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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

BALANÇO MENSAL - JULHO

Com o fim do sétimo mês do ano, tem lugar um novo balanço de filmes, que apresento a seguir nos moldes do que venho fazendo desde 2015. O pódio apresenta ouro e prata indiscutíveis, já que foram os únicos títulos com 9 e 8.5, respectivamente, enquanto o bronze foi uma escolha difícil, mas com critério. Assim como Julieta, fui ao cinema conferir Mãe só há uma, e ambos valeram uma nota 8. Mas, como já escrevi um texto para o longa de Anna Muylaert, achei válido tecer alguns comentários sobre o mais recente Pedro Almodóvar. Então, vamos aos filmes!

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Ao mestre com carinho (James Clavell, 1967)



Matriz de numerosos filmes sobre adolescentes desajustados sob o comando de um professor com o desafio de domá-los, Ao mestre com carinho também carrega o mérito de reforçar o talento de Sidney Poitier. No mesmo ano em que sambou como protagonista de No calor da noite (In the heat of the night, 1967), ele deu vida a um engenheiro que vai parar em um colégio interiorano com uma turma de baderneiros. Aos poucos, a perspectiva reducionista sobre os alunos vai se ampliando e o debate sobre preconceito, responsabilidade e o que deve ser ensinado em sala de aula começa a tomar forma. Por vezes, o discurso do professor tem aspectos datados, como quando afirma que mulheres mal comportadas não atraem homens interessados em compromisso sério. Mas não se pode condenar o todo por algumas partes, e quem acredita no poder transformador da educação vai se reconhecer ou entender muito bem várias passagens.

MEDALHA DE PRATA

O mundo dos pequeninos (Hiromasa Yonebayashi, 2010)



Carinho e proteção transbordam no decorrer da narrativa dessa animação japonesa com o selo Ghibli de qualidade. Em meio aos medalhões Miyazaki e Takahata, está Yonebayashi, que exibe ternura no traço por meio do qual mostra a história de um garoto e uma garota que fazem amizade. Até então, nada inovador, mas o detalhe extraordinário são as dimensões diminutas da garota, criada sob a visão medrosa de que os humanos lhe podem fazer muito mal. Porém, a exemplo de outras figuras femininas transgressoras de produções do estúdio, Arrietty explora novas possibilidades, deixando a mãe conservadora em choque. No universo imaginado aqui, as imagens falam tanto quanto encantam, e fazem repensar o lugar de cada um no mundo. Afinal, não é saudável e necessário ir além de certas fronteiras previamente estipuladas?

MEDALHA DE BRONZE

Julieta (Pedro Almodóvar, 2016) 




De volta ao melodrama após um flerte com suas origens cômicas e escrachadas, Almodóvar mostra que continua entendendo do riscado. Alternando presente e passado - recurso nem um pouco novo, mas que ainda pode dar caldo - , ele discorre sobre o perdão: a si mesmo e ao outro. Os anos passam na vida da protagonista e ela não consegue se esquecer de uma importante figura familiar com quem não tem tido contato, e suas lembranças são compartilhadas com a plateia, novamente brindada com um festival de tons fortes e quentes. Da pegada hitchcockiana em uma sequência no trem logo no primeiro quarto da narrativa, ele vai ao terreno em que vem se especializando, pelo menos, desde A flor do meu segredo (La flor de mi secreto, 1995), mas deixa de lado suas atrizes fetiche (à exceção de Rossy de Palma, em participação especialíssima) para recrutar Emma Suárez e Adriana Ugarte, em revezamento no papel título, escolhido em um segundo momento para evitar homonímia com um longa de Martin Scorsese.

INÉDITOS

LONGAS

228. Aura (Fabián Bielinsky, 2005) -> 8.0
229. Demolição (Jean-Marc Valée, 2016) -> 7.0
230. O pai da noiva - Parte II (Charles Shyer, 1995) -> 7.0
231. O quarteto (Dustin Hoffman, 2012) -> 6.0
232. Um caminho para dois (Stanley Donen, 1967) -> 7.5
233. Donnie Brasco (Mike Newell, 1997) -> 7.0
234. Paraísos artificiais (Marcos Prado, 2012) -> 7.0



235. A cabeça contra a parede (Georges Franju, 1958) -> 7.5
236. Julieta (Pedro Almodóvar, 2016) -> 8.0
237. Mens@agem para você (Nora Ephron, 1998) -> 7.0
238. Ao mestre com carinho (James Clavell, 1967) -> 9.0
239. Hanami - Cerejeiras em flor (Doris Dörrie, 2008) -> 7.5
240. Cupido é moleque teimoso (Leo McCarey, 1937) -> 8.0



241. O gato de nove caudas (Dario Argento, 1971) -> 7.5
242. 007 contra o homem com a pistola de ouro (Guy Hamilton, 1974) -> 5.0
243. Demon (Marcin Wrona, 2015) -> 7.0
244. Praça Saens Peña (Vinicius Reis, 2008) -> 7.0
245. De punhos cerrados (Marco Bellocchio, 1965) -> 7.5
246. Uma garrafa no mar de Gaza (Thierry Binisti, 2011) -> 7.0
247. O que os homens falam (Cesc Gay, 2012) -> 6.0
248. Contato (Robert Zemeckis, 1997) -> 7.0



249. O mundo dos pequeninos (Hiromasa Yonebayashi, 2010) -> 8.5
250. Desconhecido (Jaume Collet-Serra, 2011) -> 6.0
251. Miles ahead (Don Cheadle, 2015) -> 7.5
252. Sapatinhos vermelhos (Michael Powell e Emeric Pressburger, 1948) -> 8.0
253. Bem-vindo à vida (Alex Kurtzman, 2012) -> 6.5
254. Gatinhas & gatões (John Hughes, 1984) -> 7.5
255. Caça-fantasmas (Paul Feig, 2016) -> 7.0


256. Mãe só há uma (Anna Muylaert, 2016) -> 8.0
257. O pecado mora ao lado (Billy Wilder, 1955) -> 7.0
258. Agnus Dei (Anne Fontaine, 2015) -> 8.0
259. Cinzas que queimam (Nicholas Ray, 1955) -> 8.0
260. Histórias que contamos (Sarah Polley, 2012) -> 7.5

CURTAS

Casa de luxo (Kevin Herron, 2013) -> 7.0
Stutterer (Benjamin Cleary, 2015) -> 8.0
The ride (Drew Linne, 2015) -> 7.0
Take the plunge (Elizabeth Ku-Herrero e Nicholas Manfredi, 2015) -> 7.0

REVISTOS

O declínio do império americano (Denys Arcand, 1987) -> 7.5
As invasões bárbaras (Denys Arcand, 2003) -> 9.0
A noite (Michelangelo Antonioni, 1961) -> 8.5
Meia-noite em Paris (Woody Allen, 2011) -> 10.0


MELHOR FILME: Ao mestre com carinho
PIOR FILME: 007 contra o homem com a pistola de ouro
MELHOR DIRETOR: Pedro Almodóvar, por Julieta
MELHOR ATRIZ: Moira Shearer, por Sapatinhos vermelhos
MELHOR ATOR: Sidney Poitier, por Ao mestre com carinho
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Daniela Nefussi, por Mãe só há uma
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mateus Nachtergaele, por Mãe só há uma
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Anna Muylaert, por Mãe só há uma
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Hayao Miyazaki e Keiko Niwa, por O mundo dos pequeninos
MELHOR FOTOGRAFIA: Atsushi Okui, por O mundo dos pequeninos
MELHOR TRILHA SONORA: Cécile Corbel, por O mundo dos pequeninos
MELHOR CENA: A conversa mais longa entre Spiller e Arriety em O mundo dos pequeninos
MELHOR FINAL: Hanami - Cerejeiras em flor

sexta-feira, 22 de julho de 2016

QUINTETO DE OURO - MERYL STREEP

Tragam uma Meryl Streep para esse Oscar! Qualquer espectador de cinema que se preze - veja bem, não precisa ser cinéfilo - já esbarrou em algum filme com ela. A homenageada desse mês tem é bagagem nas costas, e às vezes parece encarnar uma personagem com o pé nas costas; não no sentido de interpretá-la relaxadamente, mas no de ter uma facilidade incrível de ser outra e outras. Sinônimo de qualidade de atuação, ela não deixa a desejar mesmo em filmes meia boca, já soma 19 indicações ao prêmio da Academia, das quais saiu como vencedora apenas 3 vezes, e nem foram por seus melhores trabalhos. Como de hábito, minha seleção vem em ordem cronológica, nada de ordem de preferência. 

Aliás, nenhum deles está entre meus eleitos para formar o quinteto de ouro de Meryl Streep. E vencer premiações de associações ou festivais é com ela mesma: a mulher já levou Bafta, Globo de Ouro, Emmy, Cannes, Berlim, San Sebastián... Pode não ser uma unanimidade, mas já provou inúmeras vezes que entende do riscado. Nascida Mary Louise há 67 anos, ela já entrou para o panteão de grandes atrizes há tempos, e não há mais porque sair de lá. Simplesmente Meryl.

1. As pontes de Madison (1995)


Geralmente loura, Meryl "se escondeu" sob fios pretos para viver Francesca, italiana radicada no interior estadunidense que vê sua aparente estabilidade sentimental mostrar a verdadeira cara quando da visita de um fotógrafo grisalho em busca de cliques para uma nova reportagem. O cenário bucólico, por si só, inspira paixão, mas, à medida que os encontros se tornam mais frequentes e as conversas, mais longas, Francesca vai mostrando sua vulnerabilidade e sua candura, as quais tenta conter com uma postura defensiva pouco eficaz. No fundo, ela só quer amar, e isso não é só "coisa de mulher", afinal. É uma mulher vista em seu passado, com cada atitude e pensamento registrado em um diário íntimo: ali está sua alma.

2. As horas (2002)


"Mrs. Dalloway disse que ela mesma compraria as flores." A frase que abre o romance de Virginia Woolf reverbera no cotidiano de Clarissa Vaughan. Ela vive a história narrada no livro que está lendo, e o único dia seu flagrado pela narrativa é uma montanha-russa de sentimentos e encontros que despertam reflexões. Se a Clarissa original era uma socialite da Inglaterra dos anos 20, a contemporânea é dona de casa, mas ambas estão envolvidas com os preparativos para uma festa, mero pano de fundo para que emerjam seus demônios interiores. O percurso existencial é penoso e mostra lados que ela se esforça em deixar cobertos, e um diálogo com o velho amigo à beira da morte é o rasgo final do véu de que se vale pelo bem da boa convivência em sociedade.

3. Adaptação (2002)


Peça fundamental em uma trama intrincada que brinca com a metalinguagem cinematográfica e literária, Susan Orlean transita por Adaptação como uma caçadora. Ela escreveu O ladrão de orquídeas, texto que Charlie Kaufman (Nicolas Cage, alter ego do verdadeiro, mas até que ponto?) tem grande dificuldade em verter para a linguagem fílmica. Perguntada sobre com quem gostaria de jantar e ter uma conversa, responde Jesus. É a personagem feminina mais forte do enredo pensado pelo Kaufman exógeno à narrativa e filmado com esmero por Spike Jonze. Meryl ficou muito interessada no papel e não fez por menos com ele nas mãos: é uma das mulheres mais descoladas de sua carreira, com sopros cômicos legítimos em meio à selva dramática na qual se embrenha.

4. O diabo veste Prada (2006)


Quem é capaz de aguentar uma chefe como Miranda Priestly? Seus cabelos brancos platinados à moda vilã da Disney, combinados com o tom de voz impostado, o figurino impecável e o olhar desintegrador a elevam não apenas à condição de diva inatingível, mas também de geradora de memes. Não há como negar que é um dos papéis mais populares de Meryl, uma comprovação de que nem só de filmes mais "artísticos" (um questionamento a esse termo levaria a outro artigo só para isso) se faz sua carreira. Da próxima vez que você quiser reclamar de seu regime de trabalho, por mais legítima que seja sua queixa, coloque-se um pouco no lugar de Andrea Sachs (Anne Hathaway), vulgo Emily: seu dia provavelmente vai ficar um pouco melhor. Mas não se engane: por mais brega que soe, as Mirandas também amam; por trás dos colares, bolsas de grife e saltos matadores, pulsa um coração.

5. Dúvida (2009)


Mais uma prova da especialidade dessa mulher na incorporação de sotaques: dessa vez, ela se apropriou do falar do Bronx, um dos condados do estado de Nova York. A Irmã Aloysius é inimiga figadal de qualquer colega que se desvie minimamente de seu sacerdócio, e basta uma leve suspeita para que ela trave uma cruzada contra o Padre Flynn (o saudoso Philip Seymour Hoffman), a quem acredita ter visto em ato libidinoso com um garoto. Se a base moral para sua campanha esmagadora é válida, o abandono do princípio da incerteza a torna uma locomotiva sem freio, e os diálogos arrepiantes entre ela e Flynn mostram a potência de um texto bem escrito, em que a visceralidade e o realismo comparecem com peso equiparado. 

domingo, 3 de julho de 2016

BALANÇO MENSAL - JUNHO

Vou direto ao ponto dessa vez: como já faço esse balanço de filmes há mais de 2 anos, os leitores já conhecem a estrutura que adoto. Então, seguem abaixo os 41 filmes que compuseram minha dieta cinematográfica de junho. Até a próxima edição!

MEDALHA DE OURO

Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)



Em uma das vezes nas quais foi entrevistado, Coutinho afirmou que não acreditava no cinema como instrumento de transformação política - talvez fosse pretensão demais para um filme. Melhor seria potencializar a reflexão através de muitas perguntas, nem todas respondidas, nem todas com respostas únicas, nem todas completamente respondidas. Não é de se estranhar, portanto, os questionamentos reverberando a todo volume na cabeça do espectador de Cabra marcado para morrer. Exemplar na aproximação com seu objeto de análise - os efeitos do regime ditatorial brasileiro sobre a vida de gente comum e trabalhadora -, e impregnado de uma metalinguagem angustiante, o longa cobre um arco de tempo real de quase duas décadas. E o senso de liberdade que aquele povo humilde carregava no peito sobrevive há gerações.

MEDALHA DE PRATA

O esporte favorito dos homens (Howard Hawks, 1964)




Deliciosamente espirituoso, o roteiro do longa de Hawks aborda a secular premissa de homem e mulher em batalha que, lá no fundo, estão caindo de amores um pelo outro. Ao escalar Rock Hudson e Paula Prentiss na defesa dos respectivos papéis, ele acertou em cheio, sobretudo por conta de Hudson, que pôde reforçar o quanto se prestava a encarnar personagens dramáticos (como nos melodramas de Douglas Sirk) como os engraçados (vide as três ocasiões em que contracenou com Doris Day). Mesmo incorporando alguns clichês ao longo da narrativa, O esporte favorito dos homens não deixa a peteca cair e reserva muitas estripulias que lhe garantem o selo de comédia genuína. O tal esporte do título, aliás, é a pescaria, pelo qual o personagem de Hudson não tem a menor afeição, mesmo sendo considerado uma referência para quem deseja fisgar um grande peixe.

MEDALHA DE BRONZE

O valor de um homem (Stéphane Brizé, 2015)



Já vem sendo dito há algum tempo (e parece que muita gente não está dando ouvidos) que estamos dando mais valor às coisas do que às pessoas. Stéphane Brizé deve se sentir incomodado com essa miopia coletiva, e essa suposição explica em boa parte a existência de O valor de um homem. Em sua terceira parceria consecutiva com Vincent Lindon (premiado em Cannes pelo trabalho), ele reflete não apenas sobre tal confusão em seu sentido mais amplo, mas também afunila o olhar para as relações entre patrão e empregado, cujos limites de sensatez e humanidade, por vezes, se mostram difusos demais. As questões se levantam: vale a pena defender um emprego com unhas e dentes apesar da intransigência das ordens superiores? As pessoas não devem ser consideradas por sua trajetória e não apenas por um passo em falso? O sopro de lucidez está reservado para o epílogo, profundo em sua simplicidade.

INÉDITOS

LONGAS


194. Trocando as bolas (John Landis, 1983) -> 7.0

195. A toda prova (Steven Soderbergh, 2011) -> 6.0
196. Ataque ao prédio (Joe Cornish, 2011) -> 7.0
197. A concepção (José Eduardo Belmonte, 2005) -> 5.0
198. Mais forte que bombas (Joachim Trier, 2015) -> 7.0
199. O valor de um homem (Stéphane Brizé, 2015) -> 8.0
200. Carrossel da esperança (Jacques Tati, 1949) -> 8.0
201. Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1985) -> 9.0
202. Zootopia (Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush, 2015) -> 8.0



203. Monstros (Gareth Edwards, 2010) -> 6.0
204. 007 - Os diamantes são eternos (Guy Hamilton, 1971) -> 7.0
205. Rastros de justiça (Oliver Hirschbiegel, 2009) -> 4.0
206. Carol (Todd Haynes, 2015) -> 7.5
207. Castelo no céu (Hayao Miyazaki, 1986) -> 8.0
208. Carícias de luxo (Delbert Mann, 1962) -> 6.0
209. Camelos também choram (Byambasurem Davaa e Luigi Falorni, 2003) -> 8.5




210. Get a job (Dylan Kidd, 2015) -> 5.0
211. Certo agora, errado antes (Hong Sang-Soo, 2015) -> 8.0
212. Ondas do destino (Lars Von Trier, 1996) -> 8.0
213. O fugitivo (Andrew Davis, 1993) -> 7.5
214. Decisão de risco (Gavin Hood, 2015) -> 8.0
215. Dois é bom, três é demais (Anthony e Joe Russo, 2006) -> 6.0
216. A tênue linha da morte (Errol Morris, 1988) -> 7.0



217. Viúvas sempre às quintas (Marcelo Piñeyro, 2010) -> 5.0
218. O esporte favorito dos homens (Howard Hawks, 1964) -> 8.0
219. A história da eternidade (Camilo Cavalcante, 2014) -> 7.5
220. A espera (Piero Messina, 2015) -> 6.5
221. Dodeskaden - O caminho da vida (Akira Kurosawa, 1970) -> 5.0
222. Três enterros (Tommy Lee Jones, 2005) -> 8.0



223. Fique comigo (Samuel Benchetrit, 2015) -> 8.0
224. Com 007 viva e deixe morrer (Guy Hamilton, 1973) -> 6.0
225. Abaixo o amor (Peyton Reed, 2003) - > 7.5
226. As vinhas da ira (John Ford, 1940) -> 8.0
227. Um homem um tanto gentil (Hans Peter Moland, 2010) -> 7.5

CURTAS

Game over (PES, 2006) -> 7.0
The present (Jacob Frey, 2015) -> 8.5
Laranjas (Kristian Pithie, 2004) -> 6.0

REVISTOS

Pequena Miss Sunshine (Jonathan Dayton e Valerie Falls, 2006) -> 10.0
Dirigindo no escuro (Woody Allen, 2002) -> 8.0
A aventura (Michelangelo Antonioni, 1960) -> 10.0
Sobre meninos e lobos (Clint Eastwood, 2003) -> 8.5

MELHOR FILME: Cabra marcado para morrer
PIOR FILME: Rastros de justiça
MELHOR DIRETOR: Howard Hawks, por O esporte favorito dos homens
MELHOR ATRIZ: Cate Blanchett, por Carol e Emily Watson, por Ondas do destino
MELHOR ATOR: Vincent Lindon, por O valor de um homem e Ewan McGregor por Abaixo o amor
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Sarah Paulson, por Abaixo o amor
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Barry Pepper, por Três enterros
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Byambasuren Davaa, Batbayar Davgadorj, Luigi Falorni, por Camelos também choram
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: John Fenton Murray e Steve McNeil, por O esporte favorito dos homens
MELHOR FOTOGRAFIA: Carter Burwell, por Carol
MELHOR TRILHA SONORA: Edward Lachman, por Carol
MELHOR CENA: A música para a mãe camelo deixar de rejeitar o filhote em Camelos também choram
MELHOR FINAL: Cabra marcado para morrer

sábado, 25 de junho de 2016

QUINTETO DE OURO - GRANDES PARCERIAS

Como em qualquer contexto que envolva seres humanos, a realização de um filme também possibilita encontros e reencontros, que acabam se fixando como parcerias para trabalhos recorrentes. Dessa forma, os profissionais envolvidos acabam se tornando queridinhos um do outro, e o público também se acostuma a vê-los sempre juntos. Uma olhada rápida para décadas passadas e também para a atual confirma a existência de inúmeros exemplos de atores, diretores, roteiristas, músicos e diretores de fotografia, entre outros, que se entendem muito bem, a ponto de a figura de um ser atrelada à do outro.

O tema do Quinteto de Ouro desse mês é justamente essas parcerias que deram tão certo que se repetiram várias vezes. Para chegar aos escolhidos, recorri a quatro critérios objetivos: considerei parceria todo caso em que dois profissionais trabalharam juntos pelo menos três vezes, seguidas ou não; só valiam parceiros de quem já tinha visto a maioria das parcerias - então, se alguma dupla está de fora, é por falta de filmes suficientes vistos (o caso de Frank Capra e James Stewart); e entendi que seria interessante não colocar apenas diretor e ator ou atriz, mas também diretor e fotógrafo, diretor e roteirista. 

Por fim, decidi não comentar todos os exemplares de cada dupla: a opção foi por destacar dois ou três dos vários trabalhos e enaltecer algumas de suas qualidades. Assim nasceu um pequeno panorama (seria um paradoxo) que, no fundo, são gavetas e janelas que dão passagem a diversos outros nomes, tempos e lugares. E vale dizer que, de novo, é uma lista sem ordem de preferência clara, mesmo porque não constam dela todos os meus preferidos, mas cinco entre meus preferidos...

1. James Gray e Joaquin Phoenix


Filmes: Caminho sem volta (2000), Os donos da noite (2007), Amantes (2008), Era uma vez em Nova York (2013).

O biotipo de Joaquin Phoenix cai como uma luva para homens problemáticos, e James Gray captou essa predisposição, usando-a brilhantemente por quatro vezes. Assim, nasceram Willie, Bobby, Leonard e Bruno, todos atormentados em maior ou menos grau. Em Os donos da noite, a impossibilidade de levar uma vida inteira à base de jogo duplo é confirmada em meio a tiros, escutas, chuva e perseguições, e Phoenix soube humanizar o empresário das noitadas que revê seus conceitos fluidos. Amantes, por sua vez, rebobina a fita do presente e nos leva de volta aos melodramas de uma Hollywood áurea, mas não necessariamente datada, na qual encontramos um sujeito destoante do mundo ao redor cuja âncora não é bem a que ele vislumbrava.

2. Woody Allen e Mia Farrow


Filmes: Sonhos eróticos de uma noite de verão (1982), Zelig (1983), Broadway Danny Rose (1984), A rosa púrpura do Cairo (1985), Hannah e suas irmãs (1986), Setembro (1987), A era do rádio (1987), A outra (1988), Crimes e pecados (1989), Simplesmente Alice (1990), Neblina e sombras (1991), Maridos e esposas (1992).

Casados à época na qual a parceria se desenrolou, Allen e Farrow e tornaram um dos exemplos de duplas mais recorrentes do cinema. Em 13 filmes rodados em um período de 10 anos, eles foram da comédia ao drama com notável desenvoltura, contracenando em quase todos os longas e quase sempre repetindo a relação amorosa da vida real. O auge da parceria se deu em dois anos seguidos, com A rosa púrpura do Cairo e Hannah e suas irmãs, nos quais Farrow viveu, respectivamente, a otimista ingênua Cecilia e a batalhadora personagem-título. Infelizmente, o casamento se dissolveu de maneira escandalosa ainda nos bastidores de Maridos e esposas, que acabou se tornando um retrato assustadoramente realista da falência dessa união em frente e atrás das câmeras.

3. Ingmar Bergman e Sven Nykvist


Filmes: Noites de circo (1953), A fonte da donzela (1959), Através de um espelho (1961), Luz de inverno (1962), O silêncio (1963), Para não falar de todas essas mulheres (1964), Persona (1966), A hora do lobo (1968), Vergonha (1968), O rito (1969), A paixão de Anna (1969), A hora do amor (1971), Gritos e sussurros (1972), Cenas de um casamento (1973), A flauta mágica (1975), Face a face (1976), O ovo da serpente (1977), Sonata de outono (1978), Da vida das marionetes (1980), Fanny & Alexander (1982).

Os recordistas de colaboração dessa lista atravessaram três décadas juntos, num casamento bem sucedido entre direção, escrita, ângulo e iluminação, entre outros aspectos que compõem o trabalho de um cineasta e um fotógrafo. Seja em preto e branco, seja a cores, cada filme de Bergman fotografado por Nykvist exibia marcas inconfundíveis, e o modo como as imagens são dispostas, aliado ao elenco recorrente, permitia reconhecer um filme como sendo dos dois mesmo que essas informações não tivessem sido entregues previamente. Os pesadelos psicológicos de Persona e A hora do lobo são ainda mais contundentes, assim como as nuances e matizes de Cenas de um casamento e Sonata de outono, sob suas lentes acuradamente manuseadas.

4. Aki Kaurismäki e Kati Outinen


Filmes: Sombras no paraíso (1986), Hamlet vai à luta (1987), A garota da fábrica de caixas de fósforos (1990), Se cuida, Tatiana (1992), Nuvens passageiras (1996), Juha (1999), O homem sem passado (2002), O porto (2011).

Ao olhar para a filmografia de Aki Kaurismäki, inevitavelmente deparamos com o nome de Kati Outinen na maioria de seus trabalhos. A figura da atriz combina perfeitamente com a proposta de cinema do diretor, que gosta de focalizar personagens marginalizados, aos quais falta algum tipo de calor no coração. Na pele da operária de uma fábrica de caixas de fósforos, Outinen encarnou à perfeição uma versão finlandesa de Macabéa - protagonista de A hora da estrela, de Clarice Lispector - e serviu de ilustração da miséria humana, num dos filmes mais pessimistas do realizador. Em Juha, não emitiu sons audíveis ao público, numa homenagem deliciosa ao cinema mudo, e resumiu a olhares e suspiros regados à comédia o arrependimento de uma mulher diante de uma escolha errada.

5. Sergio Leone e Ennio Morricone


Filmes: Por um punhado de dólares (1964), Por uns dólares a mais (1965), Três homens em conflito (1966), Era uma vez no Oeste (1968), Quando explode a vingança (1971), Era uma vez na América (1984).

Como dissociar as imagens desérticas e selvagens captadas por Leone das notas musicais em combinação certeira pensadas por Morricone? Essa dupla se encarregou de presentear olhos e ouvidos em histórias nas quais a selvageria é insígnia de sobrevivência e até de dignidade, e fez por onde ser lembrada por qualquer apreciador de bons filmes, não apenas dentro do mundinho cinéfilo. Assim como Allen e Farrow tinham uma relação para além dos estúdios, Leone e Morricone tinham sido colegas de ginásio, e o primeiro lembrou logo do segundo para a trilha de Por um punhado de dólares, inaugurando a trilogia que representa com folga o espírito do western spaghetti. Daí em diante, os dois romanos jamais deixaram de trabalhar juntos, até a morte de Leone por infarto. Que triste ele não ter podido contemplar a vitória tardia do amigo tempos depois: um Oscar por seu trabalho em Os oito odiados (2015).

quinta-feira, 2 de junho de 2016

BALANÇO MENSAL - MAIO

É hora de reunir todos os títulos que compuseram mais um mês deste cinéfilo que escreve a vocês. Compartilhar com outros apaixonados pela Sétima Arte o que me agradou (ou não) ao longo dos 31 dias de maio - um total de 41 filmes - é uma tarefa tão cansativa quanto prazerosa. Assim como tem sido desde 2015, trago um parágrafo para cada integrante do pódio, que esse mês tem seu primeiro lugar ocupado por mais uma nota 10, e espero em breve poder redigir uma crítica decente sobre ele. É meu queridinho Aki Kaurismäki de novo fazendo por onde garantir seu espaço no meu coração, e até aqui já são 11 filmes dele que vi, nenhum menos que ótimo. 

O segundo lugar é para um segundo Elio Petri, e vale a atenção sobre o diretor, um italiano que sabia como injetar vigor às suas histórias. Por fim, o bronze foi endereçado a um representante do Oriente. Aliás, é impressionante como sempre acaba havendo espaço para o cinema daquele lado do hemisfério nos meus pódios, uma "cota" involuntária e muito oportuna. Feita a tradicional introdução, vamos aos trabalhos!

MEDALHA DE OURO

Juha (Aki Kaurismäki, 1999)


Praticante de um cinema minimalista - inclusive no que tange à duração da maioria dos exemplares de sua carreira fílmica - Kaurismäki aboliu a palavra falada em Juha. O título é o nome do protagonista, um homem tão grande em tamanho quanto em generosidade que se apaixona por uma mulher órfã e se casa com ela. A proposta de uma vida glamourosa, longe daquele ambiente campestre, vem encarnada na figura de um homem que a seduz, e pouco há a ser acrescentado ao enredo do longa de 70 minutos. Nem importa, aliás, pois o brilhantismo do cineasta se mostra muito mais na forma do que no conteúdo, ainda que o segundo não seja negligenciado. Prestando uma deliciosa homenagem ao cinema mudo e fazendo comédia de sorrisos de canto de boca, ele consegue entregar uma preciosidade audiovisual - sim, os ouvidos também são agraciados com a trilha sonora de pulsações intensas e até dançantes onde não seriam esperadas inicialmente.

MEDALHA DE PRATA

Um lugar tranquilo no campo (Elio Petri, 1968)


Os primeiros 20 ou 30 minutos do longa de Petri produzem sensação e efeitos análogos ao de uma sessão de apneia, tamanha a enxurrada de movimentos que sucedem na tela, ante aos quais a mais breve respiração causa perdas no finíssimo fio condutor da narrativa. Idealizado pelo menos desde a Grécia Antiga como um ambiente de calmaria e meditação, o campo aqui não inspira tais sensações, devido a inquietude que aflige o personagem de Franco Nero, um protagonista que leva um certo tempo para se mostrar como tal. Antes, somos apresentados e convivemos com sua esposa (interpretada por Vanessa Redgrave), de beleza tão atraente quanto explosiva. Mas onde está realmente o perigo é uma questão que reverbera pelas paredes, pelas ruas e tantos outros locais por que passa o homem de encantadores olhos azuis. Quando o Cinema oferece mais perguntas do que respostas, o sentimento de fruição dá lugar ao de abalo interno.

MEDALHA DE BRONZE

Cemitério do esplendor (Apichatpong Weerasethakul, 2015)


Ciente do quanto seu nome é complicado para os ocidentais (e deve ser para alguns do lado de lá também), ele se permite ser chamado apenas de Joe. E a força motriz do seu cinema está em dois grandes pilares: o entrelaçamento do homem com a natureza e o surgimento de situações fantásticas apresentadas como triviais. No filme que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes também já era assim, e em Cemitério do esplendor ele segue fiel à sua cartilha pessoal, tão instigante quanto repelente - arte é isso mesmo, faca de dois gumes. Acompanhando seus personagens sempre de uma certa distância - reforçando a postura de um observador discreto e próximo de uma neutralidade (essa quimera perseguida por muitos e aparentemente reconhecida como tal por ele), o realizador descortina algumas tradições de sua terra e instaura o jocoso em território sério, sem soar deslocado. É vida e morte justapostas sob efeitos luminosos de empapuçar os olhos.

INÉDITOS

154. O tesouro (Corneliu Porumboiu, 2015) -> 8.0
155. Poesia (Lee Chang-dong, 2010) -> 8.0
156. Eu te amo, eu te amo (Alain Resnais, 1968) -> 8.0
157. A difícil arte de amar (Mike Nichols, 1986) -> 7.0
158. O show de Truman - O show da vida (Peter Weir, 1998) -> 8.0
159. O segundo círculo (Aleksandr Sokurov, 1990) -> 7.0
160. 30 dias de noite (David Slade, 2007) -> 7.5


161. Cortina rasgada (Alfred Hitchcock, 1966) -> 6.0
162. Delírios (Tom DiCillo, 2006) -> 6.0
163. Aniki Bobó (Manoel de Oliveira, 1942) -> 8.0
164. Sem controle (Paul Verhoeven, 1980) -> 8.0
165. Sublime obsessão (Douglas Sirk, 1954) -> 8.5
166. 007 A serviço secreto de Sua Majestade (Peter R. Hunt, 1969) -> 6.5
167. Umberto D (Vittorio de Sica, 1952) -> 8.0



168. Cemitério do esplendor (Apichatpong Weerasethakul, 2015) -> 8.5
169. Depois da chuva (Takashi Koizumi, 1999) -> 8.0
170. Olhar estrangeiro (Lucia Murat, 2006) - 7.0
171. Sicario - Terra de ninguém (Denis Villeneuve, 2015) -> 8.0
172. Magnum 44 (Ted Post, 1973) -> 8.0
173. A casa de Alice (Chico Teixeira, 2007) -> 8.0
174. Citizen Dog (Wisit Sasanatieng, 2004) -> 7.0
175. Protegendo o inimigo (Daniel Espinosa, 2012) -> 6.0
176. Inverno de sangue em Veneza (Nicolas Roeg, 1973)-> 8.0




177. Dias de outono (Yasujiro Ozu, 1960) -> 7.5
178. Enigma do poder (Abel Ferrara, 1998) -> 4.0
179. O chicote e o corpo (Mario Bava, 1963) - 7.0
180. Um lugar tranquilo no campo (Elio Petri, 1968) -> 8.5
181. Pixote - A lei do mais fraco (Hector Babenco, 1981) -> 8.0
182. Nós não envelheceremos juntos (Maurice Pialat, 1972) -> 7.5
183. O estranho poder de matar (Jerzy Skolomowski, 1978) -> 7.0
184. Baleias de agosto (Lindsay Anderson, 1987) -> 7.5
185. Marcas da vida (Andrea Arnold, 2006) -> 8.0



186. Guerra sem cortes (Brian De Palma, 2007) -> 8.0
187. Serviço (Brillante Mendoza, 2008) -> 7.0
188. Jogo do dinheiro (Jodie Foster, 2016) -> 7.0
189. A humanidade (Bruno Dumont, 1999) -> 7.0
190. A marca do assassino (Seijun Suzuki, 1967) -> 8.0
191. O gigante de ferro (Brad Bird, 1999) -> 8.5
192. Juha (Aki Kaurismäki, 1999) -> 10.0
193. Beautiful city (Ashgar Farhadi, 2004) -> 7.5

REVISTOS


Viagem a Darjeeling (Wes Anderson, 2007) -> 9.0
Volver (Pedro Almodóvar, 2006) -> 9.0
Drive (Nicolas Winding Refn, 2011) -> 10.0
Neblina e sombras (Woody Allen, 1991) -> 9.0
Short cuts - Cenas da vida (Robert Altman, 1993) -> 8.5


MELHOR FILME: Juha
PIOR FILME: Enigma do poder
MELHOR DIRETOR: Aki Kaurismäki, por Juha
MELHOR ATRIZ: Kati Outinen, por Juha e Katie Dickie, por Marcas da vida
MELHOR ATOR: Franco Nero, por Um lugar tranquilo no campo
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Marília Pêra, por Pixote - A lei do mais fraco
MELHOR ATOR COADJUVANTE: John Hurt, por O estranho poder de matar
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Aki Kaurismäki, por Juha
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Hector Babenco e Jorge Durán, por Pixote - A lei do mais fraco
MELHOR TRILHA SONORA: Juha
MELHOR FOTOGRAFIA: Cemitério do esplendor
MELHOR CENA: A catarse de Alice em A casa de Alice
MELHOR FINAL: Juha
MENÇÕES HONROSAS: Sublime obsessão e O gigante de ferro

segunda-feira, 30 de maio de 2016

QUINTETO DE OURO - DÉCADA DE 70

Ah, os loucos anos 70... Não vivi essa época, mas através do cinema já pude passear bastante por cidades, pessoas, hábitos e canções que assinalaram essa década, e está aí um dos grandes privilégios que essa arte centenária reserva aos seus espectadores. Nesta quarta edição do Quinteto de Ouro, em que tento reunir apenas 5 prediletos sob algum tema. As três primeiras edições versaram sobre diretores, mas a ideia é diversificar sempre e, dessa vez, selecionei 5 títulos que pertencem à década supracitada. 

Já havia escrito sobre quase todos os filmes escolhidos aqui, com exceção do quarto. Decidi então, pinçar trechos das minhas críticas originais sobre eles, ainda válidas, e redigir um parágrafo inédito apenas para esse quarto.

Adotei um único critério de seleção: não valia repetir diretores, a fim de compor um painel um pouco mais amplo. Além disso, um outro filme está fora da lista simplesmente para evitar a repetição: Taxi driver. Como já o tinha incluído no quinteto de Martin Scorsese, considerei melhor deixá-lo apenas naquela lista. Ah, e Woody Allen não teve espaço porque, logo logo, ele vai ganhar uma lista só dele (não poderia ser diferente com meu diretor preferido...). 

Fica, assim, essa menção honrosa a ele, e seguem abaixo os eleitos de mais um Quinteto de Ouro, dispostos em ordem cronológica crescente.

1. Zabriskie Point (Michelangelo Antonioni, 1970)


É bem verdade que Zabriskie Point não é considerado um dos melhores filmes de Antonioni, uma tremenda injustiça quando se coloca os olhos sobre ele e se depreende sua profundidade e sua grandeza. O título, aliás, faz referência a uma localidade situada no oeste estadunidense e conhecida como Vale da Morte, um nome indigestamente sugestivo para se correlacionar com jovens, cuja vida, geralmente, pulsa intensa e que não têm a menor pretensão de morrer. No que tange à trilha sonora, o longa também exala força: canções de bandas como Pink Floyd – então com apenas 5 anos de existência -, The Youngbloods e The Kaleidoscope embalam a jornada pungente desses dois jovens desorientados. E, se em Blow up – Depois daquele beijo, a explosão era interior e silenciosa, aqui ela é totalmente audível, ainda que não passe de uma projeção de Daria (Daria Halprin), cujo desconcerto entre as próprias convicções e as de seu antigo chefe atinge um ponto de saturação. 

2. O discreto charme da burguesia (Luis Buñuel, 1972)


A verdade é que O discreto charme da burguesia funciona como um engenho jogo de construção e quebra de expectativas, com rupturas de interação que podem surpreender e, por vezes, enervar o espectador. Qualquer semelhança com uma breve descrição de uma obra de arte não será mero acaso. O filme tem o poder de inquietar e causar todo tipo de reação, algo que é inerente à verdadeira composição artística. Buñuel brinca de embaralhar a narrativa o tempo todo, colocando seus adoráveis burgueses com um típico ar blasé em situações absurdas, para, na cena seguinte, mostrar um deles despertando assustado de um sonho ruim. Essas cenas nos levam a questionar até onde as situações foram verdadeiras e o que pode ter sido fruto dos delírios imaginativos de Florence, Alice, Rafael e companhia, numa intrigante subversão da cronologia engendrada pelo realizador. Forma-se, então, um ciclo: quando se começa a comprar um jantar como verdadeiro e bem-sucedido, logo um imprevisto assola a reunião e impede que os convivas se refestelem como o planejado. Então, entramos em uma espiral de eterno recomeço que sacode a tela o tempo todo.

3. Cenas de um casamento (Ingmar Bergman, 1973)


Entre as várias qualidades que podem ser apontadas no filme, uma das principais é, seguramente, o texto muito bem escrito , cuja autoria coube ao próprio diretor. As palavras quase sempre exalam sinceridade e, quando não o fazem, um gesto ou um olhar dão conta de exprimir aquilo que realmente se passa com o casal. Não há reducionismos aqui: tanto um quanto o outro se mostra em vários lados, corroborando a ideia de que a fragmentação é parte integrante da composição de cada indivíduo. Avesso a qualquer formatação e opinião pré-concebida, Bergman examina Johan e Marianne e deixa que o público escolha de que lado prefere ficar, se é que se pode falar em lados quando se trata de um relacionamento a dois. De qualquer modo, mesmo que a decisão do espectador seja a de torcer por um deles, é bem provável que suas impressões mudem a todo tempo, à medida que o filme transcorre e mais e mais aspectos da natureza dos personagens vão vindo à tona. E, de nada adiantaria um texto tão transparente se o diretor não contasse com os desempenhos assombrosos de Ullmann e Josephson. Velhos conhecidos de Bergman, eles são escolhas acertadíssimas, demonstrando mais uma vez o quanto são intérpretes talentosos.

4. Uma mulher sob influência (John Cassavetes, 1974)


Centrado no drama de Mabel (Gena Rowlands) e suas ondulações psicológicas, o longa-metragem assinado por Cassavetes pai escava as paredes do desconforto e oferece um tour de force memorável de sua atriz fetiche e esposa. Numa lista de grandes interpretações, esta certamente é digna de espaço. São mais de duas horas de uma mulher tentando se encaixar nas convenções impostas pelo meio social, e que lhe são extremamente penosas e estranhas, daí a implosão que se converte em atos de lógica questionável. A angústia impregna seu olhar e reverbera nas suas entranhas, e o marido Nick (Peter Falk, outro gigante em cena) não dá conta de conviver diariamente com um turbilhão emocional desses. E a vida está cheia de pessoas assim: uns caem, levantam e seguem em frente; outros, vivem um dia após o outro sob um esforço descomunal e precisam mais de alguém ao redor.

5. No decurso do tempo (Wim Wenders, 1976)


As viagens dos protagonistas pelas estradas também traz à tona a questão da incomunicabilidade que tanto aflige os seres humanos, da qual os personagens não escapam. Os pequenos ruídos de comunicação entre ambos responde pela oscilação na sua proximidade, assim como acontece com amigos cuja relação sofre ranhuras, ainda que imperceptíveis a olho nu, a cada vez que uma dissonância importante se concretiza. Nesse sentido, a abrangência de No decurso do tempo é enorme, por nos deixar entrever na lenta caminhada de Bruno e Robert algumas das nossas idiossincrasias mais veladas, ainda que, mesmo no filme, elas não apareçam escancaradamente. Wenders aposta nos silêncios e nos olhares que comunicam em parte e sublinham a angústia da procura por um interlocutor. A amizade entre Bruno e Robert é como um pálio de luz que se abre sobre eles e está circunscrita a um arco de tempo específico. Enquanto o tempo não finda, eles conhecem um pouco sobre o outro e um pouco sobre si mesmos.