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sexta-feira, 21 de abril de 2017

15 subestimados pelos amantes de cinema

Quem acompanha o blog sabe que, nos últimos anos, tenho publicado artigos comemorativos pelos anos de amor ao Cinema. A ideia é sempre escolher um ou mais temas e formar listas que contêm a mesma quantidade de itens que a de anos que me considero cinéfilo. Então, chegados os 15 anos nessa condição, por assim dizer, decidi abordar 15 subestimados. Óbvio que o conceito de subestimado é pessoal e discutível, mas insisto que essa lista surgiu especialmente a partir de diálogos com amigos igualmente apaixonados por filmes. Venho observando que alguns atores, diretores e filmes que adoro não são vistos com o mesmo entusiasmo por essas pessoas, o que me deixa um tanto desapontado, já que enxergo cada um desses filmes, atores e diretores como ótimos - para além do meu gosto individual.

Uma ênfase importante que sempre faço e repito aqui: não coloquei os itens em ordem de preferência, porque isso não é uma prioridade nas minhas seleções. A numeração é mera contagem. Nada de questionamento sobre a posição deste ou aquele, portanto. Optei, na verdade, por colocar alternadamente atores, filmes e diretores. Mais relevante é saber quem concorda com as escolhas ou acha que cometi injustiça. De qualquer forma, apresento meus eleitos sem a pretensão de estar coberto de razão. Na verdade, a intenção é jogar luz sobre 15 queridos meus que deveriam despertar mais um pouco o interesse de outras pessoas. Fica sendo, então, uma lista de indicações e lembretes. 

1. Steve Carell


Nascido em Massachusetts e caçula de quatro filhos, Carrell apareceu para o grande público como o protagonista de O virgem de 40 anos (The 40-year-old virgin, 2005), que coincidiu com a estreia de Judd Apatow na direção de longas. Lá se vão 12 anos e, muitas comédias depois, ele continua com um timing maravilhoso, mas também é capaz de convencer belamente no drama. Se alguém duvida com certeza não o viu em Foxcatcher (idem, 2014), onde ele estraçalha na pele de John Du Pont, onde aparece irreconhecível com uma prótese no nariz. E não é só por esse detalhe físico que ele está excelente, mas pelos gestos contidos, pelo olhar incisivo e por outros detalhes de composição de um mecenas edipiano. Com atrizes, também alcança excelentes químicas, vide Juliette Binoche em Eu, meu irmão e nossa namorada (Dan in real life, 2008), Tina Fey em Uma noite fora de série (Date night, 2010) e Julianne Moore em Amor a toda prova (Crazy stupid love, 2011), mesmo que, nesse último, forme com ela um casal em vias de se separar.

Porque considero subestimado: É um ator de carisma imenso, de interpretações muito críveis, mas que ainda recebe bem menos atenção e elogios do que merece, além de ainda ser visto por muita gente "apenas" como ator para fazer rir. E tem ainda um charme desastrado que parece passar despercebido para a maioria.

2. Embriagado de amor (Punch drunk love, 2002), de Paul Thomas Anderson



Pacato funcionário de um escritório coleciona cupons de milhagens aéreas que vêm junto com sobremesas lácteas. Ele compra aos montes dessa sobremesa e espera um dia ter milhas suficientes para uma boa viagem. A vida não é muito fácil para ele: suas sete irmãs ocupam grande parte do seu tempo e ele acaba refém delas e de seus jogos psicológicos. Sem falar na sua pouca habilidade para interações sociais. Até o dia em que surge uma agradável mulher no seu trabalho à procura de ajuda, e um relacionamento um tanto estabanado começa a se desenvolver entre eles, com progressos e reveses comuns a quaisquer pessoas. Uma história simples, mas com seus momentos genialmente insólitos, normalmente provocados pela instabilidade sentimental que invade nosso protagonista. E o detalhe das milhas nas sobremesas nem é tão surreal, porque PTA se baseou em uma matéria da Time - sobre um homem que gastou horrores com pudins - para redigir o roteiro.

Porque considero subestimado: Quem poderia imaginar, só pela leitura da sinopse acima, que Adam Sandler teria o papel em suas mãos? Pois foi essa a escolha de PTA, e deu muito certo, num perfeito exemplo de ruptura de expectativas. Pois ainda falta muita gente dar a cara a tapa, seja para assistir ao filme, seja para enxergar melhor suas qualidades encobertas na filmografia do autor, normalmente celebrado por títulos anteriores, como Boogie nights - Prazer sem limites (Boogie nights, 1997) e Magnólia (Magnolia, 1999).

3. Aki Kaurismäki



Ele já ganhou um Quinteto de Ouro para destacar meus filmes mais queridos com sua assinatura. O finlandês de raros sorrisos e filmes concisos ainda precisa ser mais visto e discutido nas rodas de conversa sobre grandes realizadores, e sua presença nessa lista é uma nova tentativa de trazê-lo à tona. Ele segue à risca o que Hitchcock uma vez afirmou: Os filmes devem ter duração compatível com a capacidade de resistência da bexiga humana. Dá tranquilamente para acompanhar um Kaurismäki antes da próxima ida ao banheiro, a não ser que você ria tanto com suas comédias que acabe s0ltando o conteúdo da bexiga acidentalmente... Como já disse em outra ocasião, ele não é muito de dar entrevistas, e já foi arredio em algumas delas, mas seus filmes dão a entender que por trás da cara de poucos amigos ele tem um grande coração. Como também já disse, muito se fala nas cores de Almodóvar, mas vocês já viram as cores de Kaurismäki?


Porque considero subestimado: Ao comentar sobre ele com amigos, dificilmente eles já viram alguns de filmes: ele fica sempre como uma recomendação para algum outro momento. Seu jeito todo especial de falar de sujeitos cheios de humanidade é inconfundível.

4. Samantha Morton



Essa inglesa à beira dos 40 anos já figurou em dezenas de títulos, a maioria deles como coadjuvante, o que a coloca naquele grupo de atores que muitos reconhecem, mas não sabem exatamente de onde. Pois aqui vão alguns títulos em que ela dá banho de talento com pouco tempo ou espaço em cena: Poucas e boas (Sweet and Lowdown, 1999), Minority report - A nova lei (Minority report, 2002), O libertino (The libertine, 2005) e Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York, 2008). Quando assume o posto de protagonista também arrebenta, como foi em Terra de sonhos (In America, 2002), em que interpreta uma imigrante irlandesa lutando pelo bem estar da família e tentando superar uma perda trágica nos EUA, e em Código 46 (Code 46, 2003), onde deu vida a uma falsificadora de salvocondutos em um futuro desalentado e altamente globalizado. Seu papel no já citado Poucas e boas foi dado pelo próprio Woody Allen, que raramente escolhe atores de seus filmes (Juliet Taylor costuma indicar os nomes a ele), e assim veio a primeira de suas duas únicas indicações ao Oscar. 

Porque considero subestimada: Morton é um caso de negligência não apenas do público em geral, mas também da crítica. Uma rápida olhada em sua filmografia e, logo em seguida, de sua lista de indicações a premiações e vitórias, mostra incompatibilidade entre talento e reconhecimento. De 58 indicações por cinema e televisão, vieram 20 prêmios. É pouco diante de sua face marcante, que pouco muda de um papel para o outro, mas que faz a gente enxergar pessoas bem diferentes em cada um.

5. Jim Jarmusch


Na fala cotidiana, é super comum o uso de poema e poesia como sinônimos, mas entre eles há uma pequena diferença. Enquanto o primeiro é o texto escrito, pronto (até que ponto?), o segundo se refere à sua produção. É o segundo que figura como a busca principal de Jarmusch em seus filmes desde Permanent vacation (idem, 1980), quando acompanhou a luta de um garoto contra o tédio. Nas jornadas de seus personagens descolados em deslocamento, os pequenos acidentes e coincidências do dia a dia semeiam reflexões e, quiçá, epifanias. Entre os destaques, o trio de viajantes de Estranhos no paraíso (Stranger than paradise, 1984), os fugitivos de Down by law (idem, 1986) e os vampiros seculares de Amantes eternos (Only lovers left alive, 2013), um de seus melhores trabalhos dos anos 2010 junto com Paterson (idem, 2016), ícone máximo dessa procura deliciosa da qual ele não parece disposto a desistir. Já foi premiado em Cannes, Sundance e Locarno: significa bastante para a crítica, mas ainda permanece fora do espectro de visão de muitos cinéfilos.

Porque considero subestimado: Dificilmente, entre os meus amigos e conhecidos, vejo um longa de Jarmusch listado entre os melhores de um ano, uma década ou mesmo ele entre os melhores diretores. Sinal de que não andam assistindo a ele ou de que ainda não notaram sua veia poético-sarcástica.

6. O mundo de Andy (Man on the moon, 1999), de Miloš Forman



O ano de 1999 foi um dos mais impressionantes para o cinema. Tantas obras memoráveis reunidas que uma delas, fruto de uma reunião inesperada entre Miloš Forman e Jim Carrey, passou despercebida para muitos. Aliás, o próprio Carrey é um subestimado de carteirinha, que vai muito além da persona careteira que o tornou famoso nas comédias. O mundo de Andy também é cômico em boa parte do tempo, mas flerta com o drama de maneira hábil para contar a história de Andy Kaufman, um comediante que verdadeiramente existiu e não estava nem aí para convenções que pudessem reduzir o escopo de seu exercício de humor. Ao longo da carreira, encarnou inúmeros personagens, numa prova de versatilidade constante. Tinha como fiel escudeiro George Shapiro (Danny DeVito, que também não ficou atrás no quesito inspiração), um agente baixinho e muito sagaz. O que Andy mais sabia fazer era provocar a plateia, seja despertando risos, seja causando fúria, característica que o tornou precursor de muitos humoristas desbocados por aí, não necessariamente com o mesmo talento. 

Porque considero subestimado: É uma comédia heterodoxa, cujos frouxos de riso despertados no público advêm de uma série de situações bizarras e surpreendentes. Cada espetáculo de Andy era uma caixinha de surpresas também no que se refere às reações da plateia de seus shows: ele era capaz de provocar risos, lágrimas, brigas e muitos outros tipos de desdobramentos com suas piadas e pantomimas, o que lhe rendeu a antonomásia de gênio da comédia estadunidense. 

7. Jérémie Renier



Ele é queridinho dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, ausente em somente três dos oito filmes da dupla. Praticamente uma versão loura e belga de Gael García Bernal, ele acumula ótimos desempenhos tanto sendo dirigido pelos realizadores conterrâneos seus quanto se aventurando sob a regência de cineastas como François Ozon, Eugéne Green, Bertrand Bonello e até o argentino Pablo Trapero, que o fez contracenar com o querido Ricardo Darín. Anos atrás, chegou a frequentar uma escola de circo e apareceu pela primeira vez na tela em 1992, então com seus 11 anos. A primeira parceria com os Dardenne foi em A promessa (La promesse, 1996), ainda adolescente, na pele de Igor, que testemunha um acidente fatal envolvendo um imigrante africano. Um detalhe inusitado de sua personalidade é a timidez. Entrevistado pela Marie Claire, ele declarou que trabalha bastante essa característica por conta da profissão, e não chega a se incomodar caso seja necessário aparecer despido em nome de um personagem.

Porque considero subestimado: Pergunte às pessoas sobre ele e receba um "quem?" como resposta. Afora uns cinéfilos entusiastas do cinema francês, Renier ainda é um ator a ser descoberto em meio a uns certos Louis Garrel, Daniel Auteuil e até o ainda recém-descoberto Jean Dujardin. Seu gestual comedido e sua maneira naturalista de proferir os textos dos personagens - bem usados nas colaborações com os Dardenne - fazem dele um ator raro.

8. O jogador (The player, 1992), de Robert Altman



A justificativa do título aparece em pouco tempo: Griffin Mill é um hábil jogador que transita por várias celebridades na indústria cinematográfica na condição de produtor. Seu intérprete é Tim Robbins, outro subestimado dessa lista, que lida cínica e amoralmente com pessoas tal qual peões de um tabuleiro em que cada movimento gera repercussões diversas. Altman ficou famoso por administrar grandes elencos, e um dos exemplares dessa sua notável capacidade está registrado aqui. O realizador estava com a macaca entre 1992 e 1994, quando dirigiu três filmes-painel: além de O jogador, concebeu Short cuts - Cenas da vida (Short cuts, 1993) e Prêt-à-porter (idem, 1994), todos multifocalizados, muitas vezes com situações e diálogos sobrepostos. No caso de Griffin, sua brincadeira começa a ficar ameaçada quando um remetente anômimo começa a enviar cartas cujo teor permite inferir um desejo de vingança, e o faz lembrar de um roteirista do passado de quem recusou o guião. O diagnóstico sobre Hollywood feito por Altman, tendo por base o romance de Michael Tolkin, não é nada animador: existem muitos imbecis jogando sem perder a vez ali.

Porque considero subestimado: É um de seus melhores filmes, no entanto, acaba muitas vezes negligenciado perto de Short cuts ou mesmo produções mais antigas de sua carreira, como M.A.S.H. (idem, 1970) e Nashville (idem, 1975). Isso pensando em quem já viu o filme, porque ele ainda é lacuna no currículo de muito fã de cinema e do próprio Altman. 

9. Philippe Garrel



O francês pertence àquela estirpe de cineastas que investe toda uma carreira perseguindo seus temas preferidos, a exemplo do querido Jim Jarmusch, também presente aqui. E qual seria o tema perseguido por Garrel pai? A incongruência dos amantes, problema tão antigo quanto a própria humanidade. Em cada filme seu - pelo menos cada um dos 11 que já vi - o tema é (re)visitado com diferentes graus de maturidade ou qualidade, mas o resultado nunca é menos do que bom. Desde o fim dos anos 80 trabalha quase ininterruptamente com o filho Louis, um nepotismo delicioso que já rendeu pérolas como Amantes constantes (Les amants réguliers, 2005), retrato amargo de certo maio de 68, A fronteira da alvorada (La frontière de l'aube, 2008), romance frustrado de ares sobrenaturais e Um verão escaldante (Un été brûlant, 2011), com sua dança desengonçada em que um dos pares busca a velha sintonia. Já são mais de 40 anos de filmes e uma marca autoral inconfundível, que afasta os mais imediatistas, mas o cinema de Garrel pai também é feito de sujeitos inquietos, mesmo que essa inquietude, por vezes, esteja bastante internalizada. Seja em preto e branco (sua preferência em vários títulos), seja a cores, sua filmografia pulsa com desalentada melodia.

Porque considero subestimado: Os nomes instigantes de seus filmes já deveriam ser um convite suficientemente atrativo para conferi-los, mas poucos se aventuram em suas águas. Um diretor que fala do mais universal dos sentimentos e de uma das mais profundas fontes da agonia humana precisa da sua atenção o quanto antes.

10. Owen Wilson



Provavelmente a escolha mais polêmica dessa lista é o texano de nariz torto com vasto currículo de personagens cômicos. Sim, podem falar mal dele, a carreira de muitas derrapadas não torna absurdas as críticas, mas, em compensação, quando acerta, ele vai fundo. Seus grandes papéis vieram nas colaborações com Wes Anderson, que começaram no filme de estreia do diretor, Pura adrenalina (Bottle rocket, 1996), há mais de 20 anos. De lá para cá, eles já trabalharam em outros quatro filmes, incluindo um trabalho com a voz em O fantástico Sr. Raposo (The fantastic Mr. Fox, 2009). Em três deles, Wilson também acumulou a função de roteirista, demonstrando um senso de humor inteligente e não muito óbvio, na contramão das piadas bobocas que infestam seus trabalhos sob a regência de outros realizadores. Enquanto o irmão Luke apostou na estampa razoavelmente privilegiada para engatar comédias românticas, Owen foi fundo na galhofa em dezenas de títulos de gosto duvidoso. Mas sua presença aqui é garantida pelos trabalhos com os diretores de iniciais WA. Além do já citado Wes Anderson, ele também ganhou um papel em um filme de Woody Allen. Seu desempenho como o Gil Pender de Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), saudosista de carteirinha, é a grande bola dentro de toda a carreira.

Porque considero subestimado: Ainda que tenha atuado em mais de meia dúzia de comédias equivocadas, ele tem enorme potencial, que se concretiza em talento nas mãos dos diretores certos, como procurei destacar no parágrafo acima. E foi dele o papel de John Grogan em Marley e eu, um dos mais adoráveis filmes sobre cães até hoje. É o suficiente para ser um querido. 

11. O sonho de Cassandra (Cassandra's dream, 2007), de Woody Allen



Eis aqui um caso muito grave de subestimação. Mesmo os que se declaram fãs de Woody Allen esnobam essa produção que compõe a involuntária trilogia inglesa do diretor, que acompanha dois irmãos de temperamentos e visões de mundo dissonantes. Enquanto Ian (Ewan McGregor) não hesita em dilatar o conceito de moral em nome de supostas oportunidades, Terry (Colin Farell) experimenta fortes dores na consciência depois de ter dado vazão a uma conduta errática. Os dois estão à volta com reveses financeiros e costumam recorrer a um tio bem de vida (Tom Wilkinson) para sair desse tipo de encrenca, mas chega uma hora em que o tio precisa de uma retribuição por tantos favores prestados. Se eliminarem um desafeto dele, vão receber uma alta soma que resolve suas dificuldades e os deixa tranquilos por um tempo considerável. Arraigado nessa premissa, Allen põe em discussão o impedimento moral, tônica de várias obras suas, e trava diálogo com Crimes e pecados (Crimes and misdemeanors, 1989) e Ponto final (Match point, 2005), também sobre sujeitos que passam por cima dos escrúpulos.

Porque considero subestimado: É um dos exemplares mais sombrios da carreira de Allen - sem qualquer alívio cômico - e também mais bem acabados, com fotografia esplêndida de Vilmos Zsigmond. Uma das sequências mais memoráveis e inusitadas é de um assassinato não enquadrado, do qual se ouve apenas o disparo. E o que dizer de Farell, que nem levou uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante?

12. Tim Robbins 



O personagem-título de O jogador tem sua carreira como um todo subestimada. Tim Robbins joga nas onze: atua, dirige, escreve, produz e toca com notável qualidade em todas as funções. Vai para atrás das câmeras bissextamente, porque é na frente delas que acumulou vários trabalhos. Ele é o único nome presente nos três filmes seguidos que Altman dirigiu nos anos 90, além de ter concebido Os últimos passos de um homem (Dead man walking, 1995), drama sobre a difícil (mas necessária) missão de perdoar, sobretudo em circunstâncias nada favoráveis. À época, era casado com Susan Sarandon, a quem entregou nesse filme o papel de uma freira pouco ortodoxa que insiste em entender a mente de um criminoso. No ano anterior, tinha marcado um gol de placa em Um sonho de liberdade (The shawshank redemption, 1994), como um prisioneiro reaprendendo a viver. Robbins é o que se pode chamar de grande ator também no sentido literal: seu 1,96 m de altura o colocam sempre em destaque de alguma maneira nas cenas. O reconhecimento como intérprete pela da Academia veio com o Oscar de ator coadjuvante por Sobre meninos e lobos (Mystic river, 2003), mas desde então não é mais lembrado. Havia pelo menos mais um filme a ser sublinhado: o sensível A vida secreta das palavras (La vida secreta de las palabras, 2005), em que faz dobradinha com a não menos maravilhosa Sarah Polley.

Porque considero subestimado: Seja como principal, seja como coadjuvante, poucas vezes sua presença em um filme é destacada, muito menos sua competência como diretor. As escolhas criteriosas e coerentes também mereceriam elogios: quase não há títulos de qualidade duvidosa em sua filmografia.

13. Valerio Zurlini



Italiano dos mais áureos tempos do cinema de seu país, Zurlini conquistou uma alcunha sugestiva: Poeta da Melancolia. Seus filmes não são recomendados para corações tristonhos ou aos pedaços, e ainda correm o risco de estremecer aquelas que estão em um bom dia ou uma boa semana. Mas que narrativas lindas... É importante dizer, por outro lado, que não são filmes que convidam à depressão, mas que refletem sobre frustrações e relacionamentos amorosos amargos, cuja durabilidade é ameaçada pelos próprios amantes. Com isso, Zurlini é identificável como um parente próximo de Garrel pai, que ainda se utiliza da mesma matéria-prima em suas produções. Foi devidamente valorizado pela crítica ao receber o Leão de Ouro em Veneza por Dois destinos (Cronaca familiare, 1962) e o David di Donatello (versão italiana do Oscar) por O deserto dos tártaros (Il deserto dei tartari, 1976), quando levou seu olhar sobre a solidão para a aridez guarnecido pela prosa de Dino Buzzati. E o que dizer de A primeira noite de tranquilidade (La prima notte di quiete, 1972)? Ele não estava interessado em ousadias narrativas ou estéticas, e basta um olhar relativamente atento para comprovar tal afirmação, mas se a forma era simples, o conteúdo se revestia de uma complexidade comparável à própria vida.

Porque considero subestimado: Contemporâneo de medalhões como Federico Fellini, Michelangelo Antonioni e Luchino Visconti, a produção zurliniana acabou eclipsada por seus colegas, que também o diminuíam por suas opções técnicas mais modestas, por assim dizer. Uma baita injustiça que ainda pode ser corrigida.

14. No decurso do tempo (Im Lauf der Zeit, 1976), de Wim Wenders



Um prólogo em que dois operários do cinema discorrem sobre o teor e o destino dessa arte ainda relativamente jovem. Um dos projetistas segue na tela e Wenders nos convida a acompanhar sua trajetória nesse que é o terceiro filme da sua trilogia da estrada. Em comum, todos têm a presença de Rüdiger Vogler como um andarilho cujo caminho é cruzado por figuras em alguma situação de desamparo. Aqui, ele conhece um homem recém-separado em um tentativa frustrada de suicídio. No decurso do tempo examina a a grandeza do título com olhos contemplativos demais para o ritmo das gerações 2000-2010, calcadas no imediatismo que se zanga com a demora de segundos para carregar um vídeo no YouTube. Por isso, é com pesar que se diz que é um filme para exceções. E que beleza de filme... Cenas banais se revestem de poesia, desde um diálogo sobre os vácuos da vida até um lado a lado eloquentemente silencioso. Wenders era alemão de nascimento, mas era cidadão para além das fronteiras de seu país e alcançou a universalidade com seus retratos honestos de sujeitos em deslocamento constante. Junto com Profissão: repórter (Professione: reporter/The passenger, 1975), é o melhor filme de estrada de sua década.

Porque considero subestimado: Wenders é lembrado por Paris, Texas (idem, 1984) e Asas do desejo (Das Himmel über Berlin, 1987), que são belezuras comprovadas. Porém, sua filmografia tem mais a oferecer e No decurso do tempo merece um lugar no seu pódio. Apenas a título de nota, outro subestimado seu é O estado das coisas (Der Stand der Dinge, 1982). 

15. Emily Watson



Mais uma atriz da lista com vasta experiência em coadjuvantes e que, por isso, acaba pouco comentada. Inglesa nascida nos anos 60, ela estreou no cinema quebrando tudo como protagonista em Ondas do destino (Breaking the waves, 1996), no qual viveu uma mulher de profunda ingenuidade mergulhada em provações, bem ao gosto de Lars Von Trier, sobre o qual recaiu a pecha de misógino. É simplesmente uma das melhores interpretações femininas da década de 90. Desde então, há vários destaques positivos em sua carreira, marcada por escolhas criteriosas, como Assassinato em Gosford Park (Gosford Park, 2001), onde brilha no time dos criados em meio ao elenco numeroso, Embriagado de amor (Punch drunk love, 2002), também presente nessa lista, Dragão vermelho (Red dragon, 2002), cujo difícil papel de deficiente visual é levado com muito traquejo, e Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York, 2008), em que todo o elenco feminino se destaca. Além de atriz, carrega um diploma de bacharel em Literatura Inglesa e um mestrado concluído há pouco menos de 15 anos. Seus olhos claros e marcantes são um de seus melhores recursos expressivos a cada personagem.


Porque considero subestimada: Tem uma carreira de mais de 30 títulos, mas quando eles são citados, é bem comum que não seja por causa dela, e não faltariam motivos para isso além dos brevemente expostos acima. É tão maravilhosa como Julianne Moore e Juliette Binoche, só para lembrar duas outras atrizes possantes de sua geração.

domingo, 2 de abril de 2017

BALANÇO MENSAL - MARÇO

Segue a tradição de reunir meus filmes vistos ao longo de mais um mês em outra edição do balanço mensal. Uma pena que não apareceu nenhuma nota acima de 8, fazendo o pódio de março ser composto apenas de filmes com essa avaliação; de qualquer forma, significa que são ótimos filmes, e a expectativa de um 9 ou um 10 fica mantida para abril. O detalhe é que todos foram rodados em 2016, uma prova de que a ideia de que os bons filmes estão no passado é uma falácia: sempre há bons e maus títulos em qualquer tempo; parece óbvio, mas não é o que todos enxergam. Entre os diretores mais conhecidos que desfilaram suas obras nesse terceiro mês do ano, teve os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, David Lean, Jules Dassin, John Carpenter e Elia Kazan. Diretores contemporâneos ou de épocas passadas, eles foram responsáveis por ótimos momentos diante da tela, embora nenhum tenha conquistado o título de meu preferido de cada diretor. Sem mais enrolação, vamos ver todos os títulos que compuseram a galeria cinematográfica de março.

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

O dia mais feliz da vida de Olli Mäki (Juho Kuosmanen, 2016) 


A narrativa desse representante da Finlândia para uma vaga entre os finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro acompanha em alguns dias a rotina de um padeiro levado à posição de ídolo nacional. Tudo por causa de grande talento no boxe. Agora um peso enorme de expectativa está sobre seus ombros, e lidar com isso é a grande questão do personagem. O real interesse do realizador é mergulhar na humanidade de Olli Mäki, então o ringue é presença escassa na história. No título reside um misto de ironia com uma ida na contramão das hipóteses. Não teve nada ver com o esporte a maior felicidade desse homem: foi o pedido de noivado à mulher de sua vida que o encheu daquele sentimento. A base para o longa veio da realidade, e Jarkko Lahti, intérprete de Olli, se dedicou horrores para encarná-lo, em um processo que lhe ocupou alguns anos e lhe deixou o gosto pelo boxe. Um filme para todos que se encantam pelas histórias comuns e uma bela amostra de que Aki Kaurismäki tem um conterrâneo igualmente talentoso.

MEDALHA DE PRATA

O túnel (Seong-Hun Kim, 2016)



Uma situação extrema e um desafio imenso: não entrar em desespero. A junção desses fatores compõe O túnel, nova demonstração do quanto o cinema sul-coreano dos anos 2010 merece ser acompanhado com interesse. A exemplo do que havia feito em Um dia difícil (Kkeut-kka-ji-gan-da, 2014), o realizador Seong-Hun Kim joga seu protagonista em uma espiral de dificuldades que começa quando ele fica preso em túnel desmoronado exatamente no momento em que ele estava passando. Daí em diante, a luta pela sobrevivência se torna cada vez mais dramática e o roteiro abre espaço à discussão sobre fraternidade em tempos adversos e o sensacionalismo midiático, que percebemos ser uma realidade na Coreia do Sul também. Por esse último aspecto, o filme guarda semelhanças com o primoroso A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951), em que Billy Wilder também examinava o meio de ação da imprensa marrom. Capaz de deixar o espectador grudado na poltrona, O túnel é ação, emoção e reflexão a toda prova, em que pese alguns pequenos clichês.

MEDALHA DE BRONZE

Christine (Antonio Campos, 2016)



Onde os eleitores dos prêmios estavam com a cabeça quando deixaram Rebecca Hall de fora da temporada 2016? Das duas, uma: ou perderam completamente o juízo ou não viram o que ela foi capaz de fazer em Christine (idem, 2016). A personagem surgiu da vida real: jornalista em busca de uma carreira sólida e respeitada, ela se viu obrigada a fazer concessões desagradáveis na emissora de televisão em que trabalhava em nome de uma audiência mais alta. Na vida pessoal, um quadro depressivo só fazia se agravar e, como espectadores, somos testemunhas de suas várias tentativas de remar contra a corrente. Enquanto sua caminhada vai se tornando cada vez mais difícil, Hall vai encenando tudo com uma naturalidade absurda, sendo tão Christine que parece que estamos diante da própria jornalista reconstituindo cenas de seu passado. A atriz some na personagem, e esse é o sonho de qualquer intérprete. O filme faz par com um documentário também de 2016 - que ainda não vi - e serve, no mínimo, como um registro para a posteridade de uma figura tão instigante e comovente.


INÉDITOS

LONGAS

80. Sombras do mal (Jules Dassin, 1950) -> 8.0
81. O dia mais feliz da vida de Olli Mäki (Juho Kuosmanen, 2016) -> 8.0
82. A garota desconhecida (Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2016) -> 7.5
83. Paterson (Jim Jarmusch, 2016) -> 7.5
84. Lawrence da Arábia (David Lean, 1962) -> 8.0
85. O roubo da taça (Caíto Ortiz, 2016) -> 5.0
86. Assalto à 13ª DP (John Carpenter, 1976) -> 7.5



87. Duro de matar 2 (Renny Harlin, 1990) -> 7.5
88. Kong: a Ilha da Caveira (Jordan Vogt-Roberts, 2016) -> 7.5
89. Eu não sou seu negro (Raoul Peck, 2016) -> 7.0
90. Divinas (Houda Benyamina, 2016) -> 8.0
91. Logan (James Mangold, 2016) -> 7.0
92. Gata velha ainda mia (Rafael Primot, 2016) -> 7.0
93. Koblic (Sebástian Borensztein, 2016) -> 6.0


94. Máquina mortífera 3 (Richard Donner, 1992) -> 6.5
95. No fim do túnel (Rodrigo Grande, 2016) -> 7.0
96. Contos de Nova York (Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Woody Allen, 1989) -> 7.0
97. Tratamento de choque (Peter Segal, 2003) -> 4.0
98. Renegado do Leste (Sharunas Bartas, 2010) -> 6.0
99. O túnel (Seong-Hun Kim, 2016)
100. Uma rua chamada pecado (Elia Kazan, 1951) -> 8.0
101. O silêncio do céu (Marco Dutra, 2016) -> 7.5


102. Uma noite fora de série (Shawn Levy, 2010) -> 5.0
103. Um toque de pecado (Jia Znahg-ke, 2013) -> 8.0
104. Missão impossível (Brian De Palma, 1996) -> 7.0
105. Certas mulheres (Kelly Reichardt, 2016) -> 7.0
106. Sing (Garth Jennings, 2016) -> 7.5
107. Depois da tempestade (Hirokazu Kore-eda, 2016) -> 7.5
108. Christine (Antonio Campos, 2016) -> 8.0
109. Campo Grande (Sandra Kogut, 2015) -> 6.0
110. O caçador (Daniel Nettheim, 2011) -> 6.5


111. Máquina mortífera 4 (Richard Donner, 1998) -> 7.5
112. Amar... não tem preço (Pierre Salvadori, 2006) -> 7.0
113. Para o que der e vier (Matthew Weiner, 2013) -> 4.0
114. A mosca (David Cronenberg, 1986) -> 8.0
115. As duas faces da lei (Jon Avnet, 2008) -> 5.0
116. Ninotchka (Ernst Lubitsch, 1939) -> 8.0
117. Para minha amada morta (Aly Muritiba, 2016) -> 6.0

CURTA

Stick man (Jeroen Jaspaert e Daniel Snaddon, 2015) -> 7.0

REVISTOS

Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen, 2008) -> 10.0
Bastardos inglórios (Quentin Tarantino, 2009) -> 8.0
Pauline na praia (Eric Rohmer, 1983) -> 8.5
Tudo sobre minha mãe (Pedro Almodóvar, 1999) -> 8.5

MELHOR FILME: O dia mais feliz da vida de Olli Mäki
PIOR FILME: Para o que der e vier
MELHOR DIRETOR: Seong-Hun Kim, por O túnel
MELHOR ATRIZ: Rebecca Hall, por Christine
MELHOR ATOR: Jarkko Lahti, por O dia mais feliz da vida de Olli Mäki
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Geena Davis, por A mosca
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Joe Pesci, por Máquina mortífera 4
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Juho Kuosmanen e Mikko Myllylahti, por O dia mais feliz da vida de Olli Mäki
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Charles Brackett e Billy Wilder, por Ninocthcka
MELHOR TRILHA SONORA: O túnel
MELHOR FOTOGRAFIA: O dia mais feliz da vida de Olli Mäki
MELHOR CENA: A última conversa de Olli com a namorada antes da luta
MELHOR FINAL: Christine

terça-feira, 21 de março de 2017

QUINTETO DE OURO - CINEMA JAPONÊS

Resumir um país a cinco filmes é uma ousadia e tanto mas, de vez em quando, sou ousado. Depois de reunir meus preferidos de alguns cineastas, atrizes, décadas, um festival e um ano, chegou a hora de eleger os de que mais gosto da produção cinematográfica japonesa. Como de hábito, aponto os critérios que direcionaram minhas escolhas, uma tentativa de ser menos injusto e mais abrangente. O principal deles foi não repetir diretores, e tentar ficar com o melhor de cada um entre os mencionados. De novo, retorno à ordem cronológica em detrimento da ordem de preferência, mais objetiva e menos alvo de questionamentos, que têm sua validade, porém às vezes cansam um pouco.

Em se tratando dos diretores, não fugi muito do óbvio: comparecem na lista Akira Kurosawa, Hayao Miyazaki e Yasujiro Ozu. Mas, se o óbvio é realmente bom, não há problema algum, e aqui estão eles. Os escolhidos de cada um é que não são exatamente os mais badalados - questão de gosto, afinal. Para espectadores mais habituados com a seara hollywoodiana, vale ampliar os horizontes e visitar o outro lado do mundo por meio das imagens e personagens oferecidos pelo Japão. É um cinema rico em histórias de condução menos melosa que várias do mundo ocidental. O sentimento brota discreto, raramente apoiado em trilhas sonoras movidas a instrumentos de cordas. Um primeiro olhar pode até confundir esse tipo de abordagem com frieza, mas é tão somente um outro jeito de encarar o mundo e estabelecer as relações interpessoais. E lá vamos nós aos meus cinco japas mais queridos.

A rotina tem seu encanto (Yasujiro Ozu, 1962)


O cotidiano é matéria-prima inconteste da cinematografia ozuana, e seu auge talvez seja esse lindo longa cujo título carrega uma mensagem atemporal e alentadora. Ao se dar conta de que a filha dedicou tempo demais da vida a ele, um viúvo começa a engendrar um plano para casá-la, e essa premissa tão simples se dilata por quase duas horas, num fluxo narrativo dócil e comovente. Telespectadores assíduos de um passado recente podem perceber lastros de Ozu em Manoel Carlos, com seus conflitos familiares. O novelista bebia dessa fonte em suas produções e alcançou enorme sucesso junto ao público. Voltando ao Japão, o grande tributário de Ozu se chama Hirokazu Kore-eda, praticante de um cinema prosaico, onde o que menos importa é o que vai acontecer. Até mesmo o virulento e cartunesco Takeshi Kitano já demonstrou seu respeito a Ozu quando concebeu Glória ao cineasta (Kantoku · Banzai!, 2007), cuja estrutura episódica contém momentos de emulação à abordagem daquele realizador. A rotina tem seu encanto e os personagens são uns queridos para guardar na caminhada.

Dersu Uzala (Akira Kurosawa, 1975)


Dersu Uzala é um gracioso convite para uma espécie de volta às origens, em que importavam os valores simples, a comunhão fraterna e o apreço pelos momentos cotidianos. Tudo isso sem qualquer traço de manipulação ou pieguice, fotografado com esmero por Asakazu Nakai e mais dois colaboradores. Para alguns, a narrativa se estende além do necessário, mas esse é um mal de que outro filme do diretor, muito mais celebrado, sofre: Os sete samurais (Shichinin no samurai, 1954), excessivo em retratar uma batalha e sua longa preparação para enfrentá-la, algo de que os fãs, certamente, discordam. O caso de Dersu Uzala, porém, é de um feliz encontro entre um roteiro bem construído, atores em estado de graça, cujas faces desconhecidas para a maior parte do público singularizam-nos e permitem que nossas memórias associem seus nomes aos seus personagens. A propósito do excelente texto, ele é adaptação do livro homônimo do capitão, o que deixa tudo com um sabor mais inesquecível. É maravilhoso saber que, verdadeiramente, houve um Dersu Uzala.

O serviço de entregas da Kiki (Hayao Miyazaki, 1989)


O longa é um registro extremamente fofo das dores e alegrias de viver quando se tem menos de duas dezenas de anos, que vem sob a forma de lembrete para quem já cruzou essa fronteira há mais ou menos tempo. O cuidado de Miyazaki na construção da imagem, bem como a captura de instantes prosaicos que não encontram espaço na esmagadora maioria das animações de outros estúdios, conferem uma qualidade ímpar à sua obra, dotada de uma franca unidade que torna possível começar a visitar sua filmografia por qualquer um dos seus títulos. Todos são viagens maravilhosas a um mundo que não está acessível por outra via que não a da arte, pródiga em recriar a realidade ao bel-prazer ou ao ângulo de visão de seu autor, e inundar retinas ansiosas por composições imagéticas multicoloridas e carregadas de significado. Essa não é apenas uma história sobre deixar de ser criança. É também sobre a descoberta do mundo e suas incoerências, que gritam ou calam a depender do momento, do lugar e da pessoa.

Verão feliz (Takeshi Kitano, 1999)


A filmografia de Takeshi Kitano está fincada em dois sustentáculos básicos: o sadismo violento e o carinho desengonçado. Pertencente ao segundo pilar, Verão feliz evoca os bons sentimentos, como a pureza, a bondade e - por que não? - a paciência em uma nuvem de traquinagens. E elas são cometidas por Kikujirô (vivido pelo próprio Kitano), senhor rabugento que promete a um garotinho levá-lo ao encontro da mãe, com quem o menino quer passar as férias escolares. O caminho até a casa, porém, é cheio de intempéries, sempre causadas pelo destrambelhamento de Kikujirô. Longe da correção política excessiva dos anos 2010 e não necessariamente voltado para o público infantil, o longa é como uma daquelas pessoas que tem coração, mas demonstram seus sentimentos de maneira tão discreta que nem sempre são percebidos de imediato. Cenas hilárias aguardam pelo público, como o acidente com o carro cujo pneu os dois tentam furar com uma tacha.

Pais e filhos (Hirokazu Kore-eda, 2013)


Foi exibido na edição 2013 do Festival de Cannes, e teve uma merecida ótima recepção por lá, indicando que a plateia que frequenta a Croisette também sabe reconhecer um filme de qualidade, e não apenas lançar suas famosas vaias para alguns. Sua maior virtude é acenar para o fato de que laços familiares não são necessariamente sinônimos de laços sanguíneos, e o sentimento de paternidade pode ir além do que constata qualquer exame de DNA. Os casais têm uma noção dessa verdade no início da história, mas vão consolidando o aprendizado na prática, à medida que vão convivendo com um menino e sentindo falta do outro. Ryota é quebrantado em sua maneira de encarar a vida conforme percebe que tem muito a aproveitar da experiência do pai biológico de Keita. Ele mesmo foi criado em parte por uma mulher que não era sua mãe, como o roteiro revela em uma visita que ele faz com o irmão ao seu pai. Em várias passagens, Kore-eda evoca Ozu e deixa no espectador uma certeza: seja aqui, seja no Japão, os laços de família estão para além do sangue que corre nas veias.

domingo, 5 de março de 2017

A corrosão pela culpa visitada em A garota desconhecida

Esqueça a trilha sonora que potencializa o drama. Em A garota desconhecida (La fille inconnue, 2016) não existe espaço para som que não sejam diegéticos, e eles pulsam com tanta ou mais intensidade que melodias de vozes ou instrumentos. Quem está familiarizado com o estilo dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne sabe o quanto essa afirmação é verdadeira, e a fidelidade a esse tipo de cinematografia se traduz em mais um exemplar potencial de sua carreira. Vinte anos depois de terem estreado com A promessa (La promesse, 1996), eles chegaram ao oitavo filme tocando no tema da culpa e do arrependimento, que ganha corpo em Jenny Davin (Adèle Haenel). Médica nos primeiros anos de exercício da profissão, ela gosta de seguir à risca certos códigos de conduta, o que gera faíscas em sua relação com o estagiário Julien (Olivier Bonnaud). É justamente em decorrência de um desses conflitos que surge o impasse da narrativa. 

Acontece que Jenny nega atendimento a uma paciente porque ela aparece na porta uma hora após o fim do expediente: é a tal garota desconhecida do título. O ato repercute em sua consciência depois de uma notícia trágica envolvendo a jovem, e aí começa o périplo da médica, em uma jornada que guarda semelhanças com a da protagonista de Dois dias, uma noite (Deux jours, une nuit, 2014), obra pregressa dos realizadores, um austríaco (Jean-Pierre), outro belga (Luc). À procura de informações que esclareçam fatos sobre a vida dessa garota, Jenny depara com muitas respostas negativas e ocultações, dificultando a montagem de um quebra-cabeça que toma seus dias. É um dos senões apresentados pelo roteiro: ela não tem qualquer vida social, família ou distrações que possam ocupar a mente, e se torna obcecada - por vezes, até mesmo chata - por entender quem é a pessoa que a buscou em vão. Será que não haveria ao menos uma amiga para compartilhar essa inquietude? Nem mesmo seus colegas médicos têm muita participação para travar alguns diálogos com ela sobre o caso.

Esses potenciais informantes, aliás, são participações especiais de atores caros aos diretores. Em momentos diferentes, surgem na tela Fabrizio Rongione, Olivier Gourmet e Jérémie Renier, este último com mais aparições na pele do pai de um dos pacientes de Jenny. Os outros dois vivem um médico veterano e o filho de outro paciente, coadjuvantes de luxo que preenchem a lista de características do modus operandi dardenniano. É pena que todos sejam presenças tão ligeiras, tendo em vista o talento de cada um. O filme acaba sendo mesmo de Haenel, que está longe de ser um estreante, mas ainda aparenta um rosto novo porque a maioria de seus papéis não tem sido de destaque. Raramente filmada de perto, sua Jenny é dominada por um senso de ética e justiça que tem dificuldades de atender, e a jornada dramática na qual se embrenha lhe rouba os sorrisos. Em apenas uma passagem ela abandona rapidamente o semblante sisudo, ao receber uma notícia positiva do (a essa altura) ex-estagiário.


A plateia de Cannes recebeu A garota desconhecida com alto nível de má vontade: emitiram vaias durante a sessão, um claro exagero e uma irresponsabilidade que não deve servir de parâmetro para a qualidade de qualquer filme. Vale lembrar que um certo Pulp fiction (idem, 1994) também foi alvo desse tipo de gritinho... Mas há que se notar o desprestígio antitético lançado aos irmãos, que já faturaram duas vezes a Palma de Ouro, feito raro entre os cineastas (Michael Haneke, Shohei Imamura e Ken Loach são os outros). O gesto, entretanto, veio da ala mais jovem do público, enquanto os críticos com anos de estrada aplaudiram discretamente a projeção, mas parece ter havido consenso de que o longa está aquém dos anteriores da dupla. Um breve olhar para o passado confirma a tese, mostrando que apenas O silêncio de Lorna (Le silence de Lorna, 2008) é mais fraco do que esse. Ainda assim, A garota desconhecida tem seus méritos e vaias cabem a filmes de outro naipe. 

O que talvez tenha faltado aqui seja a capacidade de surpreender ou, principalmente, gerar empatia, habilidade muito bem demonstrada pelos Dardenne tanto em termos de direção como de roteiro - eles sempre se baseiam em textos próprios. A jovem age de modo questionável em mais de uma ocasião. De qualquer modo, o humanismo (ou humanitarismo, para ser mais específico) que emana de Jenny é um significativo puxão de orelha em tempos nos quais a noção de responsabilidade com o outro anda cada vez mais esgarçada. Quem está disposto a se envolver com um drama que não seja o seu? Só por se debruçar em cima dessa indagação A garota desconhecida já merece o seu tempo e a sua atenção. Um outro porém é o desempenho de Haenel, um tanto gelada em sua composição, e acaba sendo irresistível comparar com o carisma absurdo de Marion Cotillard no já mencionado Dois dias, uma noite. Uns anos a mais de experiência teriam feito diferença? Mais velho dos irmãos, Jean-Pierre tentou sintetizar: "Fazemos um cinema simples visualmente, sem adereços, sem excessos de luz, para mostrar que ainda é possível crer na esperança".

7.5/10

quarta-feira, 1 de março de 2017

BALANÇO MENSAL - FEVEREIRO

Ainda não foi dessa vez que o jejum de notas 10 se quebrou. Não importa: houve filmes maravilhosos que chegaram quase lá, e focar apenas em notas é superficial demais. Em mês de Oscar, separei alguns títulos que realmente me interessavam entre os concorrentes e, com exceção de um deles, Moana - Um mar de aventuras, os demais foram belíssimas sessões, dois deles bons o suficiente para constar do pódio do mês. Também foi meu primeiro contato com filmes de ação considerados clássicos, que já tiveram inúmeras sessões na TV: Máquina mortífera e Duro de matar. São realmente muito bons, tanto que já aproveitei e conferi a sequência do primeiro e em março verei a continuação do segundo. Por outro lado, um dos piores filmes da vida apareceu nessa leva, o horroroso Bem perto de Buenos Aires, que só não levou um zero bem redondo por causa de uma única cena bem feita e perdida no conjunto. Logo abaixo, apresento a relação completa do meu fevereiro cinéfilo:

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Manchester à beira-mar (Kenneth Lonergan, 2016)


Cada pessoa é uma soma de acontecimentos, e a narrativa de Manchester à beira-mar reafirma essa concepção com sensibilidade, evitando incorrer no dramalhão pesado. Lonergan exercita seu lado cineasta apenas pela terceira vez, com planos encantadores que mostram Lee como um cara que já teve motivos para sorrir e navegava frequentemente com Joe (Kyle Chandler), o irmão, e Patrick (Lucas Hedges), o sobrinho. Eram momentos ternos e divertidos e Joe adorava contar piadas de tubarão, lembranças que vão e vêm da mente de Lee após seu retorno a Manchester. Essas memórias, a propósito, são distribuídas na trama sem demarcação temporal, num exercício de montagem idêntico ao usado por Woody Allen em Blue Jasmine (idem, 2013), e ajudam a elucidar passagens marcantes que Lee não é mais capaz de verbalizar. [texto completo]


MEDALHA DE PRATA

Santiago (João Moreira Salles, 2007)


Ao receber de alguns amigos suas listas de filmes preferidos de 2007 para a edição deste mês do Quinteto de Ouro, dois deles incluíram Santiago. O fato reacendeu meu interesse pelo documentário em que João Moreira Salles revisita antigas filmagens sobre o ex-mordomo de sua família e compartilha com a audiência conclusões nada animadoras sobre sua pretensão artística. Pouquíssimas vezes o cinema foi tão longe em desnudar sentimentos, bem como um realizador em mostrar o quanto se equivocou em suas intenções. Santiago era um homem riquíssimo - não de dinheiro - e com uma obsessão por antigos nobres de várias partes do mundo - o que o tornou um copista que reuniu 30 mil páginas de biografias, num esforço hercúleo e quixotesco de preservação de memórias. Optando pela ausência de cores, Salles nos entrega uma súmula de seu olhar crítico sobre si mesmo, com reavaliações e constatações sobre aquilo que não muda mais.


MEDALHA DE BRONZE

Toni Erdmann (Maren Ade, 2016)


Por muitas vezes, percebe-se a relação de Ines e Winfried como um intenso morde e assopra. Ela não embarca em seu jeitão bem humorado e solta frases um tanto cruéis quando perguntada com simplicidade sobre estar ou não feliz. Ele, incapaz de reagir na mesma linha, prefere lançar-lhe um olhar conformado, para na cena seguinte tudo parecer perfeitamente normal de novo entre os dois. É assim durante sua visita a ela, até que os humores de ambos definitivamente não se conciliam e ele parte para casa. Seu retorno já é como o insólito Toni Erdmann. Como boa escritora e observadora do ser humano (só assim para justificar a riqueza da trama), Ade oferece camadas de seus personagens, e os desempenhos de Simonischek e Hüller demonstram compreensão desse olhar distante de enviesamentos. [texto completo]


INÉDITOS

LONGAS

43. O garoto (Charles Chaplin, 1921) -> 9.0
44. O vingador do futuro (Paul Verhoeven, 1990) -> 7.5
45. Perigo extremo (Ringo Lam, 1987) -> 8.0
46. Toni Erdmann (Maren Ade, 2016) -> 8.5
47. Máquina mortífera (Richard Donner, 1987) -> 8.0
48. Kick-ass 2 (Jeff Wadlow, 2013) -> 7.0


49. O exercício do poder (Pierre Schöller, 2011) -> 6.0
50. Um crime de mestre (Gregory Hoblit, 2007) -> 6.0
51. Poder sem limites (Josh Trank, 2012) -> 6.0
52. Uma ladra sem limites (Seth Gordon, 2013) -> 6.0
53. Duro de matar (John McTiernan, 1988) -> 8.0
54. Bem perto de Buenos Aires (Benjamín Naishtat, 2014) -> 1.0
55. Manchester à beira-mar (Kenneth Lonergan, 2016) -> 9.0
56. Temporada de caça (Paul Schrader, 1997) -> 7.0


57. Inimigo íntimo (Alan J. Pakula, 1997) -> 7.5
58. Inimigos públicos (Michael Mann, 2009) -> 8.0
59. A proposta (Anne Fletcher, 2009) -> 6.0
60. Outras pessoas (Chris Kelly, 2016) -> 7.0
61. Máquina mortífera 2 (Richard Donner, 1989) -> 8.0
62. A recompensa (Richard Shepard, 2013) -> 6.0
63. Dredd (Pete Travis, 2012) -> 8.0


64. Selvagem (Steve "Spaz" Williams, 2006) -> 4.0
65. Como você sabe (James L. Brooks, 2010) -> 5.5
66. Inferno na torre (John Guillermin e Irwin Allen, 1974) -> 7.0
67. Chevalier (Athina Rachel Tsangari, 2016) -> 5.0
68. Santiago (João Moreira Salles, 2007) -> 9.0
69. Moonlight - Sob a luz do luar (Barry Jenkins, 2016) -> 8.0
70. Operação invasão (Gareth Evans, 2011) -> 8.0
71. Quase 18 (Kelly Fremon Craig, 2016) -> 7.0


72. Um limite entre nós (Denzel Washington, 2016) -> 8.0
73. Moana - Um mar de aventuras (Ron Clements e John Musker, 2016) -> 5.0
74. Irresistível paixão (Steven Soderbergh, 1998) -> 6.5
75. Os estranhos (Bryan Bertino, 2008) -> 7.5
76. Jogo de espiões (Tony Scott, 2001) -> 7.0
77. Le plein de super (Alain Cavalier, 1976) -> 7.0
78. Pequenos espiões (Robert Rodriguez, 2001) -> 7.0
79. Valente (Neil Jordan, 2007) -> 8.0

CURTAS

A loja dos relógios (Wilfred Jackson, 1931) -> 8.5
Coelhinhos engraçadinhos (Wilfred Jackson, 1934) -> 8.0

REVISTOS

Persona (Ingmar Bergman, 1966) -> 10.0
Um alguém apaixonado (Abbas Kiarostami, 2012) -> 8.5
Trapaceiros (Woody Allen, 2000) -> 7.5
Longe do paraíso (Todd Haynes, 2002) -> 9.0

MELHOR FILME: Manchester à beira-mar
PIOR FILME: Bem perto de Buenos Aires
MELHOR DIRETOR: Kenneth Lonergan, por Manchester à beira-mar
MELHOR ATRIZ: Sandra Hüller, por Toni Erdmann
MELHOR ATOR: Casey Affleck, por Manchester à beira-mar
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Michelle Williams, por Manchester à beira-mar
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali, por Moonlight - Sob a luz do luar
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Kenneth Lonergan, por Manchester à beira-mar
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney, por Moonlight - Sob a luz do luar
MELHOR TRILHA SONORA: Aria Prayogi e Fajar Yuskemal, por Operação invasão
MELHOR FOTOGRAFIA: James Laxton, por Moonlight - Sob a luz do luar
MELHOR CENA: O último diálogo entre Lee e Randi em Manchester à beira-mar
MELHOR FINAL: Toni Erdmann