Pesquisar este blog

sábado, 3 de dezembro de 2016

BALANÇO MENSAL - NOVEMBRO

Lá se foi o mês do meu aniversário... Quando ele começou, prometi ser ainda mais criterioso com minhas escolhas para fazer desse o melhor mês cinematográfico do ano. Mas... às vezes caímos em certas armadilhas ou abrimos mais a guarda para títulos meramente distratores, e o resultado dessas concessões e acidentes pode ser conferido nas linhas abaixo. Sobre o pódio, apenas uma observação: como de hábito, figura uma produção oriental nele, o que só atesta como do outro lado do mundo existem realizadores que merecem tanta atenção quanto os do lado de cá. Segue o balanço!

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

O que terá acontecido a Baby Jane? (Robert Aldrich, 1962)


Duas atrizes em estado de graça na pele de personagens ricas em possibilidades e camadas. Assim é O que terá acontecido a Baby Jane?, que reúne Bette Davis e Joan Crawford, desafetos nos bastidores, que levam o clima de desavença para a frente da tela. Na idade adulta, as duas vivem irmãs com a relação deteriorada, mas que ainda coabitam. Enquanto Jane vive inconformada com o fim do estrelato a que fora alçada na infância, Blanche está presa a uma cadeira de rodas, consequência de um acidente de anos atrás que as duas rememoram com enorme pesar. Estamos diante de um drama assustador encenado a fórceps, por assim dizer, entre cujas passagens mais marcantes está a que traz Jane tentando voltar aos holofotes cantando a música que encantava seus fãs quando era criança. Um misto de horror e tristeza se formam diante da cena.


MEDALHA DE PRATA  

A tortura do medo (Michael Powell, 1960)


As cores embevecem as retinas expostas a esse drama com generosas doses de suspense que centra sua narrativa na figura de um homem atormentado. Incapaz de estabelecer vínculos duradouros com quem quer que seja, ele reprisa na idade adulta a crueldade a que foi submetido na infância. Fascinado pelo poder da imagem, capta os últimos olhares de mulheres de quem tira a vida, e esse horror é visualizado pelo público, feito de comparsa (in)voluntário. O convite de Michael Powell é para adentrar um túnel de medo e compulsão onde o pior lado de um ser humano vem à tona, mas o roteiro de Leo Marks não incorre no diagnóstico simplista e ainda apresenta uma fresta de redenção na figura de uma jovem. Mas ainda haverá tempo de uma reversão? A pergunta agita a cabeça e mantém o solavanco na plateia atônita.

MEDALHA DE BRONZE 

O intendente Sansho (Kenji Mizoguchi, 1954)


Nos dias de hoje, muitos se perguntam: onde está a nossa humanidade? Essa pergunta não tem nada de nova, porque a discussão sobre o endurecimento do coração humano já havia sido proposta em um tradicional conto japonês de muitos séculos. Uma das versões desse conto chegou às telas por meio de Kenji Mizoguchi, laureado pelo terceiro ano consecutivo no Festival de Veneza. Dois irmãos são privados do convívio com a mãe por anos - isso depois de já terem sido obrigados a viver longe do pai -, e essa distância altera o modo de ser do rapaz, a quem a moça já não reconhece mais: a doçura de antes se converteu em revolta e inclemência. O decorrer da trama apresenta uma mensagem em que as circunstâncias adversas e a esperança, dois polos opostos, se avizinham, e ressoam no peito como uma doce melodia de recomeço. A vida é cheia de refeituras, afinal.


INÉDITOS

348. A inglesa e o duque (Eric Rohmer, 2001) -> 8.0
349. Louca obsessão (Rob Reiner, 1990) -> 8.0
350. Anatomia de um crime (Otto Preminger, 1959) -> 8.0
351. Batguano (Tavinho Teixeira, 2014) -> 3.0
352. A luz entre oceanos (Derek Cianfrance, 2016) -> 6.0
353. Festa da salsicha (Greg Tiernan e Conrad Vernon, 2016) -> 5.0


354. A tortura do medo (Michael Powell, 1960) -> 8.5
355. Heróis de ressaca (Edgar Wright, 2010) -> 6.0
356. 007 - Marcado para a morte (John Glen, 1987) -> 6.5
357. Dope - Um deslize perigoso (Rick Famuyiwa, 2015) -> 7.5
358. O que terá acontecido a Baby Jane? (Robert Aldrich, 1962) -> 9.0
359. Lady Vingança (Chan Wook-Park, 2007) -> 7.0


360. Amores inversos (Liza Johnson, 2013) -> 6.0
361. A festa de Babette (Gabriel Axel, 1987) -> 8.0
362. Penetras bons de bico (David Dobkin, 2005) -> 3.0
363. Doutor Estranho (Scott Derrickson, 2016) -> 7.5
364. 007 - Permissão para matar (John Glen, 1989) -> 7.0
365. Violência gratuita (Michael Haneke, 2007) -> 6.0
366. Mergulho profundo (Erik Skjoldbjærg, 2013) -> 7.0


367. Amor e dor (Lou Ye, 2011) -> 6.0
368. Amor, plástico e barulho (Renata Pinheiro, 2013) -> 6.0
369. Cavalgada no vento (Monte Hellman, 1965) -> 7.5
370. O casamento do meu melhor amigo (P. J. Hogan, 1997) -> 7.0
371. O processo (Orson Welles, 1962) -> 8.0
372. High-rise (Ben Wheatley, 2015) -> 5.0


373. Ligado em você (Bobby e Peter Farrelly, 2003) -> 6.0
374. Cães de guerra (Todd Phillips, 2016) -> 7.0
375. 007 contra GoldenEye (Martin Campbell, 1995) -> 7.0
376. Destino especial (Jeff Nichols, 2016) -> 7.0
377. A chegada (Denis Villeneuve, 2016) -> 8.0
378. O sinal (Martin Hodara e Ricardo Darín, 2007) -> 7.0
379. O intendente Sansho (Kenji Mizoguchi, 1954) -> 8.5

REVISTOS

Magnólia (Paul Thomas Anderson, 1999) -> 9.0
As horas (Stephen Daldry, 2002) -> 9.0
Amantes constantes (Philippe Garrel, 2005) -> 9.0
Fale com ela (Pedro Almodóvar, 2002) -> 9.0

MELHOR FILME: O que terá acontecido a Baby Jane? 
PIOR FILME: Batguano
MELHOR DIRETOR: Michael Powell, por A tortura do medo
MELHOR ATRIZ: Bette Davis, por O que terá acontecido a Baby Jane?
MELHOR ATOR:  Karlheinz Böhm, por A tortura do medo
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Joan Crawford, por O que terá acontecido a Baby Jane?
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mads Mikkelsen, por Doutor Estranho
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Leo Marks, por A tortura do medo
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Lukas Heller, por O que terá acontecido a Baby Jane?
MELHOR FOTOGRAFIA: Otto Helle, por A tortura do medo
MELHOR TRILHA SONORA: Jóhann Jóhannsson, por A chegada
MELHOR CENA: O ensaio de Jane adulta em O que terá acontecido a Baby Jane?
MELHOR FINAL: O intendente Sansho

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

QUINTETO DE OURO - REALIZADORES ITALIANOS

Sempre existem muitas opções de tema para o Quinteto de Ouro. A cada mês, a cabeça fervilha com as possibilidades, recortadas por alguns critérios objetivos que me permitem chegar à decisão final. "Já escrevi muito sobre atores", "Podia escolher um subgênero", "Por que não uma nacionalidade?" são alguns pensamentos que me ocorrem. Até que chegamos ao mês em que faço aniversário e eu decidi que precisava escolher um tema que revelasse mais diretamente algo da minha personalidade ou rotina. Foi mais ou menos assim que optei por listar os cinco realizadores italianos que mais aprecio e - vejam só! - dessa vez, em ordem de preferência (só fiz assim porque tinha bem claro na cabeça que ordem poderia apresentar aos leitores). 

Como professor de italiano e apaixonado pela cultura daquele país, já estava na hora de dedicar algumas linhas aos meus queridinhos da Bota. O critério a que recorri para chegar aos cinco nomes foi bem simples: só valiam diretores de quem já tivesse visto, pelo menos, três filmes que tivessem me cativado. Essa é  razão da ausência de Vittorio de Sica (dos quatro dele que vi, não me envolvi com Ontem, hoje e amanhã [Ieri, oggi e domani, 1963] e, proporcionalmente, os escolhidos tinham mais de meia dúzia de filmes vistos e aprovados por mim), Ermanno Olmi (apenas dois filmes vistos) e Giuseppe Tornatore (apenas o enternecedor Cinema Paradiso [Nuovo Cinema Paradiso, 1989]) e Ettore Scola (fui pego mesmo por Nós que nos amávamos tanto [C'eravamo tanto amati, 1975]). 

Aproveitei também para citar meu filme preferido de cada diretor, outra missão bastante difícil, mas instigante. Já que não terminei a filmografia de nenhum deles, pode ser que daqui a algum tempo essa lista não seja mais representativa, mas então ficará sendo o registro de uma época - adoro história e História. Já havia escrito sobre quase todos eles há três anos, então trago esses parágrafos de volta, alguns com sutis acréscimos. Com essas ressalvas, me sinto à vontade para trazer à tona, direto do coração, meus realizadores italianos mais queridos.

1. Michelangelo Antonioni


Poucos realizadores, talvez nenhum, podem ser apontados como exímios perscrutadores do silêncio como o era Michelangelo Antonioni. De sua observação paciente das palavras não ditas e mal compreendidas que resultam no abismo verbal entre os homens, nasceu a Trilogia da Incomunicabilidade, monumento aos conflitos gestados na alma e nunca plenamente resolvidos. Para a crítica, que caiu de amores por ele depois da exibição de A aventura no Festival de Cannes, justamente o primeiro tomo da Trilogia, era um cineasta a ser acompanhado. Entretanto, o prestígio alcançado com sua obra-prima triuna entrou em declínio assim que ele começou a filmar em língua inglesa. Daí para a frente, entregou filmes subestimados, que hoje valem a pena ser (re) visitados e apreciados em suas nuances psicológicas. A grande ironia que se abateu sobre ele foi a perda da fala, em decorrência de um derrame cerebral.

FILME PREFERIDO: A noite

2. Valerio Zurlini


Para a crítica, Zurlini era o "poeta da melancolia". Ao se entrar em contato com seus filmes, a afirmativa pode ser tomada como verdadeira, pois que os personagens que os compõem experimentam diferentes gradações de tristeza, mas não resvalam no dramalhão. São histórias de relações familiares, de amores complicados e da constatação do quanto é difícil saber se colocar em palavras diante do outro. Era impressionante sua capacidade de gerar consternação, e se deixar levar por suas narrativas calmas e clássicas é uma grande e intensa experiência. Como é difícil não derramar lágrimas diante dos irmãos trágicos de Dois destinos (Cronaca familiare, 1962) ou não se encantar pela poesia dos primeiros enlevos amorosos de A moça com a valise (La ragazza con la valigia, 1961)...

FILME PREFERIDO: A primeira noite de tranquilidade

3. Federico Fellini


Representante mais lembrado da época áurea do cinema italiano, o saudoso Fellini assinou obras que ora flertavam, ora se embrenhavam de vez no realismo fantástico. Não lhe faltava criatividade para seus enredos e seus roteiros e, mesmo em sua fase menos propícia à invenção, ele encontrou elementos que pudessem render uma das mais importantes produções fílmicas calcada na metalinguagem. Seu cinema, porém, não é somente um espaço de sonho: também há crítica social em seus longas, sobretudo à Igreja Católica, embora ele também a tivesse elogiado. O tédio da burguesia romana também está presente em Fellini, e sua parceria com Marcello Mastroianni é das mais profícuas da Sétima Arte. E o que dizer da parceria com Giulietta Masina, a qual rendeu o Fellini que mais amo? Renderia tantos parágrafos... É ideia para um futuro (espero) não muito distante.

FILME PREFERIDO: Noites de Cabíria

4. Luchino Visconti


Mais um representante da era áurea da cinematografia italiana, Visconti foi responsável por assinar o marco inaugural do neorrealismo, que consistia em tramas ambientadas nas regiões menos glamourosas do seu país vivenciadas por gente comum, encarnada por atores não profissionais. Por outro lado, também adentrou os aposentos da burguesia perto do seu nascedouro, flagrando suas contradições e suas debilidades. Seu filme mais famoso, O leopardo (Il gattopardo, 1963), traz uma frase que sintetiza o espírito de várias épocas: "É preciso mudar para que as coisas permaneçam exatamente como estão". Porém, o título de mais hipnótico cabe a Morte em Veneza (Morte a Venezia, 1971), a depuração do olhar sobre a beleza e a perfeição como ideais aos quais se está fadado a apenas olhar.

FILME PREFERIDO: Morte em Veneza

5. Dario Argento


Nem só de dramas arrebatadores vivem os realizadores italianos! Argento responde pela porção sangrenta das narrativas, mesclando terror e mistério com histórias cujos pés caminham no terreno do sobrenatural sem grandes reservas. Quando debruçadas sobre a realidade, suas tramas seguem os passos de protagonistas obstinados em elucidar crimes. Daí surgiram enredos como o de Suspiria (idem, 1977) e sua paleta de cores embasbacante, o de Prelúdio para matar (Profondo rosso, 1975) com sua violência estilizada e rubra ou o de Phenomena (idem, 1985), com uma entomológica Jennifer Connelly. Em geral, Argento é para olhos corajosos.

FILME PREFERIDO: Phenomena

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

BALANÇO MENSAL - OUTUBRO

Mais um outubro ficou no passado e, entre outras coisas, isso significa a publicação de um novo balanço mensal. Os filmes que passaram diante das minhas retinas entre 1 e 31 de outubro estão devidamente reunidos abaixo, com direito ao já tradicional pódio, um dos mais disputados em muito tempo. O primeiro e o segundo lugar até que foram fáceis de preencher, pois Fritz Lang e Hong Sang-soo fizeram por onde conquistá-los com uma certa folga. A terceira posição é que foi mais pensada, porque não faltaram filmes avaliados com um 8, terceira melhor nota do mês. O posto acabou sendo entregue a Paul Verhoeven e seu longa demolidor, sobre cuja complexidade tento discorrer em algumas linhas. Seguem abaixo os títulos vistos e revistos em um mês composto apenas de longas-metragens.


PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Um retrato de mulher (Fritz Lang, 1944)



A linguagem cinematográfica é rica em possibilidades, e Fritz Lang demonstrava total consciência de tal verdade. Envolvendo seu público com uma narrativa sobre um homem cada vez mais encalacrado depois de um crime acidental, ele se apropria de signos do cinema noir para compor um olhar atordoante sobre atos e consequências. Ah... e como os olhos enganam! O poder da imagem é outro ponto crucial em Um retrato de mulher. Quantas vezes somos seduzidos pelo que vemos, criando expectativas sobre alguém e esquecendo que, nem sempre, estamos diante de alguém virtuoso. Um famoso pensador afirmou que costumamos confundir beleza com bondade, e daí vêm problemas demais. 

MEDALHA DE PRATA

Você e os seus (Hong Sang-soo, 2016)



A comédia humana é uma temática recorrente na filmografia de Hong Sang-soo. Recorrente mesmo, já que cada produção sua envolve o assunto com sutis variações entre si. Em Você e os seus, ele flagra a dissolução de um relacionamento causada pelo inconformismo de um homem com a postura mais ousada de sua então parceira. Daí para frente, ele vai se (des/re) encontrar com mulheres de forte semelhança física com ela, mas nunca sendo reconhecido. Não há como não pensar em uma metáfora sobre os relacionamentos amorosos que chegam ao fim e, de repente, já não conseguimos perceber quem é a pessoa com quem estávamos juntos até então. No fundo, conhecemos bem pouco um do outro e até sobre nós mesmos, e essa constatação surge de modo assustadoramente risível aqui.

MEDALHA DE BRONZE

Elle (Paul Verhoeven, 2016)



Isabelle Huppert é a dona absoluta do jogo engendrado por Philippe Dijan, cuja adaptação cinematográfica veio de Paul Verhoeven. Atriz de personalidade forte, ela parece emprestar muito de sua altivez e elegância para Michèle, empresária do ramo de videogames que leva a metáfora do jogo para sua vida pessoal, e reage de modo absolutamente inusitado a um episódio de invasão de domicílio seguido de abuso sexual. O autor dos crimes volta a atacar, mas ela está longe de ser vulnerável, e sabe como mover os peões de um tabuleiro que inclui a melhor amiga, o ex-marido e um amante ocasional. Todos, de alguma forma, comem na sua mão, e o desempenho avassalador de Huppert, somado à direção experiente de Verhoeven, trazem eletricidade e surpresas para a tela.


INÉDITOS

315. Procura insaciável (Miloš Forman, 1971) -> 7.5

316. Assalto ao trem pagador (Roberto Farias, 1962) -> 8.0
317. Os deuses malditos (Luchino Visconti, 1969) -> 8.0
318. Banhos (Zhang Yang, 1999) -> 7.0
319. Kick-ass - Quebrando tudo (Matthew Vaughan, 2010) -> 7.5
320. Curtindo a vida adoidado (John Hughes, 1986) -> 8.0



321. A transfiguração (Michael O'Shea, 2016) -> 6.0
322. Você e os seus (Hong Sang-soo, 2016) -> 8.5
323. 007 contra Octopussy (John Glen, 1983) -> 6.0
324. Loving (Jeff Nichols, 2016) -> 7.0
325. Um fim de semana diferente (Bob Nelson, 2016) -> 7.0
326. Cosmos (Andrzej Zulawski, 2016) -> 6.0
327. Na vertical (Alain Guiraudie, 2016) -> 8.0



328. Rebeldes do deus neon (Tsai Ming-liang, 1993) -> 7.5
329. Vou para casa (Manoel de Oliveira, 2001) -> 7.0
330. Ma ma (Julio Medem. 2015) -> 8.0
331. Um retrato de mulher (Fritz Lang, 1944) -> 9.0
332. Filhas do vento (Joel Zito Araújo, 2004) -> 8.0
333. Pardais (Rúnar Rúnarsson, 2015) -> 8.0




334. Aquário (Andrea Arnold, 2009) -> 8.0
335. Capitão Fantástico (Matt Ross, 2016) -> 7.5
336. O homem que sabia demais (Alfred Hitchcock, 1956)
337. Everybody wants some!! (Richard Linklater, 2016) -> 7.0
338. O estranho mundo de Jack (Henry Selick, 1993) -> 7.0
339. O verão de Sam (Spike Lee, 1999) -> 8.0



340. Elle (Paul Verhoeven, 2016) -> 8.0
341. 007 na mira dos assassinos (John Glen, 1985) -> 6.5
342. Linha de passe (Walter Salles e Daniela Thomas, 2008) -> 8.0
343. Se cuida, Tatiana (Aki Kaurismäki, 1994) -> 8.0
344. Nove rainhas (Fabián Bielinsky, 2000) -> 7.0
345. O inquilino (Roman Polanski, 1976) -> 8.0
346. Reine sobre mim (Mike Binder, 2007) -> 6.0
347. Assim estava escrito (Vincente Minelli, 1952) -> 8.0

REVISTOS

Kill Bill - Volume 2 (Quentin Tarantino, 2004) -> 9.0
Seven - Os sete crimes capitais (David Fincher, 1995) -> 9.0
Cada um com seu cinema (Raymond Depardon, Tsai Ming-liang, Manoel de Oliveira, Atom Egoyan, Aki Kaurismäki, Jane Campion e outros, 2007) -> 7.0
Broadway Danny Rose (Woody Allen, 1984) -> 9.0

MELHOR FILME: Um retrato de mulher
PIOR FILME: Reine sobre mim
MELHOR DIRETOR: Fritz Lang, por Um retrato de mulher/Hong Sang-soo, por Você e os seus
MELHOR ATRIZ: Isabelle Huppert, por Elle/ Penélope Cruz, por Ma ma
MELHOR ATOR: Clive Owen, por Um fim de semana diferente
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Gloria Grahame, por Assim estava escrito
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Michael Fassbender, por Aquário
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Hong Sang-soo, por Você e os seus
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: David Birke e Harold Manning, por Elle
MELHOR TRILHA SONORA: Terence Blanchard, por O verão de Sam
MELHOR FOTOGRAFIA: Sven Nykvist, por O inquilino
MELHOR CENA: Ferris cantando na rua em Curtindo a vida adoidado
MELHOR FINAL: O verão de Sam

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

QUINTETO DE OURO - DÉCADA DE 50

Eleger apenas cinco títulos de uma década inteira é tarefa hercúlea, mas vale a pena a tentativa. Daí nasceu mais um Quinteto de Ouro, que reúne longas-metragens rodados entre 1950 e 1959 para formar um panorama singelo - na quantidade, não na qualidade - de olhares e construções dessa imensa árvore de tantos frutos que é o cinema. 

Apenas para esclarecer, a ordem adotada para dispor os filmes, como é hábito meu, foi a cronológica. Para que se torturar com ordem de preferência envolvendo filmes quase igualmente amados? Também evitei a repetição de diretores, e alguns dos que assinam os filmes selecionados têm mais de uma belezura nessa mesma década. Então, vamos aos cinco queridinhos da década de 50 na minha modesta opinião...

1. A montanha dos sete abutres (Billy Wilder, 1951)


Lá se vão mais de 60 anos desde que Billy Wilder levou Kirk Douglas ao deserto para extrair dele uma de suas primorosas interpretações. Na pele de Charles Tatum, o ator (hoje quase centenário) mostrou uma faceta odiosa, um daqueles raros casos hollywoodianos de protagonista digno do selo de vilão, embora os caminhos do roteiro centrifuguem o maniqueísmo. Designado para cobrir o caso de um acidente envolvendo um mineiro, o personagem é antecipação do sensacionalismo dos programas que se infiltraram na televisão em fins da década de 90 e lá estão ainda hoje. O que entristece o público de A montanha dos sete abutres é constatar que o passar de tantos anos não tirou nem um pouco de sua atualidade.

2. Luzes da ribalta (Charles Chaplin, 1952)


Um belo título alternativo para Luzes da ribalta seria Calvero e a bailarina. O despertar da amizade entre um veterano da atuação pantomímica e uma amante da dança permeia esse filme-testamento, que poderia perfeitamente ter sido o último trabalho de Chaplin, mas ele ainda levaria quase uma década para se despedir do ofício que tanto amava (e, por um lado, foi ótimo que outros filmes tenham vindo). A conhecida resistência do ator e realizador em inserir falas nos seus longas foi, aos poucos, vencida, e aqui as palavras aparecem carregadas de ternura, mas os gestos, os olhares e outras expressões visuais ainda são bem mais potentes do que qualquer diálogo. Como todo artista vocacionado, ele sabia a hora do adeus, e o tempo o eternizou no coração do público.

3. Janela indiscreta (Alfred Hitchcock, 1954)


Ah, o que o tédio não faz... O velho Jeff (James Stewart) que o diga! Drasticamente podado em seus movimentos, o jornalista tem ao seu alcance uma janela de onde enxerga o que quer. E o problema está exatamente nesse último aspecto: ele enxerga o que quer. Avesso aos comentários da namorada - interpretada por uma certa Grace Kelly - ele exercita seu faro investigativo e chega a conclusões que parecem irrefutáveis. Mas, em se tratando de um legítimo Hitchcock, pode haver sempre o binômio lugar certo, história errada. Tomando por base um conto de Cornell Woolrich intitulado Tem que ter sido crime, em tradução livre, o Mestre do Suspense deita e rola com macroplanos e nos torna cúmplices de Jeff. E, uma vez cooptados, queremos ir até o fim nessa busca voyeurística pela real versão.

4. A palavra (Carl Theodor Dryer, 1955)


Cinema é imagem, mas também pode ser palavra. A fusão desses dois suportes de comunicação resulta em uma poderosa reflexão sobre os limites da fé - e eles não são curtos nem estreitos, como o longa de Dryer permite concluir. Os escandinavos têm uma relação difícil com a crença no Deus invisível, mas muitos deles, ao menos os cineastas, não deixam de tentar dialogar de alguma forma com esse ser cuja grandeza faz pressupor ausência ou distância. Longe de ser panfletário para um ou outro lado da discussão de século sobre Ele, A palavra é pacientemente observador e flagra seus personagens em hesitaçõs e conflitos pelos ambientes das casas de duas famílias que divergem quanto à religião, esse conjunto de ritos que pesa, e muito sobre os ombros.

5. Morangos silvestres (Ingmar Bergman, 1957)


Cinema é lembrança, e o percurso de imersão na memória proposto por Bergman através da figura de um velho professor de volta à sua terra segue como um emocionante tratado no melhor estilo "minha vida passou como um filme diante dos meus olhos". Mostrando que ser humano é ser complexo, incluindo qualidades e defeitos, o realizador sueco examina a velhice e ausculta sentimentos como alguém já íntimo deles há tempos - e olha que ele ainda estava para completar 40 anos quando rodou o longa. Exemplar de um subgênero periodicamente revisitado, o "filme-testamento", Morangos silvestres deixa um gosto agridoce no paladar cinéfilo e ocupa as paredes da memória com quadros vivazes e deslumbrantes.

domingo, 2 de outubro de 2016

BALANÇO MENSAL - SETEMBRO

Ao longo do mês de setembro, foram 36 filmes, entre inéditos e revisitados, que formaram um panorama de nacionalidades, realizadores, tramas e intérpretes. A união entre quantidade e qualidade foi notável: tive a sorte de ter deparado com apenas uma bomba, além de reafirmar o gosto por alguns títulos com o quais tinha estado em contato pela primeira (ou última vez) fazia muito tempo. Também foi um mês com nota 10, item raro este ano, e o detentor da cotação máxima foi concebido aqui mesmo, em terras brasileiras. Também tem um pouco de Brasil no ocupante do segundo lugar do pódio, uma coprodução que ainda envolve Chile, Colômbia, França e Holanda. O terceiro posto é de um resquício tardio de infância. Vamos ao balanço de filmes vistos em setembro?

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Aquarius (Kleber Mendonça Filho, 2016)


Crítica completa aqui

MEDALHA DE PRATA

A terra e a sombra (César Augusto Acevedo, 2015)


Essencialmente contemplativa, a câmera de Acevedo oferece paisagens emocionais deslumbrantes para narrar a história de um senhor de retorno à casa e à família que deixara mais de uma década. O cenário com o qual depara não é nada alentador, e se reinserir à dinâmica na qual ora vivem ex-esposa, nora, filho e neto é uma tarefa na qual ele se empenha e ante à qual encontra a resistência da ex-esposa, profundamente ferida com todo aquele tempo de abandono. Os diálogos surgem com timidez dura, e o despertar da comoção no público nada tem a ver com trilhas sonoras pulsantes. Entre as várias sequências memoráveis, a chuva de cinzas do canavial que vem sobre o homem e a nora, assim como a que traz ele ensinando o neto a atrair pássaros para o chão com um doce e paciente assobio.

MEDALHA DE BRONZE

O rei leão (Roger Allers e Rob Minkoff, 1994)


Por muitas vezes, deixava amigos de boca aberta - cinéfilos ou não - ao confessar que ainda não tinha visto O rei leão. Essa lacuna foi, enfim, preenchida, e o gosto tardio de infância que a animação despertou, aliada ao enorme carisma dos personagens (menos Scar, o vilão), são méritos suficientes para lhe destinar o bronze. É bem verdade que a trama remete a um tempo em que o gênero ainda se pautava no maniqueísmo e na previsibilidade, mas conferi-la na idade adulta ainda pode trazer preciosas lições, mesmo que sejam necessárias certas adaptações. Fica a certeza de que a obra envelheceu bem e pode resgatar o calor e cera inocência nas crianças da geração vidrada na telinha, ainda sem a percepção de que o mundo é tão vasto e o sol toca tantas partes dele de uma só vez.

INÉDITOS

282. Café society (Woody Allen, 2016) -> 8.0
283. Zoolander 2 (Ben Stiller, 2016) -> 4.0
284. A família Bélier (Eric Lartigau, 2014) -> 7.5
285. Buena vista social club (Wim Wenders, 1999) -> 8.0
286. Amor à queima-roupa (Tony Scott, 1993) -> 8.0
287. Aquarius (Kleber Mendonça Filho, 2016) -> 10.0
288. 007 - Somente para seus olhos (John Glen, 1981) -> 5.0


289. Bleeder (Nicolas Winding Refn, 1999) -> 7.0
290. Wiener-dog (Todd Solondz, 2016) -> 7.0
291. A bigger splash (Luca Guadagnino, 2016) -> 8.0
292. Paulina (Santiago Mitre, 2015) -> 7.0
293. Halloween - A noite do terror (John Carpenter, 1978) -> 8.0
294. O rei leão (Roger Allers e Rob Minkoff, 1994) -> 8.5
295. Núpcias de escândalo (George Cukor, 1940) -> 6.0
296. As confissões de Schmidt (Alexander Payne, 2002) -> 7.5


297. Muito além do jardim (Hal Ashby, 1979) -> 7.0
298. Mad detective (Johnnie To, 2007) -> 7.0
299. A hora da vingança (Richard Brooks, 1952) -> 7.0
300. A terra e a sombra (César Augusto Acevedo, 2015) -> 9.0
301. Compramos um zoológico (Cameron Crowe, 2011) -> 7.0
302. Os caçadores da arca perdida (Steven Spielberg, 1981) -> 8.0



303. Canções do segundo andar (Roy Andersson, 2000) -> 8.0
304. O pagador de promessas (Anselmo Duarte, 1962) -> 8.0
305. Florence - Quem é essa mulher? (Stephen Frears, 2016) -> 7.0
306. A hora da zona morta (David Cronenberg, 1983) -> 8.0
307. Interlúdio de amor (Clint Eastwood, 1973) -> 8.0 



308. 007 - Nunca mais outra vez (Irvin Kershner, 1983) -> 6.5
309. Headhunters (Morten Tyldum, 2011) -> 8.0
310. Águas rasas (Jaume Collet-Serra, 2016) -> 7.0
311. Um dia difícil (Kim Seong-hoom, 2014) -> 8.0
312. Ele está de volta (David Wnendt, 2015) -> 8.0
313. O plano de Maggie (Rebecca Miller, 2015) -> 6.0
314. De longe te observo (Lorenzo Vigas, 2015) -> 7.0

REVISTOS

Beleza americana (Sam Mendes, 1999) -> 8.0
Paranoid park (Gus Van Sant, 2007) -> 9.0
Dogville (Lars Von Trier, 2003) -> 9.5
Procurando Nemo (Andrew Stanton e Lee Unkrich, 2003) -> 10.0
Kill Bill - Volume 1 (Quentin Tarantino, 2003) -> 9.5

MELHOR FILME: Aquarius
MELHOR DIRETOR: Kleber Mendonça Filho, por Aquarius
MELHOR ATRIZ: Sonia Braga, por Aquarius
MELHOR ATOR: Peter Sellers, por Muito além do jardim
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Ellen Burstyn, por Wiener-dog
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Ralph Fiennes, por A bigger splash
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Kleber Mendonça Filho, por Aquarius
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Lars Gudmestad e Ulf Ryberg, por Headhunters
MELHOR TRILHA SONORA: Aquarius
MELHOR FOTOGRAFIA: A terra e a sombra
MELHOR CENA: A chuva de cinzas em A terra e a sombra
MELHOR FINAL: Aquarius

sábado, 24 de setembro de 2016

QUINTETO DE OURO - PALMAS DE OURO

O Festival de Cannes desfruta de enorme prestígio não é de hoje. Uma das mostras de cinema mais antigas da Europa, juntamente com Berlim e Veneza, tem sua realização agendada normalmente para maio, e já são 69 edições de filmes, tapetes vermelhos, estrelas, musas, astros, polêmicas, vaias (muitas vaias), aplausos inflamados e tantos outros ingredientes que entusiasmam o público cinéfilo. Mas quem não é espectador inveterado também dá uma espiadinha nessa deliciosa celebração anual sediada à beira do Mar Mediterrâneo.

Para essa edição do Quinteto de Ouro, a tarefa árdua a que me propus foi selecionar meus preferidos entre os vencedores da láurea máxima, a Palma de Ouro. Como forma de reduzir a enorme dificuldade de chegar a apenas 5 nomes, adotei o critério de pinçar um filme por década. Com relação à ordem adotada para a apresentação desses eleitos, mais uma vez recorri à cronologia. O resultado pode ser conferido abaixo, com os parágrafos minimamente justificadores sobre cada escolhido.

1. A doce vida (Federico Fellini, 1960)


O longa mais longo de Fellini é tão emblemático que até contribuiu para o surgimento de mais uma palavra no vocabulário italiano e, a posteriori, de outras línguas, como o português: paparazzo. O termo vem do sobrenome do protagonista, vivido por um Marcello Mastroianni no apogeu da beleza e do vigor, embora essa última característica esteja eclipsada no personagem, um jornalista que sorve o espírito fútil da sociedade romana de seu tempo. O esplendor do Cinema poderia ser facilmente representado e entendido no plano em que Marcello chega com Maddalena (Anouk Aimée) à Fontana di Trevi e ela se deixa envolver pelas águas do monumento. Encanto e poesia para além da palavra.

2. Paris, Texas (Wim Wenders, 1984)


Histórias sobre a volta podem ser consideradas um subgênero cinematográfico, e Wenders compôs seu exemplar com notório sentimento e delicadeza. A jornada de um homem que tem medo de avião e obriga o irmão a percorrer quilômetros de estrada para levá-lo de novo ao convívio familiar reserva passagens memoráveis para seu público. Memória, aliás, é o que falta a Travis (Harry Dean Stanton no papel de sua vida), e à medida que o roteiro desvenda o que forma o passado da estrada de sua vida, as emoções afloram. E como esquecer a sequência do reencontro dele com Jane na conversa telefônica, tendo Natassja Kinski a maior do tempo em primeiro plano, destacando sua lourice desalentada?

3. Pulp fiction (Quentin Tarantino, 1994)


Afeito a miscelâneas de várias sortes, Tarantino é garoto serelepe que angariou uma legião de admiradores e advogados ferrenhos, para o bem e para o mal. Sua mistura mais acertada, porém, foi justamente a que saiu vitoriosa da Croisette: um vórtice dramatúrgico em que sujeitos desgarrados dos ditames da boa conduta giram sem compromisso com a estrutura linear. Não estranhe, portanto, se alguém que parecia ter saído de cena volte a comparecer sem o menor aviso prévio, e, no fundo, o entendimento da trama é até bem fácil de se obter. Difícil é destacar uma única cena ou diálogo genial dessa antologia pop de histórias menores (?) e absurdas (?!).

4. A criança (Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2005)


O cinema seco e com doses cavalares de realismo (quimera por vezes, superestimada) chega às linhas do zênite com A criança, pelo qual os Dardenne receberam sua segunda Palma. O cotidiano de Bruno (Jérémie Renier) e Sonia (Déborah François) é visto sem trilha sonora de violinos ou quaisquer outros instrumentos comuns em dramas calculados para emocionar. E o modo atabalhoado com que ele tenta conduzir a vida pós paternidade devasta. Quase sempre tendo a câmera bem rente a seus corpos em constante deslocamento, os jovens erram, se desentendem e experimentam a frialdade em mundo que lhes oferece baixíssimas expectativas. 

5. A árvore da vida (Terrence Malick, 2011)


Malick poderia facilmente receber a antonomásia de cineasta espiritual. Sua reflexão sobre a pequenez humana, a imensidão do universo e um Deus grande ao qual se lançam questionamentos e confissões embeveceu uns, afugentou outros. Mas indiferença não parece uma opção diante do filme, que vai aos primórdios da história terráquea e revela a beleza dura, tênue, perturbadora e estonteante da vida, só para ficar em alguns adjetivos. É o cinema buscando lidar com o indizível, flertando com a literatura ao adicionar fluxos de consciência à narrativa e evocando um pensamento do salmista Davi sobre Deus: Que é o homem mortal, para que Te lembres dele?

domingo, 11 de setembro de 2016

Aquarius: um baú de memórias e afetos

Assim como uma comida bem temperada atiça o paladar, um filme bem azeitado pode maravilhar seu público. A experiência de ver Aquarius (idem, 2016) pode então ser comparada à degustação de uma deliciosa iguaria condimentada por sentimentos de apelo universal. E o melhor: sem perder a brasilidade. Do prólogo ambientado em 1980, a "década que não acabou" ao desfecho memorável, o longa de Kleber Mendonça Filho tem açúcar, pimenta e afeto. Clara (Sonia Braga) está no centro da narrativa, fincada em solo recifense, que responde pela cor local da produção. Ao que parece, a maior parte de sua vida foi vivida na capital pernambucana. Esses e outros detalhes são inferências permitidas pelo subtexto do filme e algumas situações. 


O impasse estabelecido pelo roteiro do próprio diretor vem da relutância de Clara em abrir mão do apartamento localizado no edifício-título para a construção de um empreendimento de proporções (e intenções) megalomaníacas, de autoria do pretensioso Diego (Humberto Carrão). Porém, como nos grandes exemplares de bom cinema (ou literatura, teatro e outras artes), importa menos a "história" e mais os caminhos trilhados pelos personagens, sejam eles figurados ou denotativos. E Aquarius vai revelando sua vocação, a qual é, no fundo, a vocação de todo filme: o compartilhamento de uma(s) memória(s). Memórias essas que impregnam tanto Clara quanto outras pessoas de seu convívio, como a tia aniversariante lá nos anos 80. (Se a cômoda da sala falasse... Ela também é personagem.) Ou a filha Ana Paula (Maeve Jinkings), ressentida pelo biênio em que a mãe esteve ausente a trabalho. (Nesse momento, um puxão de orelha do irmão vem pela dedicatória de Clara no livro que escreveu nessa época, reconhecendo o tempo que lhes foi roubado.)

Boas memórias também podem vir acompanhadas de boas músicas, o que é habitual na vida de Clara, uma entusiasta da boa e velha vitrola, mas que também sabe usufruir da tecnologia vigente, embora sua entrevista sobre a carreira seja reduzida à mísera frase "Eu ouço mp3", usada como chamariz no título. Em outro momento, ela aconselha o sobrinho que vai receber uma garota carioca em casa a fazê-la ouvir Maria Bethânia: - Mostra logo que você é intenso, ela diz, doce e resolutamente. Aquarius fala sobre o cabelo, o amor e o câncer de Clara, e cada uma dessas três partes é permeada por uma delicadeza ímpar, muito mais imagética do que verbal. É cinema para olhos que veem, não que apenas enxergam. É filme para ouvidos aguçados, não apenas dotados de audição. É memória gostosa, que mora dentro do peito e brinca de vaivém entre coração e cabeça. A trilha primorosa vem logo na abertura, acompanhando uma coletânea de fotos que situa o público no Recife de outros tempos. 

A pimenta, bem nos olhos de Clara, vem da guerra que se instaura contra ela da parte de Diego, nem um pouco inclinado a entender o lado da única moradora que restou no edifício. Carrão, aliás, reitera sua queda para encarnar tipos revestidos de cinismo, além de uma conduta passivo-agressiva, como bem atesta Clara num dos únicos embates em que os dois se enfrentam abertamente. E o clima pesa. Algo de bem desconfortável e preocupante fica no ar, e essa nuvem incômoda lembra muito O som ao redor (idem, 2012), em que o mesmo Mendonça Filho subverte a gramática do thriller a serviço de uma varredura na hipocrisia e nos temores (!) da dita classe média. O cotidiano pacato da escritora, de caminhadas e mergulhos na praia de Boa Viagem, em frente a qual se encontra o prédio, não é mais o mesmo. Ameaças vêm de onde menos se espera, e vários ângulos escolhidos pelo diretor corroboram uma atmosfera de sobressalto. 


Para além de sua capacidade de evocar memórias e sensações, questionando inclusive pontos de vista - Se você não gosta, é velho. Se você gosta, é vintage -, Aquarius é um hino à resistência. Defender aquilo em que se acredita ou que se ama não é tarefa de fracos, sobretudo em tempos de verdades e conceitos voláteis. Clara é uma mulher de personalidade flexível, mas o roteiro focaliza seu lado leoa, disposta a impedir que o símbolo de toda sua vida seja violado. Que atriz não gostaria de ter um papel desses nas mãos? E tê-lo entregado a Sonia Braga foi um acerto imenso do realizador. Os espectadores mais antigos certamente têm suas memórias com ela, e os mais jovens podem agora apreciar esse escândalo de atriz dando seu melhor, que deixou Cannes apaixonada. As entrelinhas politizadas do texto são outro tempero muito bem-vindo a esse caldo bem cozido: Aquarius fala de uma ideologia fincada na exploração, de cupins metafóricos e literais que corroem tudo. E nos brinda com um sopro catártico lá pelas tantas, fazendo por onde, afinal, ser memorável.

10/10