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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

QUINTETO DE OURO - FILMES DE 2007

Não é exagero dizer que o tempo voa. Dentre as muitas verdades existentes, essa pode ser comprovada com facilidade. Basta olhar para o ano de 2007: já vão 10 anos desde que o vivemos, e ele parece tão próximo de nós! E a proximidade agora só está na memória, e é sobre a porção cinéfila da memória que quero comentar por aqui, afinal esse é um blog de cinema... O ano de 2007 foi o escolhido basicamente pelo fato de ter sido há 10 anos, e meu critério de seleção para os filmes foi bem objetivo: valia qualquer filme que tivesse sido realizado naquele ano, lançado em circuito em 2007 mesmo ou não. É um critério um pouco diferente do que adoto nas minhas listas anuais porque, passados esses anos todos, houve tempo para ver inclusive os títulos que foram lançados no ano seguinte.

Diferentemente das edições anteriores do Quinteto de Ouro, nessa edição decidi convidar 7 amigos muito queridos para também apresentar seus prediletos de 2007, listados em ordem alfabética, já que nem todos conseguiram estabelecer ordem de preferência. Tudo indica que vou seguir com esse modelo daqui em diante porque é bacana trocar figurinhas com outros apaixonados por cinema. Nem sempre serão as mesmas pessoas: felizmente, tenho muitos amigos cinéfilos que podem se revezar nessa tarefa a cada mês. Os filmes da minha lista são brevemente comentados com trechos de críticas, dado que todos já foram analisados por mim ao longo desses anos - e esses textos, de alguma maneira, ainda representam minha visão sobre os filmes. E, no meu caso, a ordem é mesmo de preferência (dessa vez consegui!). Seguem as nossas seleções!

MINHA LISTA:


1. Jogo de cena (Eduardo Coutinho)




Aliada à espontaneidade das mulheres comuns, que aceitaram abrir suas vidas sem reservas, há a presença de atrizes de talento, como Andréa Beltrão e Marília Pêra. Elas foram escolhidas a dedo pelo diretor a fim de que desempenhassem uma função importantíssima para o longa. Cada uma poderia escolher uma das histórias de vida das mulheres que foram entrevistadas, de modo que as recontassem como se fossem elas mesmas a viver aquilo tudo. Somado a isso, Coutinho pediu gentilmente que elas pudessem contar algo que jamais haviam dito na mídia antes, que revelariam no filme. O ponto-chave desse pedido é que essas histórias da vida pessoal das atrizes são contadas em meio àquilo que seria a representação delas da vida das mulheres que elas decidiram interpretar. E é esse detalhe que causa o embaralhamento entre realidade e ficção que caracteriza o filme. (crítica completa)


2. 4 meses, 3 semanas e 2 dias (Cristian Mungiu)




O filme é a estreia de Mungiu na direção, e ele exibe habilidade no posto, livrando sua obra de afetações e maneirismos que pouco ou nada acrescentariam à trama. A sua escolha em ambientar a narrativa na Romênia oitentista é acertada, e ele não faz disso um mero pano de fundo, mesmo porque a dificuldade para que as amigas levem seu plano a cabo, em boa parte, decorre desse contexto histórico. Afinal estamos falando de um país que viveu anos sob o triunfo da vontade férrea de Nicolae Ceaușescu, que se foi revelando um ditador reacionário (talvez o adjetivo seja redundante) até a sua execução dois anos depois do momento em que se passa o filme. A câmera de Mungiu perscruta uma Romênia gélida e, ao mesmo tempo, árida, de uma população algo resignada com o status quo de seu país. Longe de qualquer edulcoração, 4 meses, 3 semanas e 2 dias examina os efeitos práticos da decisão de Gabita, que desencadeia alguns eventos importantes que afetam diretamente o seu cotidiano e o de Otilia. (crítica completa)


3. Os donos da noite (James Gray)



Gray oferece, com esse filme, uma rara oportunidade de conferir um policial com profundidade, para além de sucessões de tiroteios e personagens mal acabados, o que costuma tornar o gênero quase uma caricatura de si mesmo. Ao colocar no centro da história um homem carente de uma revisão de valores, ele encorpa sua narrativa e promove revoluções internas nele, que derivam de uma explosão de acontecimentos que cobram a sua atitude. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, é pródigo em reflexões, e chega a fazer de Os donos da noite uma espécie de elo perdido entre o cinema policial das décadas de 70 e 80, simbolizado por nomes como Martin Scorsese e Michael Cimino, e a produção cinematográfica do gênero pós anos 2000. (crítica completa)


4. Senhores do crime (David Cronenberg)



Mortensen compõe um personagem cheio de nuances, que tende ora para a ternura, ora para a crueldade. É capaz de se comover com um bebê, mas também pode cortar os dedos de um cadáver para dificultar a identificação do corpo pela Polícia. Também pode se mostrar uma fera indomável quando está sob ameaça. Tem-se a constatação desse fato em uma sequência em especial. Quando está sozinho numa sauna, Nikolai é abordado por uma dupla de bandidos que quer acabar com sua vida. Num átimo, ele demonstra toda sua fúria ao atacá-los, sem qualquer ferramenta nas mãos, literalmente despido de qualquer instrumento que possa auxiliá-lo em sua luta pela vida naqueles instantes. Mortensen faz a cena completamente nu, exibindo todas as tatuagens de seu personagem. Cada desenho ali conta um episódio de sua vida, sendo traduções de sua caminhada pelas veredas criminosas. (crítica completa)

5. O sonho de Cassandra (Woody Allen)



[...] o slogan com o qual o filme foi vendido quando esteve em cartaz nos cinemas diz “Família é família, sangue é sangue”. Aliás, "O sonho de Cassandra" foi apresentado aos espectadores com um daqueles longas-metragens de ação prototípicos, com tiros e mortes a cada minuto. É um erro grosseiros que pode vitimar os mais incautos. Allen não está preocupado em revelar uma faceta sanguinolenta com o filme. Por mais que, dessa vez, sua câmera espie as neuroses humanas sob uma perspectiva mais densa, seus conflitos tradicionalmente abordados continuam ali, ainda que em estado de latência. Diante da oferta do tio, o dilema dos irmãos passa a ser mais importante do que a concretização do crime em questão. Por isso, quem assiste ao filme com a expectativa de testemunhar uma morte daquelas bem aterrorizantes certamente ficará desapontado. (crítica completa)



OS AMIGOS:

Anderson Barbosa

1. À prova de morte
2. Cartas de Iwo Jima 
3. Onde os fracos não têm vez
4. Sangue negro
5. Senhores do crime




Anderson de Souza

1. 5 centímetros por segundo
2. Como estrelas na Terra 
3. Os donos da noite
4. O escafandro e a borboleta
5. Superbad - É hoje!






Elton Telles


1.  O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford 
2. Do outro lado 
3. Na natureza selvagem 
4. Persépolis 
5. Santiago 



Gustavo Santorini

1. 4 meses, 3 semanas e 2 dias
2. Santiago 
3. Senhores do crime
4. Superbad - É hoje!
5. Zodíaco



Lucas D'Peder

1. O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford 
2. Onde os fracos não têm vez
3. Sangue negro
4. Senhores do crime 
5. Zodíaco




Paulo Matheus

1. Jogo de cena 
2. Os donos da noite 
3. À prova de morte
4. Onde os fracos não têm vez
5. Falsa loura






Vinícius de Castro

1. O homem da Terra
2. Na natureza selvagem 
3. Paranoid Park
4. 1408
5. Superbad - É hoje!

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Manchester à beira-mar e o passado que pesa em forma de silêncio

Embrutecido por uma carapaça resistente, o faz-tudo Lee Chandler (Casey Affleck) esboça sorrisos com extrema raridade. Dos longos silêncios aos rompantes violentos, o protagonista de Manchester à beira-mar (Manchester by the sea, 2016) está longe de um perfil que sirva de modelo. Mas é justamente sua porção de defeitos que o humaniza tanto e faz querer entender que situações da vida o transformaram naquele sujeito de agora. Kenneth Lonergan, realizador e roteirista do longa-metragem, compartilha o passado de Lee em pequenas doses, revelando um episódio altamente traumático depois do qual seu arranjo emocional nunca mais foi o mesmo. E o presente acena com uma notícia nada agradável: o falecimento do irmão mais velho, que o leva de volta à cidade-título, da qual se mudou há anos. 

Cada pessoa é uma soma de acontecimentos, e a narrativa de Manchester à beira-mar reafirma essa concepção com sensibilidade, evitando incorrer no dramalhão pesado. Lonergan exercita seu lado cineasta apenas pela terceira vez, com planos encantadores que mostram Lee como um cara que já teve motivos para sorrir e navegava frequentemente com Joe (Kyle Chandler), o irmão, e Patrick (Lucas Hedges), o sobrinho. Eram momentos ternos e divertidos e Joe adorava contar piadas de tubarão, lembranças que vão e vêm da mente de Lee após seu retorno a Manchester. Essas memórias, a propósito, são distribuídas na trama sem demarcação temporal, num exercício de montagem idêntico ao usado por Woody Allen em Blue Jasmine (idem, 2013), e ajudam a elucidar passagens marcantes que Lee não é mais capaz de verbalizar.

Trata-se de um filme sobre o não-dito e sobre o que foi dito e não pode mais ser recolhido; esse segundo aspecto é a grande tristeza de Randi (Michelle Williams), outra figura importante do passado de Lee que ressurge durante essa visita mais longa dele. Com apenas quatro curtas aparições, a personagem é outra que carrega um coração esfacelado e de maneira irreversível estará conectada a ele - eles têm basicamente as mesmas razões para se sentirem tão doloridos agora. Com sua babagem de dramaturgo, Lonergan valoriza os atores e coloca em seus lábios diálogos cheios de verdade, muito mais nos que cercam Lee, de quem arrancar palavras é uma tarefa árdua desde o trauma, e agora ele é um sujeito que, nos seus próprios termos, está "cagando" para muitas coisas. Não estamos diante da história de um herói em reconstrução, mas de um homem e sua incapacidade declarada de superação.

Na contramão de muitos dramas hollywoodianos, Manchester à beira-mar praticamente abdica de uma trilha sonora. Quando esta surge, é quase sempre incidental: uma única canção com voz aparece em toda a narrativa lá pelas tantas, quando percebemos Lee no que parece um caminho sem volta. E a trilha de acordes é acionada em dois momentos cruciais da trama, um deles o reencontro de Lee e Randi no funeral de Joe, quando Lonergan se vale da linguagem cinematográfica, deixando a imagem suplantar a palavra e a emoção fluir de forma genuína e natural, um exemplo a ser seguido por seus compatriotas e colegas de arte. E que bons atores ele escalou para ser Lee, Randi e Patrick... Cheios de desenvoltura nos seus respectivos papéis, demonstram compreender que menos é mais: aquelas cenas típicas de catarse verbal (existem várias boas, vale ressaltar) que pontuam outros títulos do gênero estão ausentes aqui. O que temos são pessoas que não sabem o que dizer e como dizer.

Essa dificuldade do quê e do como perpassa a relação de Lee e Patrick no presente da história. Existe amor e carinho entre eles, mas as expressões desses sentimentos se dão de forma velada a maior parte do tempo. Como espectadores, ficamos à espera de um abraço e um beijo, e Patrick é o que tenta romper a cerca invisível de arame farpado que Lee erigiu ao seu redor para, ao menos, um rápido contato corpóreo junto com um "boa noite". Seu intérprete não é novato, mas pode causar essa impressão porque mudou um bocado desde Moonrise kingdom (idem, 2012), um de seus primeiros trabalhos na telona. De qualquer modo, é aqui sua primeira grande atuação, e fica o desejo para que ele continue crescendo em atividade diante das câmeras. A simbiose dramática com Affleck chega a fazer pensar que são mesmo tio e sobrinho. 

Chamado pelas línguas maledicentes de "o irmão talentoso de Ben" e por um certo Rubens Ewald Filho de "canastrão", Casey está em um de seus melhores momentos junto com O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford, 2007) e O assassino em mim (The killer inside me, 2010), neste segundo também interpretando um personagem de sobrenome Ford. Existe um elo importante entre esses três papéis, uma associação que fica nítida para o espectador durante o após a sessão do filme de Lonergan. Em proporções e circunstâncias distintas, é verdade, mas o ponto de intersecção está lá. No lugar de páginas e páginas de roteiro para memorizar, ele teve que recorrer muito mais aos olhos e aos movimentos do corpo para dizer, e foi muito bem-sucedido nesse caminho. Williams é outra que já vem de desempenhos fantásticos, e destrói em poucos minutos de cinema, à semelhança de Hal Holbrook em Na natureza selvagem (Into the wild, 2007) e Viola Davis em Dúvida (Doubt, 2008). Se a Academia ainda não lhe fez justiça, é torcer para que tal fato seja só uma questão de tempo.

Nas entrelinhas, Manchester à beira-mar salienta que o passado tem peso, e Lee "opta" (até que ponto é uma escolha e não uma total inabilidade de ser de outro jeito?) por carregá-lo em silêncio. A vida em Boston era uma forma de escape, já que encarar as figuras com que convivia à época da tragédia aviva de mais a dor, e o perdão dos outros soa irrelevante diante da impossibilidade de perdoar a si mesmo. Eis um homem que não conhece as respostas certas (sim, elas existem), à deriva em seus próprios sentimentos e fechado para novos encontros. Julgar e condenar alguém assim é ato irresponsável, e não há espaço para tal conduta no texto de Lonergan, que assumiu a direção do projeto quando Matt Damon (!) desistiu do posto para ser "somente" produtor. Existem pessoas que fazem jus ao nosso acolhimento; outras simplesmente precisam dele.    

9/10

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Toni Erdmann ou os muitos lados dos humanos e suas relações

Maren Ade faz algumas escolhas inusitadas ao longo de Toni Erdmann (idem, 2016). Já em seus primeiros minutos, conhecemos o criador do personagem-título, um senhor na casa dos 60 anos que forja um irmão para receber uma encomenda e logo em seguida admite ao entregador que os dois homens são ele mesmo. Sua maneira extravagante de agir e se relacionar com o mundo demonstra uma riqueza de percepção que a maioria das pessoas ao redor parece não ter, e as esquisitices praticadas por ele vão fazendo do longa uma história menos comum sobre as muitas facetas dos indivíduos e suas complicações ao se relacionar. Por outro lado, as famílias normalmente têm um membro palhaço - aquele tio da piada natalina do pavê é um exemplo - e Winfried (Peter Simonischek, espécie de Tarcísio Meira alemão) preenche essa cota. 

A relação enfocada é com sua filha, Ines (Sandra Hüller), executiva preocupada em garantir o fechamento de um bom negócio com uma empresa romeno. Ela não pode fazer feio diante do homem, e Winfried representa uma ameaça ao seu sucesso com suas intervenções fora de hora, sobretudo quando se traveste de Toni Erdmann e insiste numa encenação constrangedora para Ines. À medida que o espectador vai acompanhando o desenrolar dessa relação, drama e comédia se revezam habilmente no roteiro da própria Ade, cuja filmografia pregressa continha, até então, quatro filmes. A caracterização de Toni é ridícula: uma peruca preta de fios mal penteados e uma dentadura pavorosa que torna hilária qualquer frase saída de sua boca. Mas ele é capaz de mostrar tanto um lado piadista quanto sério sob o disfarce, resultando em uma figura carismática, em contraste com a postura sisuda adotada pela filha.

Por muitas vezes, percebe-se a relação de Ines e Winfried como um intenso morde e assopra. Ela não embarca em seu jeitão bem humorado e solta frases um tanto cruéis quando perguntada com simplicidade sobre estar ou não feliz. Ele, incapaz de reagir na mesma linha, prefere lançar-lhe um olhar conformado, para na cena seguinte tudo parecer perfeitamente normal de novo entre os dois. É assim durante sua visita a ela, até que os humores de ambos definitivamente não se conciliam e ele parte para casa. Seu retorno já é como o insólito Toni Erdmann. Como boa escritora e observadora do ser humano (só assim para justificar a riqueza da trama), Ade oferece camadas de seus personagens, e os desempenhos de Simonischek e Hüller demonstram compreensão desse olhar distante de enviesamentos. Lá pelas duas horas e pouco de filme, uma das colegas de trabalho de Ines - hierarquicamente subalterna - comenta sobre a diferença entre a profissional e a mulher, bem como outro momento anterior revela Ines como alguém capaz de atitudes imprevisíveis. É ou não um banho de humanidade?


Winfried, por sua vez, não é um poço sem fundo de alegria e bom humor. Existe nele uma certa mágoa resignada com o comportamente arredio da filha, e o passado deles é somente acenado em uns diálogos. Não está tudo mastigado conforme a tendência hollywoodiana. Na verdade, é uma das características da chamada Escola de Berlim, movimento cinematográfico que remonta à década de 70. Mais um ponto a favor de Ade, que se esquiva do lugar comum da jornada edificante de pai e filha diametralmente opostos, embora haja ótimos títulos que se enveredam por tal possibilidade. Acaba que Toni é uma eficaz válvula de escape que, de alguma forma, reconfigura seu contato com Ines e corrói em boa parte o verniz arisco da executiva, permitindo lampejos de descontração e até uma sequência de ares confessionais em que ela canta Whitney Houston após a insistência do pai, que a segue ao piano. A cena já tem vaga cativa na lista de melhores do ano por seu alto teor catártico, sobretudo quando se pensa no que tinha sido desenhado até ali pelo espírito inventivo e sentimental de Ade. 

Toni Erdmann foi um dos queridinhos do 69º Festival de Cannes, de onde saiu com o prêmio da crítica. Exibido num dos primeiros dias, repercutiu ao longo de toda a mostra e mesmo sua longa duração não chega a tornar a narrativa enfadonha, como de outros filmes que erram a mão na prolixidade e não justificam mais de 120 minutos. Por investir em momentos cômicos que aliviam o peso da relação tumultuada entre Winfried e Ines, a produção também ajuda a "combater" o mito de que alemães não são bem-humorados ou avessos a ironias. Eu mesmo conheço um alemão que contradiz essa hipótese, em que pese o fato de já estar vivendo em solo carioca há pouco mais de 1 ano. No fim das contas, Toni é aquela porção de ridículo de que todos nós precisamos em meio às exigências carrancudas do dia a dia. Daí a legitimidade do questionamento: Você é mesmo um ser humano?

8/10

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

BALANÇO MENSAL - JANEIRO

Começou 2017 e o ritmo de sessões de filmes continua frenético. Mesmo porque janeiro é o clássico mês das férias, com bastante tempo livre para correr atrás de pendências, a eterna realidade vivida por um cinéfilo, naturalmente ávido de paixão. Entre primeiros contatos e revisitas, esse primeiro mês do ano foi composto por 46 filmes, e venho tendo sorte por não deparar com nenhuma bomba até o momento. Se, por um lado, as notas 10 andam muito raras, por outro, também não tem sido fácil encontrar um filme nota 0, nem mesmo alguma produção fraca que valha 5 ou menos. Mas um dos piores títulos dessa leva de janeiro, infelizmente, traz Owen Wilson no elenco, um ator que valorizo tanto. 

Quem voltou depois de 2015 e 2016 ausente foi Takeshi Kitano. Esse dois anos de negligência foram parcialmente compensados com dois filmes seus, um deles integrante do pódio abaixo. O realizador japonês ganhou uma mostra em sua homenagem no mês em que completou 70 anos, com boa parte de sua filmografia oferecida na tela grande. E alguns queridinhos marcaram presença com produções inéditas, como Ken Loach - também no pódio -, Alfred Hitchcock (não tão envolvente como de hábito), Dario Argento (em sua estreia promissora) e Hong Sang-soo - que perdeu uma vaga no pódio por muito pouco. Agora chega de enrolação e vamos ao balanço!


PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Eu, Daniel Blake (Ken Loach, 2016)




Resistir é preciso. A frase, carregada de vontade, é intensamente tornada ação pelo protagonista de Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016), segundo filme pelo qual o realizador Ken Loach foi contemplado com a Palma de Ouro em Cannes. Sujeito pacato e ainda convalescendo de um ataque cardíaco, ele se vê nas garras de um governo burocrático ao extremo, capaz de exigir provas e tarefas estapafúrdias em troca da concessão de um auxílio financeiro durante sua impossibilidade de trabalhar. Muito se falou sobre Aquarius (idem, 2016) - também exibido na Croisette - ser um filme de fortes reverberações políticas, mas este aqui vai ainda mais fundo em questionar um sistema defasado e desumano que coloca um trabalhador em uma espiral de humilhações. Em comum com Clara, porém, Daniel tem o espírito guerreiro. São legítimas ilustrações da expressão "não deixa a peteca cair".  (crítica completa aqui

MEDALHA DE PRATA

Verão feliz (Takeshi Kitano, 1999)



A filmografia de Takeshi Kitano está fincada em dois sustentáculos básicos: o sadismo violento e o carinho desengonçado. Pertencente ao segundo pilar, Verão feliz evoca os bons sentimentos, como a pureza, a bondade e - por que não? - a paciência em uma nuvem de traquinagens. E elas são cometidas por Kikujirô (vivido pelo próprio Kitano), senhor rabugento que promete a um garotinho levá-lo ao encontro da mãe, com quem o menino quer passar as férias escolares. O caminho até a casa, porém, é cheio de intempéries, sempre causadas pelo destrambelhamento de Kikujirô. Longe da correção política excessiva dos anos 2010 e não necessariamente voltado para o público infantil, o longa é como uma daquelas pessoas que tem coração, mas demonstram seus sentimentos de maneira tão discreta que nem sempre são percebidos de imediato. Cenas hilárias aguardam pelo público, como o acidente com o carro cujo pneu os dois tentam furar com uma tacha.


MEDALHA DE BRONZE

O filho de Joseph (Eugène Green, 2016)



Ao se apropriar de referências bíblicas - do Antigo e do Novo Testamento - Eugène Green produziu uma celebração à gentileza e ao bem querer com seu nono filme. A começar pelo título, o filme evoca personagens do Livro dos Livros enquanto acompanha uma parte da trajetória de um garoto que não aceita o desenho de futuro que lhe estão propondo. De sua procura inquieta, surge o encontro com um tio cujo parentesco só é revelado à plateia. Esse encontro logo se converte em uma bela amizade regida pela prosa, na qual o aprendizado mútuo é acompanhado pelo espectador afeito aos longos diálogos. Green está bem aparentado com Rohmer, um referencial e tanto em matéria de verborragia, e extrai de seus atores interpretações propositalmente mecânicas, em uma espécie de antinaturalismo que privilegia o texto e não as ações ou expressões. É o que se nota em outros filmes seus e que se reafirma aqui como uma de suas marcas registradas.

INÉDITOS

1. Meus caros amigos (Mario Monicelli, 1975) -> 6.0
2. Como era verde o meu vale (John Ford, 1940) -> 8.0
3. O filme de Oki (Hong Sang-soo, 2013) -> 8.0
4. O pássaro das plumas de cristal (Dario Argento, 1970) -> 7.5
5. O que está por vir (Mia Hansen-Løve, 2016) -> 8.0
6. Indignação (James Schamus, 2016) -> 7.0


7. O filho de Saul (Lázló Nemes, 2015) -> 7.5
8. O filho de Joseph (Eugène Green, 2016) - > 8.5 
9. Gênios do crime (Jared Hess, 2016) -> 5.0
10. Chronic (Michel Franco, 2015) -> 7.0
11. Procurando Dory (Andrew Stanton e Angus MacLane, 2016) -> 7.0
12. O doce pássaro da juventude (Richard Brooks, 1962) -> 8.0
13. O contador (Gavin Hood, 2016) -> 6.0


14. Eu, Daniel Blake (Ken Loach, 2016) -> 9.0
15. Ladrão de casaca (Alfred Hitchcock, 1955) -> 7.0
16. Romance policial (Jorge Duran, 2014) -> 5.0
17. Vizinhos 2 (Nicholas Stoller, 2016) -> 4.0
18. Tempo de valentes (Damián Szifrón, 2005) -> 7.5
19. Pontypool (Bruce McDonald, 2008) -> 7.0
20. O homem urso (Werner Herzog, 2005) -> 8.0
21. O apartamento (Ashgar Farhadi, 2016) -> 7.5


22. Animais noturnos (Tom Ford, 2016) -> 7.0
23. Wall Street - Poder e cobiça (Oliver Stone, 1987) -> 7.0
24. O sal desse mar (Annemarie Jacir, 2008) -> 8.0
25. La la land: cantando estações (Damien Chazelle, 2016) -> 8.0
26. Big jato (Claudio Assis, 2016) -> 7.0
27. Quinteto da morte (Alexander Mackendrick, 1955) -> 7.0
28. Tapas (José Corbacho e Juan Cruz, 2005) -> 7.0



29. Verão feliz (Takeshi Kitano, 1999) -> 9.0
30. Sob a sombra (Babak Avari, 2016) -> 8.0
31. Para o outro lado (Kyoshi Kurosawa, 2015) -> 7.0
32. A general (Buster Keaton, 1927) -> 8.0
33. O ultraje (Takeshi Kitano, 2010) -> 6.0
34. Hawaii, Oslo (Erik Poppe, 2004) -> 7.0



35. A grande testemunha (Robert Bresson, 1967) -> 7.0
36. Pecados antigos, longas sombras (Alberto Rodríguez, 2014) -> 7.5
37. Carrie, a estranha (Brian De Palma, 1976) -> 7.5
38. Um homem chamado Ove (Hannes Holm, 2016) -> 7.0
39. A estrada (John Hillcoat, 2009) -> 8.0
40. 30 minutos ou menos (Ruben Fleischer, 2011) -> 6.0
41. Sangue azul (Lírio Ferreira, 2014) -> 6.0
42. Millennium - Os homens que não amavam as mulheres (David Fincher, 2011) -> 8.0

REVISTOS

Blue Jasmine (Woody Allen, 2013) -> 9.0
Marcas da violência (David Cronenberg, 2005) -> 8.0
Sangue negro (Paul Thomas Anderson, 2007) -> 8.5
Eles vivem (John Carpenter, 1988) -> 9.0

MELHOR FILME: Eu, Daniel Blake
PIOR FILME: Vizinhos 2
MELHOR DIRETOR: Hong Sang-soo, por O filme de Oki
MELHOR ATRIZ: Rooney Mara, por Millennium - Os homens que não amavam as mulheres
MELHOR ATOR: Ryan Gosling, por La la land: cantando estações
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Avin Manshadi, por Sob a sombra
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Aaron Taylor-Johnson, por Animais noturnos
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Paul Laverty, por Eu, Daniel Blake
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Richard Brooks, por O doce pássaro da juventude
MELHOR TRILHA SONORA: Ennio Morricone, por O pássaro das plumas de cristal
MELHOR FOTOGRAFIA: Alex Catalán, por Pecados antigos, longas sombras
MELHOR CENA: O acidente de carro em Verão feliz
MELHOR FINAL: Eu, Daniel Blake

sábado, 21 de janeiro de 2017

QUINTETO DE OURO - JULIANNE MOORE

Qualquer lista de boas atrizes que se preze tem de reservar espaço para Julianne Moore. Essa ruiva autêntica nascida em 1960 na Carolina do Norte como Julie Anne Smith tem uma belíssima estrada percorrida no mundo cinematográfico. Pelo menos uma meia dúzia de filmes de sua carreira é memorável, e sua presença neles é um dos fatores determinantes para essa constatação. Moore é o tipo de atriz que encarna personagens muito distintos sem recorrer tanto a mudanças de visual. Seus já citados fios ruivos já serviram a muitas mulheres às quais deu vida nas telas e, embora a lista apresentada abaixo contenha menos papéis nos quais ela manteve esse visual, Moore ruiva é sempre a melhor pedida.

Como qualquer ser humano, ela também erra de vez em quando na carreira, tendo atuado em uns títulos de gosto duvidoso - eu mesmo passei longe de alguns, mas sinto que não resultaram em algo bom. Quem pode defender, por exemplo, bobagens como Evolução (Evolution, 2001) e Os esquecidos (The forgotten, 2004)? Falhas à parte, vamos nos concentrar no que ela tem de melhor na carreira, afinal essa é a proposta do Quinteto de Ouro! Moore já foi dirigida por nomes incríveis: só com Robert Altman, trabalhou duas vezes, e nenhuma delas, infelizmente, coube nessa lista. Joel e Ethan Coen a recrutaram para O grande Lebowski (The big Lebowski, 1998), e ela não fez por menos, perfeitamente integrada ao universo nonsense dos irmãos. E já rolaram duas parcerias com Paul Thomas Anderson (discípulo de Altman, por sinal), e uma delas ganhou espaço na minha seleção.

É pena que os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tenham sido tão tardios em reconhecer seu talento com um Oscar, e até mesmo as indicações ainda são parcas. Sua única estatueta veio em 2015 pelo desempenho em Para sempre Alice (Still Alice, 2014), que nem é o seu papel mais extraordinário. Até mesmo em 2003, ano em que foi duplamente indicada - por Longe do paraíso (Far from heaven, 2002) e As horas (The hours, 2002), tiveram a coragem de deixá-la de mãos vazias. Por outro lado, ela é das pouquíssimas intérpretes já premiadas nos três maiores festivais de cinema do mundo: Cannes, Veneza e Berlim. Até aqui, já deve ter ficado claro que Moore é uma das minhas atrizes prediletas. Se não tinha ficado, agora não resta dúvida... Vamos aos meus cinco mais com ela (em ordem cronológica)!

1. Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson


Linda Partridge se casou por interesse, até que um dia a ficha caiu e ela percebeu que a indiferença se transformou em um sentimento de perda devastador. A inevitabilidade da morte de seu marido, idealizador de um célebre e longevo programa televisivo, a perturba e as faz dizer palavras desagradáveis. Mesmo com pouco tempo de cena - o filme passa das três horas de duração e ela não deve aparecer nem quarenta minutos, Moore abocanha a personagem com toda a voracidade, usando uma maquiagem que não encobre tanto suas sardas e ressaltando a natureza perdida de Linda. A tal "liberdade" que está por vir com o falecimento de Earl não é mais do que uma sentença de desespero e, como os demais integrantes desse "filme coral", ela está à procura de um rumo. Levou o Globo de Ouro de atriz coadjuvante pelo papel.

2. Longe do paraíso (2002), de Todd Haynes


Outro cineasta com quem ela já trabalhou mais de uma vez foi Todd Haynes. Até hoje não vi o primeiro encontro do dois, mas duvido de que tire o segundo do posto de minha colaboração preferida entre eles. Na pele de uma dona de casa que tipifica os anos 50, com sua aura idealizada pela qual o próprio cinema leva boa parte da culpa, ela deixou temporariamente a ruivice de lado e exibiu um rosto que realmente parece daquele tempo. Resignada, Cathy Whitaker procura manter a rotina de organizar festas para a alta sociedade enquanto seu mundo particular vai desmoronando. É uma linda homenagem de Haynes ao melodrama, especialmente a Douglas Sirk, de quem muitos cinéfilos sabe que ele é fã declarado. Sua Coppa Volpi de melhor atriz em Veneza foi conquistada por esse esplendoroso trabalho.

3. As horas (2002), de Stephen Daldry


Cada atriz do trio principal desse filme merece ser considerada em listas individuais. No Quinteto de Ouro dedicado a Meryl Streep, As horas estava presente, e quando eu fizer uma homenagem a Nicole Kidman certamente esse filme vai aparecer de novo. É interessante notar que Moore rodou As horas no mesmo ano em que Longe do paraíso e os dois filmes guardam semelhanças, a começar pelo fato de que Laura Brown, assim como Cathy Whitaker, é uma dona de casa da década de 50. Porém, há uma diferença crucial entre ambas: Laura desafia o modelo de sua época e cede ao impulso que a inquieta. Sua postura é influenciada pela leitura de Mrs. Dalloway, que Virginia Woolf escrevia lá nos anos 20 e refletia o fluxo de consciência de uma mulher deslocada. Atuando sobretudo com os olhos - dos mais expressivos do cinema - Moore demonstra imensa empatia com alguém que nos parece tão diferente dela. O júri de Berlim gostou tanto que a premiou.

4. Ensaio sobre a cegueira (2007), de Fernando Meirelles


Podem acusar o segundo produto da carreira internacional de Meirelles de muitas coisas, e várias dessas acusações têm fundamento. Mas não venham me dizer que Julianne Moore está menos do que fantástica na pele da Mulher do Médico. Sua aparência poucas vezes esteve tão vulnerável, e ela carrega consigo o fardo de ser a única capaz de enxergar. "Se podes ver, repara", diz o livro de José Saramago no qual o longa fincou suas bases. E ela repara mais do que gostaria. Testemunha ocular da estupidez humana, a personagem jamais nomeada, como os demais que habitam a narrativa, ela segue caminhando apesar dos pesares, e Moore deixa os sinais do tempo à mostra em sua pele, no rosto cansado e nos cabelos quase sem cor. Brincalhona, ela comentou em entrevista à epoca de lançamento do filme: "Tive sorte porque os outros atores que desempenharam papel de cegos tiveram que trabalhar muito mais que eu!".

5. Mapas para as estrelas (2014), de David Cronenberg


Um encontro e tanto esse de Moore e Cronenberg. Suas carreiras iam muito bem, obrigado, correndo em paralelo, até que se encontraram em um filme incendiário, como um dos cartazes dá conta de mostrar. Sua Havana Segrand é mais uma prova do quanto ela pode transitar por tipos tão opostos sem perder a credibilidade, e foi o trabalho pelo qual levou o prêmio de interpretação feminina em Cannes. Enquanto a Mulher do Médico tem a clareza do que está ao seu redor, Havana só tem olhos para si mesma, chegando ao cúmulo de pular de entusiasmo diante da notícia da morte de um concorrente ao papel que estava disputando. Escrachada, é capaz de dizer as palavras mais horríveis e expor os conceitos mais abjetos como se estivesse dando a receita de um bolo, resultando em uma das personagens mais atraentes de sua carreira. Encontrar alguém como ela na vida real é péssimo, mas na cena dramática Havana é uma piscina cheia na qual Moore nada de braçada.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O espetáculo multicolorido de La la land: cantando estações

Musicais frequentemente são acusados de falta de compromisso com a verossimilhança. Pudera. Onde já se viu gente cantando e dançando alegremente sem mais nem menos no meio da rua? É característica do gênero esse tipo de situação, e com La la land: cantando estações (La la land, 2016) - vencedor do Globo de Ouro nas sete categorias em que foi indicado - não é diferente. Mas o diferente é superestimado. Algumas lições e cenas merecem ser repisadas muitas e muitas vezes, porque sempre haverá alguém precisando ser lembrado delas. Aqui, o amor e o sonho dão o tom e a paleta multicolorida empapuça as retinas para apresentar um recorte da trajetória de Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling), cada qual perseguindo sua quimera em uma Los Angeles atemporal, com referências à Hollywood clássica, uma fábrica de ídolos que fez a cabeça de gerações. 

Pois se a verossimilhança não é o forte dos musicais, nem por isso eles devem ser deslegitimados. É apenas uma questão de proposta. No outro extremo ficam os documentários, exaltados como "cinema verdade", mas que não deixam de ser um olhar conduzido, com direito a roteiro também. Para muitos, tal constatação soa óbvia, mas esse tipo de confusão ainda está longe de ser raro entre o público. E a tal cantoria típica já aparece na primeira sequência, em pleno viaduto engarrafado, prenunciando o clima de romance que vai permear boa parte da história e deixando uma mensagem no ar: as decepções são parte da caminhada, e nem por isso justificam interrompê-la. Há que se aprender a se refazer dia após dia: as estações passam, nenhum ciclo tem de ser necessariamente igual ao outro.

Mia e Sebastian têm aspirações que ultrapassam os limites aos que vem sendo sujeitos, mas são resistentes às intempéries. Enquanto ela vive atrás de testes para engrenar uma carreira de atriz, ele é um músico purista amante do jazz e almejando mais do que dedilhar canções natalinas em um bar. Como em O fabuloso destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin de Amélie Poulain, 2001), são tempos difíceis para os sonhadores Mia e Sebastian, e as sucessivas portas na cara teriam feito muitos outros jogarem a toalha. Tais ideias surgiram da cabeça de Damien Chazelle, que entrou pela porta da frente de Hollywood com Whiplash - Em busca da perfeição (Whiplash, 2014), em que a música também pulsava com força. Novamente assinando roteiro e direção, ele é daqueles jovens cheios de amores pelo Cinema, com toda a pinta de que cresceu fascinado pelos áureos tempos dessa arte centenária.


Homenagem e citação é o que não falta em La la land. E a mais notável paráfrase do longa, sem dúvida, é a Os guarda-chuvas do amor (Les parapluies de Cherbourg, 1964), clássico cinquentão de Jacques Demy sobre um casal e seu relacionamento atravessado pelas estações. A estrutura adotada por Chezelle é análoga àquele, evidenciando a beleza de um diálogo com uma geração que até hoje ecoa no próprio e cinema e deixa saudade em muitos pelo seu modus vivendi. Foi a década que chegou à sua reta final com os protestos de maio de 68 e Woodstock: os jovens sonhadores estavam com a corda toda, ávidos de transformação, mas o fim da história não é novidade para ninguém. O fim de uma etapa, pelo menos. E, de tempos em tempos, é preciso voltar a sonhar, daí certamente vem o forte apelo de La la land sobre as plateias, já que o cinismo dos anos 2010 cansa e magoa demais.

Outra flagrante homenagem é a Juventude transviada (Rebel without a cause, 1955), representante mais icônico da filmografia de um certo Nicholas Ray, a quem Jean-Luc Godard apontou como sendo o cinema. A passagem na qual o longa é trazido para a narrativa é metalinguagem pura, com saudosismo aos baldes para os personagens e para o público atento às referências. Daí não é absurdo comparar Chezelle e Tarantino e lembrar que cinema também é cruzamento de bagagens e afluir de experiências distinas, que contribuem para o enriquecimento mútuo. Quanto de Mia e Sebastian não existem em vários corações por aí? E o mérito dessa alta identificação também é de Stone e Gosling, afiando um pouco mais a química que já haviam demonstrado ter em Amor a toda prova (Crazy, stupid love, 2011), outra produção que se vale com esperteza do cânone cultivado dentro do gênero, e Caça aos gângsteres (Gangster squad, 2013). Os olhos arregalados dela se encontram com as órbitas discretas dele e é assim que muito mais é dito do que em longos diálogos expositivos.

A problemática do longa está na montagem um tanto descuidada. Cenas que parecem embaralhadas e uma duração um tanto excessiva comprometem parte do resultado, ainda que ele continue sendo embevecedor a maior parte do tempo. Alguns momentos também são desnecessários, seja pela pieguice, seja pela redundância, e um exemplo de cada caso é o monólogo de Mia em um de seus testes para o cinema, e seu retorno ao café onde trabalhava, dessa vez como cliente, agindo com a nova funcionária exatamente como uma outra atriz. Mas ainda cabe um outro elogio: mesmo destoante da realidade a maior parte do tempo, La la land ainda se parece com a vida, uma fábrica de ilusões que não está sempre de portas abertas. Não se pode dizer, portanto, que Chezelle não esteja trilhando um belo caminho como realizador e roteirista, e sua juventude talvez explique parte da prolixidade que acomete a obra, inclusive na reta final, quando o epílogo é insinuado pelo menos três vezes. Parece que só com o passar de muitas estações aprendemos que menos pode ser mais. 

8/10

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Animais noturnos, um conto imagético de desencontros

A noite ronda os personagens de Animais noturnos (Nocturnal animals, 2016), segunda incursão do estilista Tom Ford atrás das lentes. Também signatário do roteiro, ele adapta o romance de Austin Wright, que contém uma trama apontada por alguns como sendo atravessada pelo sentimento de vingança. À medida que a narrativa se desenvolve, entretanto, tal observação parece indevida: o que está em jogo aqui parece ser a necessidade de um dos protagonistas de afirmar ser capaz diante de um amor do passado. Existe uma história dentro da história, e é nela que o espectador é imerso a maior parte do tempo, ganhando aos poucos certas informações que permitem entender como era a relação entre Susan (Amy Adams) e Edward (Jake Gylenhaal). 

Até que seja apresentado a ambos, o público tem diante de si uma sequência de abertura um tanto deslocada do conjunto. Fica a pergunta no ar: que significado poderia ter sido atribuído àquelas mulheres? Elas só voltam a aparecer em uma única cena, cuja exclusão da montagem final não teria feito falta para algum tipo de compreensão do enredo. A ideia de vingança, aliás, é empurrada pelo próprio roteiro, no momento em que Susan se dá conta da existência de um quadro que contém justamente a palavra REVENGE (vingança, em inglês), momento esse carregado de um didatismo dispensável. Mas, afinal, o que estaria em jogo em Animais noturnos? Há pouco a dizer sobre a trama sem entregá-la quase totalmente. É a fusão de tempos que a faz um pouco menos óbvia: dois antes e um agora se revezam ao longo de pouco menos de duas horas de sessão.

Susan e Edward foram apaixonados um pelo outro durante certo tempo, até que o relacionamento degringolou e o afastamento se tornou a única opção viável. As dificuldades que minaram a vida a dois não são escancaradas, mas um detalhe importante é acenado: Edward se ressente da falta de crédito de Susan, e seu livro, do qual o filme toma de empréstimo o título, se mostra como um tapa com luva de pelica nessa característica da ex-parceira que tanto o atingia. O problema é que a história narrada no livro ocupa tempo demais, e Susan acaba reduzida à "função" de leitora daquele manuscrito. Gylenhaal tem mais chances em cena porque acumula o papel de Tony, espécie de alter ego seu no livro. A opção por uma outra atriz em detrimento de Adams no papel feminino principal da história não é nada louvável. É sabido o quanto ela é uma intérprete de muitos recursos, e sua presença ruiva encorpa qualquer personagem.


Em mais de uma passagem, o único "conflito" de Susan é a queda do livro, que interrompe sua leitura atenta e leva a câmera para mais perto, em close-ups redundantes que só valem a pena porque estamos diante de um lindo rosto. Enquanto isso, Gylenhaal deita e rola em sequências que exigem de seu físico e reafirmam seu potencial dramático, atestado em títulos como Os suspeitos (Prisoners, 2013) e O abutre (Nightcrawler, 2014). Seu grande companheiro de cena é Aaron Taylor-Johnson, que encarna um tipo intragável e cuja caracterização e atuação aqui fazem lembrar um jovem Sean Penn. O ápice da narrrativa é desencadeado por seu personagem de atos desequilibrados, um convite ao estereótipo do qual Taylor-Johnson, o protagonista franzino de Kick-ass - Quebrando tudo (Kick-ass, 2010) se desvia muito bem. Vale citar ainda a presença de Michael Shannon, especialista em sujeitos não muito convencionais que também dispõe de considerável espaço. Não houve chances igualitárias de brilho para o trio, uma falha muito difícil de passar despercebida. 

Sete anos separam o Ford de Direito de amar (A single man, 2009) do de Animais noturnos e a comparação - aquela tentação à qual estamos sempre sucumbindo - permite notar um certo amadurecimento na sua direção. Ele consegue impor um ritmo à trama que desperta o interesse por acompanhar seus desdobramentos e, no que se refere aos pontos de intersecção com o trabalho anterior, investe outra vez em figurinos deslumbrantres - sua porção estilista, afinal. É uma obra na qual a imagem tem peso, o que, em se tratando de cinema, é qualidade desejável e admirável. As arestas que emergem daqui e de lá denunciam a necessidade de um melhor acabamento no estofo dramático, não exatamente com vistas ao belo. A beleza aqui, aliás, é triste e solitária, como uma noite sem lua.

7/10