a letra r no nome. Hoje uma palavra fora de moda, turba designa multidões, característica das grandes cidades, cada vez mais inchadas de pessoas acreditando que vão fazer a vida tirando a sorte grande na selva cimentada. Não é bem o que acontece com a maioria, e nosso protagonista John Sims (James Murray), nascido em 4 de julho de 1900, é um desses para quem a vida não sorri com frequência. Toda sua história é contada com os poucos recursos disponíveis na época, mas que não comprometem em nada a qualidade da obra, pertencente à era do cinema mudo. Vidor construiu um épico sobre a voracidade urbana, que engole seus habitantes sem piedade, e cada um se vire como pode nessa eterna disputa pelo seu quinhão. O roteiro nos faz testemunhas de seu amor, sua luta profissional cheia de reveses e as dificuldades na criação do filho. Um homem como outro qualquer e, mesmo assim, extraordinário.

MEDALHA DE PRATA

A falecida (Leon Hirszman, 1965)


Cronista da infidelidade e da insatisfação, Nelson Rodrigues focalizou o segundo tema ao escrever A falecida, cuja versão cinematográfica assinalou a estreia de ninguém menos do que Fernanda Montenegro nas telas. Idêntica à filha na época, ela encarna Zulmira, mulher que decide se despedir da vida e quer deixar tudo esquematizado para um velório e um sepultamento cheio de pompa e circunstância. Mesmo que para isso precise desencavar um passado recente que não depõe em nada a seu favor, e é quando o primeiro dos temas caros a Rodrigues emerge durante a narrativa. A adaptação de Hirszman é bem-sucedida ao capturar a melancolia de um tempo em que o Brasil começava a respirar ares ditatoriais e o milagre econômico era encontrado apenas nos discursos políticos. A emblemática cena da chuva, quando Zulmira tem seu real instante de liberdade e leveza, segue como uma lembrança de que a simplicidade também é artigo raro no cotidiano sofrido de muitos brasileiros.

MEDALHA DE BRONZE

Estocolmo (Rodrigo Sorogoyen, 2013)



Pertencente ao grupo de filmes cujas narrativas transcorrem em apenas algumas horas, Estocolmo se reveza entre o ensaio de romance de sua primeira parte e o suspense psicológico que toma conta da segunda metade. A premissa é muito simples: um homem insiste em passar a noite com uma jovem que conheceu em uma festa à qual foi a convite de um amigo. Depois da resistência inicial dela ao envolvimento de uma madrugada, o espectador é surpreendido pela mudança de atitude de um deles, deflagrando momentos de tensão e moldando o que parece um jogo de provocação. Talentosamente dirigido, o longa abre espaço para discutir medo e solidão nos dias de hoje, e o faz sem negligenciar a dimensão do entretenimento, equilíbrio nada fácil de se alcançar.

INÉDITOS

359. O outro lado (Roberto Minervini, 2015) -> 7.0
360. O amante duplo (François Ozon, 2017) -> 7.5
361. A turba (King Vidor, 1928) -> 8.0
362. Todos os outros (Maren Ade, 2009) -> 7.0
363. Tango & Cash: os vingadores (Albert Magnoli e Andrey Konchalovskiy, 1989) -> 5.0
364. Estocolmo (Rodrigo Sorogoyen, 2013) -> 8.0
365. Vermelho russo (Charly Braun, 2016) -> 7.5


366. Mais forte que o mundo (Afonso Poyart, 2016) -> 6.0
367. Du forsvinder (Peter Schønau Fog, 2017) -> 6.0
368. Síndrome da China (James Bridges, 1979) -> 6.0
369. Hector e a procura da felicidade (Peter Chelsom, 2014) -> 6.0
370. Terra selvagem (Taylor Sheridan, 2017) -> 7.0
371. Suíte francesa (Saul Dibb, 2014) -> 7.0



372. Bom comportamento (Benny e Josh Safdie, 2017) -> 7.5
373. Horas decisivas (Craig Gillespie, 2016) -> 4.0
374. Jack Reacher: o último tiro (Christopher McQuarrie, 2012) -> 6.0
375. Seis dias, sete noites (Ivan Reitman, 1998) -> 5.0
376. Dupla explosiva (Patrick Hughes, 2017) -> 5.0



377. A falecida (Leon Hirszman, 1965) -> 8.0
378. O segredo íntimo de Lola (Jacques Demy, 1969) -> 7.5
379. Aos teus olhos (Carolina Jabor, 2017) -> 7.0
380. Excursão escolar (Henner Winckler, 2002) -> 5.0
381. Encalhados (Lynn Shelton, 2014) -> 5.0
382. How to talk to girls at parties (John Cameron Mitchell, 2017) -> 4.0



383. Roubo em família (Steven Soderbergh, 2017) -> 5.0
384. Nocturama (Bertrand Bonello, 2016) -> 8.0
385. Be cool - O outro nome do jogo (F. Gary Gray, 2005) -> 5.0
386. Fala comigo (Felipe Sholl, 2016) -> 4.0
387. Bridget Jones - No limite da razão (Beeban Kidron, 2004) -> 6.5
388. Respirar (Karl Markovics, 2011) -> 7.0


389. As coisas da vida (Claude Sautet, 1970) -> 6.0
390. O franco atirador (Pierre Morel, 2015) -> 7.0
391. High hopes (Mike Leigh, 1988) -> 7.0
392. Videodrome - A síndrome do vídeo (David Cronenberg, 1983) -> 6.0
393. Irmãos de sangue (Spike Lee, 1995) -> 7.5

REVISTOS

Incêndios (Denis Villeneuve, 2010) -> 8.0
A lenda do cavaleiro sem cabeça (Tim Burton, 1999) -> 8.0
Moonrise kingdom (Wes Anderson, 2012) -> 7.5
Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Michel Gondry, 2004) -> 10.0


MELHOR FILME: A turba
MELHOR DIRETOR: King Vidor, por A turba
MELHOR ATRIZ: Fernanda Montenegro, por A falecida
MELHOR ATOR: Jérémie Renier, por O amante duplo
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Kristin Scott Thomas, por Suíte francesa
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Isabel Peña e Rodrigo Sorogoyen, por Estocolmo
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Eduardo Coutinho e Leon Hirszman, por A falecida
MELHOR TRILHA SONORA: Daniel Lopatin, por Bom comportamento
MELHOR FOTOGRAFIA: Manuel Dacosse, por O amante duplo
MELHOR CENA: O banho de chuva de Zulmira em A falecida
MELHOR FINAL: Estocolmo

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

BALANÇO MENSAL - OUTUBRO

Entre os diretores que passearam na minha tela durante o mês de outubro, destaco Sidney Pollack, François Truffaut, Tony Scott, David Fincher, Martin Scorsese e Tsai Ming-Liang, nem todos com produções que me agradaram, diga-se de passagem. Dois deles, porém, conseguiram vaga no pódio em um mês sem nenhuma nota acima de 8. Por onde andam os filmes arrebatadores? A procura continua em novembro...

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

A noite dos desesperados (Sidney Pollack, 1969)


Uma maratona de dança que premia a dupla vencedora em dinheiro. Movidos por seus sonhos e necessidades, os participantes se entregam a um circo de horrores que ganha repercussão nacional pela televisão. As regras são absurdas, a começar pelo tempo: a cada duas horas, é permitido um descanso de dez minutos. É assim que vamos testemunhando o adjetivo presente no título fazer cada vez mais sentido, e entre os resistentes se encontra uma jovem Jane Fonda que, na pele de Gloria, vai se desfazendo a cada fase da maratona. Tanto Pollack quanto ela receberam indicações ao Oscar, mas não foram premiados. Na categoria de coadjuvantes, porém, Gig Young foi vencedor. Por volta de sua meia hora final, também já estamos cansados e desanimados, como se também fôssemos um daqueles dançarinos para os quais é tudo ou nada.


MEDALHA DE PRATA

Tempo de embebedar cavalos (Bahman Gohbadi, 2000)


É comum associar o Oriente Médio a paisagens desérticas, com suas tempestades de areia e seu calor abrasador, mas o longa de Bahman Gohbadi focaliza neve e muito frio, por isso é tempo de embebedar cavalos, o único modo de aquecê-los para enfrentar longas travessias por entre territórios. Situado na fronteira entre o Irã e o Iraque, o enredo acompanha três irmãos lidando com os males de uma região onde o ódio é força motriz de intermináveis conflitos, e um deles precisa de uma cirurgia o mais rápido possível para garantir sua sobrevivência. Em curtos 70 minutos, sem apelar para o batido recurso da trilha sonora incidental, Gohbadi desperta comoção, e o fato de o ator que interpreta o irmão doente ter o problema na vida real amplifica a força da história. O cineasta foi assistente de direção de ninguém menos que Abbas Kiarostami, e aqui demonstra, intencionalmente ou não, uma filiação ao neorrealismo italiano.


MEDALHA DE BRONZE

Vidas em jogo (David Fincher, 1997)


Metalinguagem é uma das minhas temáticas preferidas. Ao ler que Fincher havia tratado dela no único filme seu que ainda não tinha visto, aumentou a vontade de conferi-lo e saber se me agradaria como outros de sua carreira. O resultado foi tão positivo que estou aqui no pódio falando sobre ele... Na pele de Nicholas Von Orton, sujeito presunçoso que se fia na grana que acumulou em anos, Michael Douglas é cooptado para um jogo que modifica tudo na sua rotina e o faz suspeitar de todos. Como vemos tudo sob a ótica do protagonista, também acabamos por ficar em dúvida sobre as verdadeiras intenções de cada um que atravessa seu caminho, mas a grande reviravolta dos minutos finais coloca as coisas em outra ordem, e é quando o filme vale ainda mais a pena e a tal metalinguagem se revela.

INÉDITOS

LONGAS

330. Absolutamente impossível (Terry Jones, 2015) -> 6.0
331. Muitos homens num só (Mini Kerti, 2014) -> 7.0
332. A noite dos desesperados (Sidney Pollack, 1969) -> 8.0
333. Histórias de cozinha (Bent Hammer, 2003) -> 7.0
334. Baywatch (Seth Gordon, 2017) -> 4.0
335. As boas maneiras (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2017) -> 7.5


336. Incontrolável (Tony Scott, 2010) -> 6.0
337. Wilson (Craig Johnson, 2017) -> 7.0
338. O céu de Tóquio à noite é sempre do mais denso tom de azul (Yûya Ishii, 2017) -> 5.0
339. Flame & Citron - Os resistentes (Ole Christian Madsen, 2008) -> 6.0
340. O quarto verde (François Truffaut, 1978) -> 7.0
341. O sul (Victor Erice, 1983) -> 8.0
342. Perigo real e imediato (Philip Noyce, 1994) -> 5.0


343. Pequena grande vida (Alexander Payne, 2017) -> 7.0
344. Tempo de embebedar cavalos (Bahman Gohbadi, 2000) -> 8.0
345. Vidas em jogo (David Fincher, 1997) -> 8.0
346. Garota, interrompida (James Mangold, 1999) -> 7.0
347. O diário de Bridget Jones (Sharon Maguire, 2001) -> 6.0
348. Que horas são aí? (Tsai Ming-Liang, 2001) -> 7.0
349. Ruth & Alex (Richard Loncraine, 2015) -> 7.0


350. Separados pelo casamento (Peyton Reed, 2006) -> 6.0
351. As bem armadas (Paul Feig, 2013) -> 5.0
352. O pranto de um ídolo (Lindsay Anderson, 1963) -> 7.5
353. A cor do dinheiro (Martin Scorsese, 1986) -> 7.0
354. Adivinhe quem vem para jantar (Stanley Kramer, 1967) -> 7.5


355. Cronicamente inviável (Sérgio Bianchi, 2000) -> 8.0
356. Viver é fácil com os olhos fechados (David Trueba, 2013) -> 7.0
357. Timbuktu (Abderrahmane Sissako, 2014) -> 7.5
358. Contatos imediatos do terceiro grau (Steven Spielberg, 1977) -> 6.0

REVISTOS

O leitor (Stephen Daldry, 2008) -> 8.0
Ponto final (Woody Allen, 2005) -> 10.0
Amor a toda prova (Glenn Ficarra e John Requa, 2011) -> 8.0
Um beijo roubado (Wong Kar-Wai, 2007) -> 8.0

MELHOR FILME: A noite dos desesperados
PIOR FILME: Baywatch
MELHOR DIRETOR: David Fincher, por Vidas em jogo
MELHOR ATRIZ: Jane Fonda, por A noite dos desesperados
MELHOR ATOR: Sidney Poitier, por Adivinhe quem vem para jantar
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Katharine Hepburn, por Adivinhe quem vem para jantar
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sean Penn, por Vidas em jogo
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: John D. Brancato e Michael Ferris, por Vidas em jogo
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Victor Erice, por O sul
MELHOR TRILHA SONORA: Johnny Green, por A noite dos desesperados
MELHOR FOTOGRAFIA: Saed Nikzat, por Tempo de embebedar cavalos
MELHOR CENA: O reencontro de Brooke e Gary em Separados pelo casamento
MELHOR FINAL: Tempo de embebedar cavalos

domingo, 1 de outubro de 2017

BALANÇO MENSAL - SETEMBRO

Como acontece desde março de 2012, vi pelo menos um filme por dia ao longo do mês de setembro, com exceção de um único dia, no qual ocupei meu tempo como guia turístico informal pela minha cidade. Então, a leva de títulos é volumosa, conforme se verá logo abaixo. Em termos de notas, nenhum conseguiu mais do que 8, um dado preocupante, diga-se de passagem. O questionamento - que já está se tornando velho - sobre os filmes não serem tão bons ou eu ter me tornado mais exigente com o tempo persiste. Mas exagero um pouco ao falar em preocupação e citar notas. Afinal, cinema nunca rimou com matemática, e esses numeraizinhos de 0 a 10 que acompanham meus filmes são apenas uma leve tentativa de traduzir os sentimentos que eles despertaram, bem como a falta deles. 

O cinema francês prevaleceu no pódio de setembro, com exemplares de sua força além das palavras. Em comum as medalhas de ouro e de bronze também tem o fato de serem assinadas por mulheres, um detalhe significativo em um universo ainda regido pelo sexo masculino. É com prazer que afirmo que elas não estão aqui preenchendo cotas, mas como resultado de inúmeros méritos, alguns dos quais procuro apontar nos parágrafos relativos a cada obra. Segue mais um balanço mensal para os meus cinco leitores!

MEDALHA DE OURO

Coração e alma (Katell Quillévéré, 2016)



A vida continua. Nem sempre do jeito que desejamos. Assim como nem sempre permanecem conosco quem gostaríamos de ter pela vida inteira. A realizadora ilustra essas certezas em um drama de tintas fortes, mas nunca pesa a mão e oferece algumas centelhas de esperança em sequências pontuais dentro de uma narrativa sobre um garoto que sofre morte cerebral após um grave acidente e uma mulher que aguarda sua vez para um transplante de coração. Quillévéré divide o foco entre esses dois protagonistas: um está deixando a vida, outra está lutando para continuar tendo a sua. E que cenas emocionantes essas condições em que eles estão proporcionam. Passado e presente também se alternam, contribuindo para entender um pouco sobre quem é o rapaz, precocemente incapacitado, num caso incomum de filho indo embora antes dos pais. Quanto à mulher, também conhecemos um pouco de sua bagagem de vida, que inclui alegrias e arrependimentos. A vida é assim, afinal. 

MEDALHA DE PRATA

Contratiempo (Oriol Paulo, 2016)



É sempre bom quando exemplares de gêneros tipicamente associados à seara hollywoodiana aparecem vindo de outras terras. Isso lembra a algumas pessoas que existem outras nacionalidades possíveis para os filmes. Contratiempo abraça a cartilha do suspense e capricha nas reviravoltas, brincando com a percepção da verdade e do fingimento o tempo todo. Típico caso em que os detalhes fornecem pistas valiosas para o entendimento global da trama, o longa desafia os espectadores com faro detetivesco aguçado. Mesmo os mais espertinhos podem experimentar a sensação de puxada de tapete, sobretudo nos minutos finais - óbvio que não vou dar qualquer informação a respeito desse momento da história.  O pouco que dá para dizer é que um casal de amantes vê sua situação se tornar cada vez mais complicada depois de um acidente, e nada é exatamente o que parece. Vale pena ficar de olho em Paulo, que acumula as funções de diretor e roteirista acertando em cheio nas duas.

MEDALHA DE BRONZE

Polissia (Maiwënn, 2011)



Quase tudo incomoda em Polissia. As situações apresentadas estão inscritas no cotidiano, mas nem por isso podem ser encaradas sob a ótica da normalidade. São histórias de estupro e abuso infantil, a maioria deles cometidos por parentes próximos das crianças ou por outro adultos que conseguem uma relação de confiança com elas, como um professor de natação. Além desses dramas diários, os policiais e assistentes sociais enfrentam suas próprias dificuldades pessoais, e a câmera de Maiwënn acompanha tudo com a atenção de um observador curioso. Ela também interpreta uma fotógrafa que acompanha a equipe e divide opiniões com seus cliques insistentes, e muitos são realmente fora de hora. O detalhe interessante do título é que polícia foi grafado propositalmente fora do padrão, tanto no original como em português, evocando as crianças - grandes beneficiadas pelo trabalho desses profissionais -, que ainda não assimilaram as regras de escrita de sua língua. Uma sacada simples, genial e resumitiva do propósito do filme.


INÉDITOS

299. Vida (Daniel Espinosa, 2017) -> 7.5
300. Coração e alma (Katell Quillévéré, 2016) -> 8.0
301. Contratiempo (Oriol Paulo, 2016) -> 8.0
302. A mulher sem cabeça (Lucrecia Martel, 2008) -> 4.0
303. Clamor do sexo (Elia Kazan, 1961) -> 8.0
304. Polissia (Maiwënn, 2011) -> 8.0



305. Sieranevada (Cristi Puiu, 2016) -> 6.0
306. Atômica (David Leitch, 2017) -> 8.0
307. Como nossos pais (Laís Bodansky, 2017) -> 6.0
308. As duas faces de janeiro (Hossein Amini, 2014) -> 7.0
309. Entrando numa fria maior ainda com a família (Paul Weitz, 2010) -> 5.0
310. Uma aventura na África (John Huston, 1951) -> 7.0
311. Ao cair da noite (Trey Edward Shults, 2017) -> 8.0



312. As crônicas de Nárnia - A viagem do Peregrino da Alvorada (Michael Apted, 2010) -> 6.5
313. Cyrus (Jay e Mark Duplass, 2010) -> 6.0
314. Os meninos que enganavam nazistas (Christian Duguay, 2017) -> 8.0
315. E la nave va (Federico Fellini, 1983) -> 7.5
316. Sem direito a resgate (Daniel Schechter, 2013) -> 6.0
317. O lar das crianças peculiares (Tim Burton, 2016) -> 5.0
318. Na praia à noite sozinha (Hong Sang-soo, 2016) -> 8.0




319. Agonia e glória (Samuel Fuller, 1980) -> 7.0
320. Mulher Maravilha (Patty Jenkins, 2017) -> 7.0
321. Quando os jovens se tornam adultos (Barry Levinson, 1982) -> 7.0
322. Omar (Hany Abu-Assad, 2013) -> 8.0
323. O poderoso chefinho (Tom McGrath, 2017) -> 5.5
324. De canção em canção (Terrence Malick, 2017) -> 5.0



325. Animal político (Tião, 2016) -> 4.0
326. Brazil - O filme (Terry Gilliam, 1985) > 7.5
327. Nashville (Robert Altman, 1975) -> 7.0
328. Guerra (Tobias Lindholm, 2015) -> 8.0
329. Sweet sixteen (Ken Loach, 2002) -> 7.5

REVISTOS

O abismo prateado (Karim Ainöuz, 2011) -> 8.0
2001 - Uma odisseia no espaço (Stanley Kubrick, 1968) -> 9.0
Tiros na Broadway (Woody Allen, 1994) -> 9.0
O garoto da bicicleta (Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2011) -> 9.5
Soul kitchen (Fatih Akin, 2009) -> 8.0

MELHOR FILME: Coração e alma
PIOR FILME: A mulher sem cabeça/Animal político
MELHOR ATRIZ: Ana Wagener, por Contratiempo
MELHOR ATOR: Viggo Mortensen, por As duas faces de janeiro
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Karin Viard, por Polissia
MELHOR ATOR COADJUVANTE: James McAvoy, por Atômica
MELHOR DIRETOR: Oriol Paulo, por Contratiempo
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Oriol Paulo, por Contratiempo
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Katell Quillévéré e Gilles Taurand, por Coração e alma
MELHOR FOTOGRAFIA: Tom Harari, por Coração e alma
MELHOR TRILHA SONORA: Stephen Warbeck, por Polissia
MELHOR CENA: O desabafo de de Nadine em Polissia
MELHOR FINAL: Contratiempo

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

QUINTETO DE OURO - INGMAR BERGMAN

Em julho deste ano, completamos uma década sem Ingmar Bergman. Como passou rápido... Se, por um lado, porém, lamentamos que ele tenha partido desse mundo, por outro celebramos o fato de que sua obra resiste ao tempo, convidando a primeiras, segundas e terceiras visitas periódicas, com maior ou menor grau de aproveitamento a depender da inclinação da alma. Sim, a alma é um elemento basilar na filmografia desse sueco nascido em Uppsala, que dedicou boa parte de seus 88 anos a "capturar" uma parte intangível de todos nós, e que ele acreditava ser vermelha, levando essa ideia em toda sua explicitude para um de seus longas, entre os mais celebrados de sua carreira.

Como nas demais edições do Quinteto de Ouro, a ideia aqui não é oferecer uma biografia pessoal ou artística de um diretor homenageado. Livros e sites já existem aos montes para cumprir essa função. A proposta é destacar, num mar (in)finito de possibilidades o que mais me atrai em um tema relacionado ao universo cinematográfico. No caso de Bergman, quais são os cinco títulos que me atraem em um filmografia composta por nada menos que 64 títulos, entre produções para cinema e televisão, longas e curtas. Ainda não vi muitos deles - foram 30 longas e 1 curta até agora -, mas me considero com base quantitativa e qualitativa o suficiente para apontar (em ordem cronológica) o que há de melhor do realizador preferido de Woody Allen, e um dos meus preferidos também.

1. Morangos silvestres (Smultronstället, 1957)


Um dos ícones máximos de sua carreira juntamente com O sétimo selo (Det Sjunde Inseglet, 1957), que ele teve a capacidade de rodar no mesmo ano, essa ode à memória não poderia deixar de ganhar uma vaga no meu quinteto. É com muito carinho e quase nenhuma indulgência que Bergman, então à beira dos 40 anos, filmou o percurso de um médico veterano (Victor Sjöström, ator e diretor bissexto) até uma universidade onde será homenageado pelas décadas de profissão. Os tais morangos do título são uma entre tantas lembranças afetivas, tristes ou raivosas que povoam sua cabeça, e vão sendo acionadas neste que também é um belíssimo exemplar de filme de estrada. Há quem diga que a experiência causa sono: de fato, tudo caminha lentamente aqui, incluindo o carro com o qual Isak viaja. Mas aonde vamos com tanta pressa? Sentar e contemplar uma vida compartilhada, com a qual pode surgir mais ou menos identificação, é uma espécie de terapia muito válida e, com o tempo, que me parece cada vez mais necessária, já que o tempo ensina (ou obriga) a fazer revisões periódicas na caminhada. 

2. Persona (idem, 1966)


Não há como não se maravilhar com as interpretações de Andersson e Ullmann em seus respectivos papéis. Ambas propiciam um embate inesquecível em cada cena, mexendo com os nervos e as emoções de um público que assiste atordoado a alguns devaneios, confissões e a uma apropriação intensa de personalidade. Persona requer as nossas inferências, exige um espectador sem qualquer passividade para completar as muitas lacunas que a narrativa oferece e ler a trama à sua maneira. Esse é um traço típico do cinema bergmaniano, mas, aqui, aparece elevado a um nível de radicalismo que o torna mais aparentado de outras obras perturbadoras de sua carreira, como o aterrador A hora do lobo (Vargtimmen, 1968), rodado apenas dois anos depois. O realizador sueco se aproveitou e realçou a semelhança física entre as atrizes, duas de suas musas maiores, e o ápice dessa similitude entre elas é o plano que traz os seus rostos praticamente fundidos, confundindo-nos. Os rostos que contêm as máscaras. Os rostos que são as máscaras. Caem as máscaras. Rasga-se o véu. Tudo é um claro enigma. Viver mata. [crítica completa]

3. Cenas de um casamento (Scener ur ett Äktenskap, 1973)


Entre as várias qualidades que podem ser apontadas no filme, uma das principais é, seguramente, o texto muito bem escrito , cuja autoria coube ao próprio diretor. As palavras quase sempre exalam sinceridade e, quando não o fazem, um gesto ou um olhar dão conta de exprimir aquilo que realmente se passa com o casal. Não há reducionismos aqui: tanto um quanto o outro se mostra em vários lados, corroborando a ideia de que a fragmentação é parte integrante da composição de cada indivíduo. Avesso a qualquer formatação e opinião pré-concebida, Bergman examina Johan e Marianne e deixa que o público escolha de que lado prefere ficar, se é que se pode falar em lados quando se trata de um relacionamento a dois. De qualquer modo, mesmo que a decisão do espectador seja a de torcer por um deles, é bem provável que suas impressões mudem a todo tempo, à medida que o filme transcorre e mais e mais aspectos da natureza dos personagens vão vindo à tona. E, de nada adiantaria um texto tão transparente se o diretor não contasse com os desempenhos assombrosos de Ullmann e Josephson. Velhos conhecidos de Bergman, eles são escolhas acertadíssimas, demonstrando mais uma vez o quanto são intérpretes talentosos. [crítica completa]

4. Sonata de outono (Höstsonaten, 1978)


Uma das especialidades do cinema bergmaniano é justamente as interdições derivadas da dificuldade de comunicação. Ao longo de sua filmografia, o realizador sueco apresentou variações dentro desse tema, focalizando amantes, maridos, esposas, e irmãos, além de se propor a analisar as dessintonias entre os homens e Deus. São elementos que fizeram parte de sua vida pessoal e serviram de base para obras profundas, muitas delas capazes de operar transformações internas em seu público ou, no mínimo, de causar o desconforto de um nó na garganta. Acontece exatamente assim com Eva e Charlotte. O que a filha deseja, na verdade, é reavaliar todos os anos em que se sentiu abandonada e rejeitada pela mãe através de um confronto direto. Porque chega um tempo em que não é mais possível manter tantos sentimentos represados: é preciso liberá-los de alguma maneira, e cada um deve encontrar a sua. [crítica completa]

5. Saraband (idem, 2003)


Muitos anos transcorreram desde que Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) se viram pela última vez. O tempo é implacável: não espera por nada nem por ninguém. Por outro lado, é curioso o fato de que, muitas vezes, constatamos que longo período de distância de alguém parece se reduzir a uma escala ínfima quando se reencontra essa pessoa. Essa impressão, de certa forma, sobrevém a Marianne quando ela volta a fazer contato com Johan, exatos trinta anos após um dia que talvez tivesse sido uma despedida. E assim temos a introdução de Saraband (idem, 2003), que carrega consigo a “responsabilidade” de ser o último filme de Ingmar Bergman. Depois de uma carreira que cobriu um arco temporal de décadas, ele entregou mais um exemplar filmico de sua capacidade impressionante de escavar sentimentos de seus personagens como quem fustiga um rochedo e vê brotar dali uma nascente.  [crítica completa]

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

BALANÇO MENSAL - AGOSTO

Diferentemente dos últimos 3 anos, agosto não teve nenhuma viagem que interrompesse meu fluxo de sessões de filmes, por isso o número de títulos é superior ao de balanços anteriores do mesmo mês. Entre os diretores que trouxeram filmes inéditos para o meu currículo de 2017, que já passa de 300 longas, estiveram Jacques Demy em sua última experiência com o preto e branco, Akira Kurosawa em produção um tanto prolixa, Edgar Wright e Christopher Nolan com seus trabalhos mais recentes vistos no cinema, bem como Sofia Coppola na mesma circunstância. Também abri espaço para Ettore Scola, velho conhecido que não dava as caras há tempos. E dois queridinhos meus, que podem ser conferidos logo abaixo, fizeram tão bonito que ganharam vaga no disputado pódio. Vamos ver todo mundo que passou pelos meus olhos em agosto?

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

O outro lado da esperança (Aki Kaurismäki, 2017)


A cada filme, Aki Kaurismäki reafirma sua vocação humanista, retratando histórias de indivíduos comuns precisando sobreviver em um mundo tantas vezes hostil, mas onde ainda se encontram centelhas de gentileza e solidariedade pontilhadas por aí. Parte de mais uma trilogia iniciada com O porto (Le Havre, 2011), O outro lado da esperança (Toivon tuolla puolen, 2017) também é um olhar do finlandês para a urgente questão imigratória, que tanto convulsiona a Europa e levanta a poeira da xenofobia e do racismo, só para ficar em duas reações adversas entre os nativos do continente. E, novamente, ele focaliza as exceções ao que parece a regra não somente lá, mas em outras partes. Não sem um toque de nonsense, é bom que se diga, e aí está umas das delícias do modus operandi kaurismäkiano. [crítica completa]

MEDALHA DE PRATA

Esse obscuro objeto do desejo (Luis Buñuel, 1977)


O detalhe mais inusitado desse que é o derradeiro longa-metragem assinado por Buñuel é a alternância de atriz no papel de Conchita, o tal objeto de desejo negativamente adjetivado do título. Carole Bouquet e Ángela Molina vão e vem a cada duas ou três cenas como se fossem a mesma atriz o tempo todo, e o possível estranhamento do recurso logo cede lugar ao envolvimento com uma trama que vai sendo traçada com paciência, no esquema de flashback. Aos poucos, vamos dando cada vez mais razão ao protagonista narrador de Fernando Rey, que joga um balde de água numa mulher antes de embarcar em um trem, e pouco depois o público fica sabendo que era a tal Conchita. Depois de seus títulos mais emblemáticos, críticas mordazes à burguesia, ele encerrou a carreira mostrando mais um lado dessa classe, mas focalizando um misto de sentimentos e deixando dúvidas sobre o julgamento mais razoável para os personagens, ambos capazes de atitudes questionáveis, uma grande sacada do roteiro de Jean-Claude Carrière.

MEDALHA DE BRONZE

O que traz boas novas (Philippe Falardeau, 2011)


O subgênero filme escolar ganha novos exemplares de tempos em tempos, nem sempre de qualidade. Felizmente, o caso desse canadense que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, entregue naquele ano para A separação (Jodaeiye Nader az Simin, 2011) - uma vitória merecida, diga-se de passagem, é positivo. O senhor Lazhar do título original é um imigrante argelino passado à condição de refugiado que assume uma turma de ensino fundamental em um colégio com alunos sobretudo de classe média. Sua chegada acontece logo depois de uma atitude extrema da professora anterior, que repercute dramaticamente entre as crianças, inicialmente resistentes aos exercícios difíceis do novo mestre. Onde estariam as tais boas novas do título nacional? A princípio, elas vêm do sobrenome do professor, que ele explica em sua primeira aula, mas aos poucos o coração dos meninos vai se abrindo para ele, sem aquele apelo indutor do choro em que Hollywood tanto gosta de se basear. 

INÉDITOS

LONGAS

259. Quiz show - A verdade dos bastidores (Robert Redford, 1994) -> 8.0
260. Nossa vida não cabe num Opala (Reinaldo Pinheiro, 2008) -> 5.0
261. Nosso fiel traidor (Susanna White, 2016) -> 7.0
262. A baía dos anjos (Jacques Demy, 1963) -> 8.0
263. Oh, boy (Jan Ole Gerster, 2012) -> 6.5
264. As crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian (Andrew Adamson, 2008) -> 7.0


265. Bem-vindo ao Norte (Luca Miniero, 2012) -> 6.5
266. Esse obscuro objeto do desejo (Luis Buñuel, 1977) -> 8.5
267. Entrando numa fria maior ainda (Jay Roach, 2004) -> 6.0
268. Kagemusha - A sombra do samurai (Akira Kurosawa, 1980) -> 7.5
269. Terra estranha (Kim Farrant, 2015) -> 6.0
270. Ausência (Chico Teixeira, 2014) -> 7.0
271. Grave (Julia Ducornau, 2016) -> 7.0


272. Leviatã (Andrey Zvyagintsev, 2014) -> 7.5
273. O segurança fora de controle (Jody Hill, 2009 -> 4.0
274. Em ritmo de fuga (Edgar Wright, 2017) -> 8.0
275. Dunkirk (Christopher Nolan, 2017) -> 6.0
276. O outro lado da esperança (Aki Kaurismäki, 2017) -> 9.0
277. Uma aventura na Martinica (Howard Hawks, 1944) -> 7.0
278. Olmo e a gaivota (Petra Costa e Lea Glob, 2014) -> 7.5
279. Voltando a viver (Denzel Washington, 2002) -> 7.0


280. Violeta foi para o céu (Andrés Wood, 2011) -> 8.0
281. Caçador de morte (Walter Hill, 1978) -> 7.0
282. Pets - A vida secreta dos bichos (Yarrow Cheney e Chris Renaud, 2016) -> 6.0
284. O filme da minha vida (Selton Mello, 2017) -> 6.0
285. Colossal (Nacho Vigalondo, 2016) -> 5.0
286. Rififi (Jules Dassin, 1955) -> 7.5
287. O estranho que nós amamos (Sofia Coppola, 2017) -> 7.0


288. O último pôr do sol (Robert Aldrich, 1961) -> 8.0
289. O baile dos bombeiros (Miloš Forman, 1967) -> 7.0
290. Feios, sujos e malvados (Ettore Scola, 1975) -> 8.0
291. O bar (Álex da la Iglesia, 2017) -> 7.5
292. A comunidade (Thomas Vinterberg, 2016) -> 7.0
293. A perseguição (Joe Carnahan, 2011) -> 7.5


294. Perigo por encomenda (David Koepp, 2012) -> 6.0
295. Anna Karenina (Joe Wright, 2012) -> 6.0
296. Jogos patrióticos (Philip Noyce, 1992) -> 5.0
297. O que traz boas novas (Philippe Falardeau, 2011) -> 8.0
298. Planeta proibido (Fred M. Wilcox, 1956) -> 7.0

CURTA

World of tomorrow (Don Hertzfeldt, 2015) -> 8.0

REVISTOS

Zodíaco (David Fincher, 2007) -> 8.0
Canções de amor (Christophe Honoré, 2007) -> 7.0
Veludo azul (David Lynch, 1986) -> 9.0
De volta para o futuro 3 (Robert Zemeckis, 1990) -> 8.0
Ensaio sobre a cegueira (Fernando Meirelles, 2008) -> 8.0

MELHOR FILME: O outro lado da esperança
PIOR FILME: O segurança fora de controle
MELHOR DIRETOR: Aki Kaurismäki, por O outro lado da esperança
MELHOR ATRIZ: Trine Dyrholm, por A comunidade
MELHOR ATOR: John Turturro, por Quiz show - A verdade dos bastidores
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Viola Davis, por Voltando a viver
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Denzel Washington, por Voltando a viver
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Aki Kaurismäki, por O outro lado da esperança
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Dalton Trumbo, por O último pôr do sol
MELHOR TRILHA SONORA: Aki Kaurismäki, por O outro lado da esperança
MELHOR FOTOGRAFIA: Timo Salminen, por O outro lado da esperança
MELHOR CENA: O jantar japonês de O outro lado da esperança
MELHOR FINAL: Esse obscuro objeto do desejo

sábado, 26 de agosto de 2017

O outro lado da esperança e o humanismo sutilmente inscrito

A cada filme, Aki Kaurismäki reafirma sua vocação humanista, retratando histórias de indivíduos comuns precisando sobreviver em um mundo tantas vezes hostil, mas onde ainda se encontram centelhas de gentileza e solidariedade pontilhadas por aí. Parte de mais uma trilogia iniciada com O porto (Le Havre, 2011), O outro lado da esperança (Toivon tuolla puolen, 2017) também é um olhar do finlandês para a urgente questão imigratória, que tanto convulsiona a Europa e levanta a poeira da xenofobia e do racismo, só para ficar em duas reações adversas entre os nativos do continente. E, novamente, ele focaliza as exceções ao que parece a regra não somente lá, mas em outras partes. Não sem um toque de nonsense, é bom que se diga, e aí está umas das delícias do modus operandi kaurismäkiano. 

Inicialmente desencontrados, Wikhström (Sakari Kuosmanen) e Khaled (Sherwan Haji) entram em cena sob essa ótica inusitada que o realizador gosta de cultivar. O primeiro está deixando a esposa sem qualquer fala, apenas lhe entregando o velho símbolo da união de ambos: uma aliança, que ele joga sobre a mesa e ela sequer tenta segurar. Não se sabe ao certo o que causou a decisão, mas ela parece, àquela altura, irreversível. O segundo aparece enegrecido após a emersão de uma montanha de carvão mineral, e só mais adiante a razão para ele ter estado ali é contada: ele é um imigrante sírio em busca de asilo político que foi parar na Finlândia depois que não conseguiu sair de um navio que rumava àquele país. A essa altura, O outro lado da esperança é um díptico sobre dois homens em processo de reconstrução, e as marcas que consagraram Kaurismäki e lhe tornam um cineasta inconfundível aos primeiros minutos desfilam pela tela. 

Além do já citado elemento nonsense, seus atores parecem não se esforçar muito para interpretar, digamos assim. O roteiro emulsiona possíveis gorduras sentimentais vai direto ao ponto, mas engana-se quem pensa que o resultado é a frieza. A estratégia remete a um de seus mentores, um certo Robert Bresson, de longas como O batedor de carteiras (Pickpocket, 1959) e A grande testemunha (Au hasard Balthazar, 1966), mas as semelhanças com a obra do francês não vão muito além de tal detalhe. Kaurismäki se filia bem mais a Yasujiro Ozu, e o próprio diretor já declarou que pretende fazer vários filmes ainda para então se conformar que nunca vai chegar aos pés do realizador japonês, cuja filmografia pode ser "acusada" de monotemática sob um olhar meramente sinóptico. Porém, como vários outros medalhões da realização cinematográfica, Ozu conseguia pintar com novas tonalidades seu tema preferido: a filha que adia sua partida de casa para se devotar ao pai que não se viraria muito bem com sua ausência. É a mesma acusação que se faz contra Woody Allen e seus recortes sobre neuróticos sem rumo. 


Dito isso, é de uma modéstia exagerada o finlandês afirmar que não é tão bom quanto Ozu: cada qual com seu estilo e temática, eles presenteiam seu público com um humanismo sempre bem-vindo. O outro lado da esperança é um filme de seu tempo, ao mesmo tempo em que reforça valores atemporais aliado a um conjunto cênico minimalista e às comentadas interpretações comedidas. Ao escolher abordar os fluxos migratórios, ele não só coloca o dedo numa ferida aberta (por força de expressão, uma vez que é descabido falar em ferida tanto literal quanto figuradamente), como também lembra que é na ajuda mútua que o mundo gira melhor, sem perder de vista o senso de humor. Para ilustrá-lo, dois exemplos: o desastrado cruzamento das trajetórias de Wikhström e Khaled, que começa com uns sopapos um no outro para, na cena seguinte, o dono do restaurante acolher o sírio com um prato de comida; e o jantar japonês (alguém pensou em Ozu?) improvisado de última hora para receber clientes daquela nação, com todos os empregados vestidos a caráter. Situações que geram um sorriso discreto, assim como Wes Anderson costuma fazer em suas comédias.

Kaurismäki foi premiado com o Urso de Prata de direção no Festival de Berlim, no qual competiu com nomes como Agnieska Holland, Sebastián Lelio e Calin Peter Netzer. Por incrível que pareça, nenhum filme seu tinha sido selecionado para o Festival até então, e nada mais justo do que um reconhecimento desses para seu trabalho, merecido mesmo, não um daqueles casos de premiação tardia pelo conjunto da obra. Ele é uma voz dissonante entre seus conterrâneos, que estigmatizam os estrangeiros e, por vezes, chegam à agressão física, e notícias de 2016 apontam o surgimento de patrulhas anti-imigrantes, formadas por civis que argumentam que os refugiados elevam os índices de criminalidade. Autorreferidos como Soldados de Odin, entidade mitológica associada à guerra, eles também existem nas vizinhas Suécia, Dinamarca e Noruega. A princípio, o cineasta faria uma trilogia sobre cidades portuárias, mas mudou de ideia e agora está tratando de refugiados, uma decisão perfeitamente sintonizada com a exigência de um tempo em que mesmo fatos e atitudes óbvias precisam ser defendidos.

9/10