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terça-feira, 21 de março de 2017

QUINTETO DE OURO - CINEMA JAPONÊS

Resumir um país a cinco filmes é uma ousadia e tanto mas, de vez em quando, sou ousado. Depois de reunir meus preferidos de alguns cineastas, atrizes, décadas, um festival e um ano, chegou a hora de eleger os de que mais gosto da produção cinematográfica japonesa. Como de hábito, aponto os critérios que direcionaram minhas escolhas, uma tentativa de ser menos injusto e mais abrangente. O principal deles foi não repetir diretores, e tentar ficar com o melhor de cada um entre os mencionados. De novo, retorno à ordem cronológica em detrimento da ordem de preferência, mais objetiva e menos alvo de questionamentos, que têm sua validade, porém às vezes cansam um pouco.

Em se tratando dos diretores, não fugi muito do óbvio: comparecem na lista Akira Kurosawa, Hayao Miyazaki e Yasujiro Ozu. Mas, se o óbvio é realmente bom, não há problema algum, e aqui estão eles. Os escolhidos de cada um é que não são exatamente os mais badalados - questão de gosto, afinal. Para espectadores mais habituados com a seara hollywoodiana, vale ampliar os horizontes e visitar o outro lado do mundo por meio das imagens e personagens oferecidos pelo Japão. É um cinema rico em histórias de condução menos melosa que várias do mundo ocidental. O sentimento brota discreto, raramente apoiado em trilhas sonoras movidas a instrumentos de cordas. Um primeiro olhar pode até confundir esse tipo de abordagem com frieza, mas é tão somente um outro jeito de encarar o mundo e estabelecer as relações interpessoais. E lá vamos nós aos meus cinco japas mais queridos.

A rotina tem seu encanto (Yasujiro Ozu, 1962)


O cotidiano é matéria-prima inconteste da cinematografia ozuana, e seu auge talvez seja esse lindo longa cujo título carrega uma mensagem atemporal e alentadora. Ao se dar conta de que a filha dedicou tempo demais da vida a ele, um viúvo começa a engendrar um plano para casá-la, e essa premissa tão simples se dilata por quase duas horas, num fluxo narrativo dócil e comovente. Telespectadores assíduos de um passado recente podem perceber lastros de Ozu em Manoel Carlos, com seus conflitos familiares. O novelista bebia dessa fonte em suas produções e alcançou enorme sucesso junto ao público. Voltando ao Japão, o grande tributário de Ozu se chama Hirokazu Kore-eda, praticante de um cinema prosaico, onde o que menos importa é o que vai acontecer. Até mesmo o virulento e cartunesco Takeshi Kitano já demonstrou seu respeito a Ozu quando concebeu Glória ao cineasta (Kantoku · Banzai!, 2007), cuja estrutura episódica contém momentos de emulação à abordagem daquele realizador. A rotina tem seu encanto e os personagens são uns queridos para guardar na caminhada.

Dersu Uzala (Akira Kurosawa, 1975)


Dersu Uzala é um gracioso convite para uma espécie de volta às origens, em que importavam os valores simples, a comunhão fraterna e o apreço pelos momentos cotidianos. Tudo isso sem qualquer traço de manipulação ou pieguice, fotografado com esmero por Asakazu Nakai e mais dois colaboradores. Para alguns, a narrativa se estende além do necessário, mas esse é um mal de que outro filme do diretor, muito mais celebrado, sofre: Os sete samurais (Shichinin no samurai, 1954), excessivo em retratar uma batalha e sua longa preparação para enfrentá-la, algo de que os fãs, certamente, discordam. O caso de Dersu Uzala, porém, é de um feliz encontro entre um roteiro bem construído, atores em estado de graça, cujas faces desconhecidas para a maior parte do público singularizam-nos e permitem que nossas memórias associem seus nomes aos seus personagens. A propósito do excelente texto, ele é adaptação do livro homônimo do capitão, o que deixa tudo com um sabor mais inesquecível. É maravilhoso saber que, verdadeiramente, houve um Dersu Uzala.

O serviço de entregas da Kiki (Hayao Miyazaki, 1989)


O longa é um registro extremamente fofo das dores e alegrias de viver quando se tem menos de duas dezenas de anos, que vem sob a forma de lembrete para quem já cruzou essa fronteira há mais ou menos tempo. O cuidado de Miyazaki na construção da imagem, bem como a captura de instantes prosaicos que não encontram espaço na esmagadora maioria das animações de outros estúdios, conferem uma qualidade ímpar à sua obra, dotada de uma franca unidade que torna possível começar a visitar sua filmografia por qualquer um dos seus títulos. Todos são viagens maravilhosas a um mundo que não está acessível por outra via que não a da arte, pródiga em recriar a realidade ao bel-prazer ou ao ângulo de visão de seu autor, e inundar retinas ansiosas por composições imagéticas multicoloridas e carregadas de significado. Essa não é apenas uma história sobre deixar de ser criança. É também sobre a descoberta do mundo e suas incoerências, que gritam ou calam a depender do momento, do lugar e da pessoa.

Verão feliz (Takeshi Kitano, 1999)


A filmografia de Takeshi Kitano está fincada em dois sustentáculos básicos: o sadismo violento e o carinho desengonçado. Pertencente ao segundo pilar, Verão feliz evoca os bons sentimentos, como a pureza, a bondade e - por que não? - a paciência em uma nuvem de traquinagens. E elas são cometidas por Kikujirô (vivido pelo próprio Kitano), senhor rabugento que promete a um garotinho levá-lo ao encontro da mãe, com quem o menino quer passar as férias escolares. O caminho até a casa, porém, é cheio de intempéries, sempre causadas pelo destrambelhamento de Kikujirô. Longe da correção política excessiva dos anos 2010 e não necessariamente voltado para o público infantil, o longa é como uma daquelas pessoas que tem coração, mas demonstram seus sentimentos de maneira tão discreta que nem sempre são percebidos de imediato. Cenas hilárias aguardam pelo público, como o acidente com o carro cujo pneu os dois tentam furar com uma tacha.

Pais e filhos (Hirokazu Kore-eda, 2013)


Foi exibido na edição 2013 do Festival de Cannes, e teve uma merecida ótima recepção por lá, indicando que a plateia que frequenta a Croisette também sabe reconhecer um filme de qualidade, e não apenas lançar suas famosas vaias para alguns. Sua maior virtude é acenar para o fato de que laços familiares não são necessariamente sinônimos de laços sanguíneos, e o sentimento de paternidade pode ir além do que constata qualquer exame de DNA. Os casais têm uma noção dessa verdade no início da história, mas vão consolidando o aprendizado na prática, à medida que vão convivendo com um menino e sentindo falta do outro. Ryota é quebrantado em sua maneira de encarar a vida conforme percebe que tem muito a aproveitar da experiência do pai biológico de Keita. Ele mesmo foi criado em parte por uma mulher que não era sua mãe, como o roteiro revela em uma visita que ele faz com o irmão ao seu pai. Em várias passagens, Kore-eda evoca Ozu e deixa no espectador uma certeza: seja aqui, seja no Japão, os laços de família estão para além do sangue que corre nas veias.

domingo, 5 de março de 2017

A corrosão pela culpa visitada em A garota desconhecida

Esqueça a trilha sonora que potencializa o drama. Em A garota desconhecida (La fille inconnue, 2016) não existe espaço para som que não sejam diegéticos, e eles pulsam com tanta ou mais intensidade que melodias de vozes ou instrumentos. Quem está familiarizado com o estilo dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne sabe o quanto essa afirmação é verdadeira, e a fidelidade a esse tipo de cinematografia se traduz em mais um exemplar potencial de sua carreira. Vinte anos depois de terem estreado com A promessa (La promesse, 1996), eles chegaram ao oitavo filme tocando no tema da culpa e do arrependimento, que ganha corpo em Jenny Davin (Adèle Haenel). Médica nos primeiros anos de exercício da profissão, ela gosta de seguir à risca certos códigos de conduta, o que gera faíscas em sua relação com o estagiário Julien (Olivier Bonnaud). É justamente em decorrência de um desses conflitos que surge o impasse da narrativa. 

Acontece que Jenny nega atendimento a uma paciente porque ela aparece na porta uma hora após o fim do expediente: é a tal garota desconhecida do título. O ato repercute em sua consciência depois de uma notícia trágica envolvendo a jovem, e aí começa o périplo da médica, em uma jornada que guarda semelhanças com a da protagonista de Dois dias, uma noite (Deux jours, une nuit, 2014), obra pregressa dos realizadores, um austríaco (Jean-Pierre), outro belga (Luc). À procura de informações que esclareçam fatos sobre a vida dessa garota, Jenny depara com muitas respostas negativas e ocultações, dificultando a montagem de um quebra-cabeça que toma seus dias. É um dos senões apresentados pelo roteiro: ela não tem qualquer vida social, família ou distrações que possam ocupar a mente, e se torna obcecada - por vezes, até mesmo chata - por entender quem é a pessoa que a buscou em vão. Será que não haveria ao menos uma amiga para compartilhar essa inquietude? Nem mesmo seus colegas médicos têm muita participação para travar alguns diálogos com ela sobre o caso.

Esses potenciais informantes, aliás, são participações especiais de atores caros aos diretores. Em momentos diferentes, surgem na tela Fabrizio Rongione, Olivier Gourmet e Jérémie Renier, este último com mais aparições na pele do pai de um dos pacientes de Jenny. Os outros dois vivem um médico veterano e o filho de outro paciente, coadjuvantes de luxo que preenchem a lista de características do modus operandi dardenniano. É pena que todos sejam presenças tão ligeiras, tendo em vista o talento de cada um. O filme acaba sendo mesmo de Haenel, que está longe de ser um estreante, mas ainda aparenta um rosto novo porque a maioria de seus papéis não tem sido de destaque. Raramente filmada de perto, sua Jenny é dominada por um senso de ética e justiça que tem dificuldades de atender, e a jornada dramática na qual se embrenha lhe rouba os sorrisos. Em apenas uma passagem ela abandona rapidamente o semblante sisudo, ao receber uma notícia positiva do (a essa altura) ex-estagiário.


A plateia de Cannes recebeu A garota desconhecida com alto nível de má vontade: emitiram vaias durante a sessão, um claro exagero e uma irresponsabilidade que não deve servir de parâmetro para a qualidade de qualquer filme. Vale lembrar que um certo Pulp fiction (idem, 1994) também foi alvo desse tipo de gritinho... Mas há que se notar o desprestígio antitético lançado aos irmãos, que já faturaram duas vezes a Palma de Ouro, feito raro entre os cineastas (Michael Haneke, Shohei Imamura e Ken Loach são os outros). O gesto, entretanto, veio da ala mais jovem do público, enquanto os críticos com anos de estrada aplaudiram discretamente a projeção, mas parece ter havido consenso de que o longa está aquém dos anteriores da dupla. Um breve olhar para o passado confirma a tese, mostrando que apenas O silêncio de Lorna (Le silence de Lorna, 2008) é mais fraco do que esse. Ainda assim, A garota desconhecida tem seus méritos e vaias cabem a filmes de outro naipe. 

O que talvez tenha faltado aqui seja a capacidade de surpreender ou, principalmente, gerar empatia, habilidade muito bem demonstrada pelos Dardenne tanto em termos de direção como de roteiro - eles sempre se baseiam em textos próprios. A jovem age de modo questionável em mais de uma ocasião. De qualquer modo, o humanismo (ou humanitarismo, para ser mais específico) que emana de Jenny é um significativo puxão de orelha em tempos nos quais a noção de responsabilidade com o outro anda cada vez mais esgarçada. Quem está disposto a se envolver com um drama que não seja o seu? Só por se debruçar em cima dessa indagação A garota desconhecida já merece o seu tempo e a sua atenção. Um outro porém é o desempenho de Haenel, um tanto gelada em sua composição, e acaba sendo irresistível comparar com o carisma absurdo de Marion Cotillard no já mencionado Dois dias, uma noite. Uns anos a mais de experiência teriam feito diferença? Mais velho dos irmãos, Jean-Pierre tentou sintetizar: "Fazemos um cinema simples visualmente, sem adereços, sem excessos de luz, para mostrar que ainda é possível crer na esperança".

7.5/10

quarta-feira, 1 de março de 2017

BALANÇO MENSAL - FEVEREIRO

Ainda não foi dessa vez que o jejum de notas 10 se quebrou. Não importa: houve filmes maravilhosos que chegaram quase lá, e focar apenas em notas é superficial demais. Em mês de Oscar, separei alguns títulos que realmente me interessavam entre os concorrentes e, com exceção de um deles, Moana - Um mar de aventuras, os demais foram belíssimas sessões, dois deles bons o suficiente para constar do pódio do mês. Também foi meu primeiro contato com filmes de ação considerados clássicos, que já tiveram inúmeras sessões na TV: Máquina mortífera e Duro de matar. São realmente muito bons, tanto que já aproveitei e conferi a sequência do primeiro e em março verei a continuação do segundo. Por outro lado, um dos piores filmes da vida apareceu nessa leva, o horroroso Bem perto de Buenos Aires, que só não levou um zero bem redondo por causa de uma única cena bem feita e perdida no conjunto. Logo abaixo, apresento a relação completa do meu fevereiro cinéfilo:

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

Manchester à beira-mar (Kenneth Lonergan, 2016)


Cada pessoa é uma soma de acontecimentos, e a narrativa de Manchester à beira-mar reafirma essa concepção com sensibilidade, evitando incorrer no dramalhão pesado. Lonergan exercita seu lado cineasta apenas pela terceira vez, com planos encantadores que mostram Lee como um cara que já teve motivos para sorrir e navegava frequentemente com Joe (Kyle Chandler), o irmão, e Patrick (Lucas Hedges), o sobrinho. Eram momentos ternos e divertidos e Joe adorava contar piadas de tubarão, lembranças que vão e vêm da mente de Lee após seu retorno a Manchester. Essas memórias, a propósito, são distribuídas na trama sem demarcação temporal, num exercício de montagem idêntico ao usado por Woody Allen em Blue Jasmine (idem, 2013), e ajudam a elucidar passagens marcantes que Lee não é mais capaz de verbalizar. [texto completo]


MEDALHA DE PRATA

Santiago (João Moreira Salles, 2007)


Ao receber de alguns amigos suas listas de filmes preferidos de 2007 para a edição deste mês do Quinteto de Ouro, dois deles incluíram Santiago. O fato reacendeu meu interesse pelo documentário em que João Moreira Salles revisita antigas filmagens sobre o ex-mordomo de sua família e compartilha com a audiência conclusões nada animadoras sobre sua pretensão artística. Pouquíssimas vezes o cinema foi tão longe em desnudar sentimentos, bem como um realizador em mostrar o quanto se equivocou em suas intenções. Santiago era um homem riquíssimo - não de dinheiro - e com uma obsessão por antigos nobres de várias partes do mundo - o que o tornou um copista que reuniu 30 mil páginas de biografias, num esforço hercúleo e quixotesco de preservação de memórias. Optando pela ausência de cores, Salles nos entrega uma súmula de seu olhar crítico sobre si mesmo, com reavaliações e constatações sobre aquilo que não muda mais.


MEDALHA DE BRONZE

Toni Erdmann (Maren Ade, 2016)


Por muitas vezes, percebe-se a relação de Ines e Winfried como um intenso morde e assopra. Ela não embarca em seu jeitão bem humorado e solta frases um tanto cruéis quando perguntada com simplicidade sobre estar ou não feliz. Ele, incapaz de reagir na mesma linha, prefere lançar-lhe um olhar conformado, para na cena seguinte tudo parecer perfeitamente normal de novo entre os dois. É assim durante sua visita a ela, até que os humores de ambos definitivamente não se conciliam e ele parte para casa. Seu retorno já é como o insólito Toni Erdmann. Como boa escritora e observadora do ser humano (só assim para justificar a riqueza da trama), Ade oferece camadas de seus personagens, e os desempenhos de Simonischek e Hüller demonstram compreensão desse olhar distante de enviesamentos. [texto completo]


INÉDITOS

LONGAS

43. O garoto (Charles Chaplin, 1921) -> 9.0
44. O vingador do futuro (Paul Verhoeven, 1990) -> 7.5
45. Perigo extremo (Ringo Lam, 1987) -> 8.0
46. Toni Erdmann (Maren Ade, 2016) -> 8.5
47. Máquina mortífera (Richard Donner, 1987) -> 8.0
48. Kick-ass 2 (Jeff Wadlow, 2013) -> 7.0


49. O exercício do poder (Pierre Schöller, 2011) -> 6.0
50. Um crime de mestre (Gregory Hoblit, 2007) -> 6.0
51. Poder sem limites (Josh Trank, 2012) -> 6.0
52. Uma ladra sem limites (Seth Gordon, 2013) -> 6.0
53. Duro de matar (John McTiernan, 1988) -> 8.0
54. Bem perto de Buenos Aires (Benjamín Naishtat, 2014) -> 1.0
55. Manchester à beira-mar (Kenneth Lonergan, 2016) -> 9.0
56. Temporada de caça (Paul Schrader, 1997) -> 7.0


57. Inimigo íntimo (Alan J. Pakula, 1997) -> 7.5
58. Inimigos públicos (Michael Mann, 2009) -> 8.0
59. A proposta (Anne Fletcher, 2009) -> 6.0
60. Outras pessoas (Chris Kelly, 2016) -> 7.0
61. Máquina mortífera 2 (Richard Donner, 1989) -> 8.0
62. A recompensa (Richard Shepard, 2013) -> 6.0
63. Dredd (Pete Travis, 2012) -> 8.0


64. Selvagem (Steve "Spaz" Williams, 2006) -> 4.0
65. Como você sabe (James L. Brooks, 2010) -> 5.5
66. Inferno na torre (John Guillermin e Irwin Allen, 1974) -> 7.0
67. Chevalier (Athina Rachel Tsangari, 2016) -> 5.0
68. Santiago (João Moreira Salles, 2007) -> 9.0
69. Moonlight - Sob a luz do luar (Barry Jenkins, 2016) -> 8.0
70. Operação invasão (Gareth Evans, 2011) -> 8.0
71. Quase 18 (Kelly Fremon Craig, 2016) -> 7.0


72. Um limite entre nós (Denzel Washington, 2016) -> 8.0
73. Moana - Um mar de aventuras (Ron Clements e John Musker, 2016) -> 5.0
74. Irresistível paixão (Steven Soderbergh, 1998) -> 6.5
75. Os estranhos (Bryan Bertino, 2008) -> 7.5
76. Jogo de espiões (Tony Scott, 2001) -> 7.0
77. Le plein de super (Alain Cavalier, 1976) -> 7.0
78. Pequenos espiões (Robert Rodriguez, 2001) -> 7.0
79. Valente (Neil Jordan, 2007) -> 8.0

CURTAS

A loja dos relógios (Wilfred Jackson, 1931) -> 8.5
Coelhinhos engraçadinhos (Wilfred Jackson, 1934) -> 8.0

REVISTOS

Persona (Ingmar Bergman, 1966) -> 10.0
Um alguém apaixonado (Abbas Kiarostami, 2012) -> 8.5
Trapaceiros (Woody Allen, 2000) -> 7.5
Longe do paraíso (Todd Haynes, 2002) -> 9.0

MELHOR FILME: Manchester à beira-mar
PIOR FILME: Bem perto de Buenos Aires
MELHOR DIRETOR: Kenneth Lonergan, por Manchester à beira-mar
MELHOR ATRIZ: Sandra Hüller, por Toni Erdmann
MELHOR ATOR: Casey Affleck, por Manchester à beira-mar
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Michelle Williams, por Manchester à beira-mar
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali, por Moonlight - Sob a luz do luar
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Kenneth Lonergan, por Manchester à beira-mar
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney, por Moonlight - Sob a luz do luar
MELHOR TRILHA SONORA: Aria Prayogi e Fajar Yuskemal, por Operação invasão
MELHOR FOTOGRAFIA: James Laxton, por Moonlight - Sob a luz do luar
MELHOR CENA: O último diálogo entre Lee e Randi em Manchester à beira-mar
MELHOR FINAL: Toni Erdmann

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A jornada sutil de autodescoberta de Moonlight: sob a luz do luar

Silêncios pontuam a trajetória de Chiron, protagonista visitado em três fases da vida e interpretado por três atores diferentes ao longo de Moonlight: sob a luz do luar (Moonlight, 2016). A dificuldade em verbalizar o que sente e pena o acompanha desde a infância, quando já era exposta a alguns dos males do mundo, como o vício em drogas da mãe (Naomie Harris) e a intolerância somada à perseguição dos garotos da escola. Um alento surge no caminho por meio da figura de Juan (Mahershala Ali), que se compadece de sua condição e lhe dá ensinamentos importantes que, se não são bem entendidos àquela altura, repercutem em sua mente pelos anos seguintes. O realizador Barry Jenkins diz se tratar de um filme autobiográfico. Não é um estreante na função, contrariando a máxima de que todo autor começa sua obra falando mais de si mesmo que de qualquer outro tema. Seja como for, a obra sempre importa mais do que a intenção do autor em si, e os olhos postos nessa narrativa testemunham um caminhar nada tranquilo pela estrada da vida. 

Cada intérprete de Chiron imprime o olhar desconfiado e a retração em falar de si mesmo, num exemplo de atuações harmoniosas que garantem a coerência do personagem. O problema está na aparência de cada um: não existe quase nenhuma semelhança entre os atores, como se, a cada novo recorte da vida do rapaz, ele sofresse uma metamorfose física que não o fizesse lembrar em quase nada o que era na fase anterior. Pode ter sido o caso de privilegiar o talento deles em vez do biótipo, e todos preenchem bem ao requisito da competência; então, pode-se relevar o detalhe do visual. Eles são vividos, respectivamente, por Alex Ribbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes, cujos currículos apresentam diferentes extensões. Enquanto Ribbert é estreante, Sanders já atuou em outras cinco produções - e está filmando a sétima - e Rhodes soma 15 presenças entre longas e séries para a televisão. O que também os une é o silêncio: como já foi dito, é a característica mais marcante de Chiron.

As cores são outro aspecto que chamam a atenção em Moonlight. A tal luz do luar a que o pleonástico subtítulo brasileiro se refere pontua vários momentos do longa, assim como as tonalidades azuladas e arroxeadas predominam. Vale lembrar que o azul é correlacionado à tristeza em inglês e, de fato, a história de Chiron é muito triste, com poucos instantes de alívio. Crescer dói bastante mas, no seu caso, esse processo machuca ainda mais, o que ainda não torna o garoto o único no mundo, mas cada um só consegue sentir de fato a própria dor, afinal, e o personagem serve como tipo de todo um grupo a quem tantas oportunidades são negadas cotidianamente. Assim como nesse texto, o filme também não faz muitas menções a dois fatos sobre ele, mas ambos pesam bastante: Chiron é negro e homossexual, duas condições marginalizantes às quais ele tenta reagir da sua maneira, nem sempre digna de aprovação. Em parte, a ausência materna pode explicar sua conduta, uma vez que ele muitas vezes precisou agir como se fosse responsável por ela, e qualquer criança com uma tarefa dessa nas mãos tem bem poucas chances de realizá-la com sucesso.


Ao optar por deixar mais implícitas as características de Chiron que dificultam sua caminhada, Moonlight consegue escapar de ser panfletário, colocando-se no grupo dos filmes em que a sensibilidade e a sutileza ditam o ritmo e acabam gerando empatia. Qualquer pessoa com um mínimo de alteridade pode compreender parte da dimensão dos problemas do jovem, que guarda pontos em comum com outro longa sobre a dificuldade de ser negro nos Estados Unidos, um dos países mais racistas do mundo: Preciosa - Uma história de esperança (Precious: based on the novel Push by Sapphire, 2009). Porém, enquanto Lee Daniels, realizador deste, pesava a mão em sequências de alta carga dramática, Jenkins expõe discretamente as camadas de Chiron: uma hesitação ao falar, os olhos de brilho raro, as mãos e braços compridos da adolescência que não encontram chance de acariciar e acabam usados para agredir, num claro rompante de saturação. E, apesar dos ditos traços autobiográficos, o cineasta se baseou em um livro, a partir do qual concebeu o roteiro, provando, assim, que a arte também é feita de diálogos constantes. Curioso notar o detalhe de que Jenkins nasceu em Miami, ainda hoje um paraíso dos brancos endinheirados.

No time dos coadjuvantes, Ali e Harris apresentam desempenhos contrastantes. O primeiro atua somente no primeiro terço, mas sua presença determinante para fornecer lições impacta pelo resto da narrativa; a cena dele ensinando o garoto a boiar tem vocação para ser chamada de clássica logo logo. Já a segunda tem seu melhor momento ao contracenar com Rhodes, e é de se espantar que a personagem seja tão longeva, dado seu histórico de abuso de entorpecentes. Nas sequências anteriores, ela está um tanto forçada, repetindo um tiques pouco orgânicos para demonstrar a instabilidade psicológica de Paula. Ambos foram indicados ao Oscar, em uma edição marcada pelo elevado número de negros contemplados, depois de dois anos seguidos em que a etnia foi praticamente ignorada. Se havia méritos ou não para indicações nesses anos não é a questão aqui: faz-se apenas uma constatação quantitativa. E, no quesito silêncio, Chiron tem um semelhante no mesmo ano: Lee Chandler (Casey Affleck) em Manchester à beira-mar (Manchester by the sea, 2016) é tão econômico nas palavras quanto ele. E boa parte da força desses longas parentes vem daí: sobressai-se a pulsão imagética em detrimento das manifestações verbais.

8/10

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

QUINTETO DE OURO - FILMES DE 2007

Não é exagero dizer que o tempo voa. Dentre as muitas verdades existentes, essa pode ser comprovada com facilidade. Basta olhar para o ano de 2007: já vão 10 anos desde que o vivemos, e ele parece tão próximo de nós! E a proximidade agora só está na memória, e é sobre a porção cinéfila da memória que quero comentar por aqui, afinal esse é um blog de cinema... O ano de 2007 foi o escolhido basicamente pelo fato de ter sido há 10 anos, e meu critério de seleção para os filmes foi bem objetivo: valia qualquer filme que tivesse sido realizado naquele ano, lançado em circuito em 2007 mesmo ou não. É um critério um pouco diferente do que adoto nas minhas listas anuais porque, passados esses anos todos, houve tempo para ver inclusive os títulos que foram lançados no ano seguinte.

Diferentemente das edições anteriores do Quinteto de Ouro, nessa edição decidi convidar 7 amigos muito queridos para também apresentar seus prediletos de 2007, listados em ordem alfabética, já que nem todos conseguiram estabelecer ordem de preferência. Tudo indica que vou seguir com esse modelo daqui em diante porque é bacana trocar figurinhas com outros apaixonados por cinema. Nem sempre serão as mesmas pessoas: felizmente, tenho muitos amigos cinéfilos que podem se revezar nessa tarefa a cada mês. Os filmes da minha lista são brevemente comentados com trechos de críticas, dado que todos já foram analisados por mim ao longo desses anos - e esses textos, de alguma maneira, ainda representam minha visão sobre os filmes. E, no meu caso, a ordem é mesmo de preferência (dessa vez consegui!). Seguem as nossas seleções!

MINHA LISTA:


1. Jogo de cena (Eduardo Coutinho)




Aliada à espontaneidade das mulheres comuns, que aceitaram abrir suas vidas sem reservas, há a presença de atrizes de talento, como Andréa Beltrão e Marília Pêra. Elas foram escolhidas a dedo pelo diretor a fim de que desempenhassem uma função importantíssima para o longa. Cada uma poderia escolher uma das histórias de vida das mulheres que foram entrevistadas, de modo que as recontassem como se fossem elas mesmas a viver aquilo tudo. Somado a isso, Coutinho pediu gentilmente que elas pudessem contar algo que jamais haviam dito na mídia antes, que revelariam no filme. O ponto-chave desse pedido é que essas histórias da vida pessoal das atrizes são contadas em meio àquilo que seria a representação delas da vida das mulheres que elas decidiram interpretar. E é esse detalhe que causa o embaralhamento entre realidade e ficção que caracteriza o filme. (crítica completa)


2. 4 meses, 3 semanas e 2 dias (Cristian Mungiu)




O filme é a estreia de Mungiu na direção, e ele exibe habilidade no posto, livrando sua obra de afetações e maneirismos que pouco ou nada acrescentariam à trama. A sua escolha em ambientar a narrativa na Romênia oitentista é acertada, e ele não faz disso um mero pano de fundo, mesmo porque a dificuldade para que as amigas levem seu plano a cabo, em boa parte, decorre desse contexto histórico. Afinal estamos falando de um país que viveu anos sob o triunfo da vontade férrea de Nicolae Ceaușescu, que se foi revelando um ditador reacionário (talvez o adjetivo seja redundante) até a sua execução dois anos depois do momento em que se passa o filme. A câmera de Mungiu perscruta uma Romênia gélida e, ao mesmo tempo, árida, de uma população algo resignada com o status quo de seu país. Longe de qualquer edulcoração, 4 meses, 3 semanas e 2 dias examina os efeitos práticos da decisão de Gabita, que desencadeia alguns eventos importantes que afetam diretamente o seu cotidiano e o de Otilia. (crítica completa)


3. Os donos da noite (James Gray)



Gray oferece, com esse filme, uma rara oportunidade de conferir um policial com profundidade, para além de sucessões de tiroteios e personagens mal acabados, o que costuma tornar o gênero quase uma caricatura de si mesmo. Ao colocar no centro da história um homem carente de uma revisão de valores, ele encorpa sua narrativa e promove revoluções internas nele, que derivam de uma explosão de acontecimentos que cobram a sua atitude. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, é pródigo em reflexões, e chega a fazer de Os donos da noite uma espécie de elo perdido entre o cinema policial das décadas de 70 e 80, simbolizado por nomes como Martin Scorsese e Michael Cimino, e a produção cinematográfica do gênero pós anos 2000. (crítica completa)


4. Senhores do crime (David Cronenberg)



Mortensen compõe um personagem cheio de nuances, que tende ora para a ternura, ora para a crueldade. É capaz de se comover com um bebê, mas também pode cortar os dedos de um cadáver para dificultar a identificação do corpo pela Polícia. Também pode se mostrar uma fera indomável quando está sob ameaça. Tem-se a constatação desse fato em uma sequência em especial. Quando está sozinho numa sauna, Nikolai é abordado por uma dupla de bandidos que quer acabar com sua vida. Num átimo, ele demonstra toda sua fúria ao atacá-los, sem qualquer ferramenta nas mãos, literalmente despido de qualquer instrumento que possa auxiliá-lo em sua luta pela vida naqueles instantes. Mortensen faz a cena completamente nu, exibindo todas as tatuagens de seu personagem. Cada desenho ali conta um episódio de sua vida, sendo traduções de sua caminhada pelas veredas criminosas. (crítica completa)

5. O sonho de Cassandra (Woody Allen)



[...] o slogan com o qual o filme foi vendido quando esteve em cartaz nos cinemas diz “Família é família, sangue é sangue”. Aliás, "O sonho de Cassandra" foi apresentado aos espectadores com um daqueles longas-metragens de ação prototípicos, com tiros e mortes a cada minuto. É um erro grosseiros que pode vitimar os mais incautos. Allen não está preocupado em revelar uma faceta sanguinolenta com o filme. Por mais que, dessa vez, sua câmera espie as neuroses humanas sob uma perspectiva mais densa, seus conflitos tradicionalmente abordados continuam ali, ainda que em estado de latência. Diante da oferta do tio, o dilema dos irmãos passa a ser mais importante do que a concretização do crime em questão. Por isso, quem assiste ao filme com a expectativa de testemunhar uma morte daquelas bem aterrorizantes certamente ficará desapontado. (crítica completa)



OS AMIGOS:

Anderson Barbosa

1. À prova de morte
2. Cartas de Iwo Jima 
3. Onde os fracos não têm vez
4. Sangue negro
5. Senhores do crime




Anderson de Souza

1. 5 centímetros por segundo
2. Como estrelas na Terra 
3. Os donos da noite
4. O escafandro e a borboleta
5. Superbad - É hoje!






Elton Telles


1.  O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford 
2. Do outro lado 
3. Na natureza selvagem 
4. Persépolis 
5. Santiago 



Gustavo Santorini

1. 4 meses, 3 semanas e 2 dias
2. Santiago 
3. Senhores do crime
4. Superbad - É hoje!
5. Zodíaco



Lucas D'Peder

1. O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford 
2. Onde os fracos não têm vez
3. Sangue negro
4. Senhores do crime 
5. Zodíaco




Paulo Matheus

1. Jogo de cena 
2. Os donos da noite 
3. À prova de morte
4. Onde os fracos não têm vez
5. Falsa loura






Vinícius de Castro

1. O homem da Terra
2. Na natureza selvagem 
3. Paranoid Park
4. 1408
5. Superbad - É hoje!

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Manchester à beira-mar e o passado que pesa em forma de silêncio

Embrutecido por uma carapaça resistente, o faz-tudo Lee Chandler (Casey Affleck) esboça sorrisos com extrema raridade. Dos longos silêncios aos rompantes violentos, o protagonista de Manchester à beira-mar (Manchester by the sea, 2016) está longe de um perfil que sirva de modelo. Mas é justamente sua porção de defeitos que o humaniza tanto e faz querer entender que situações da vida o transformaram naquele sujeito de agora. Kenneth Lonergan, realizador e roteirista do longa-metragem, compartilha o passado de Lee em pequenas doses, revelando um episódio altamente traumático depois do qual seu arranjo emocional nunca mais foi o mesmo. E o presente acena com uma notícia nada agradável: o falecimento do irmão mais velho, que o leva de volta à cidade-título, da qual se mudou há anos. 

Cada pessoa é uma soma de acontecimentos, e a narrativa de Manchester à beira-mar reafirma essa concepção com sensibilidade, evitando incorrer no dramalhão pesado. Lonergan exercita seu lado cineasta apenas pela terceira vez, com planos encantadores que mostram Lee como um cara que já teve motivos para sorrir e navegava frequentemente com Joe (Kyle Chandler), o irmão, e Patrick (Lucas Hedges), o sobrinho. Eram momentos ternos e divertidos e Joe adorava contar piadas de tubarão, lembranças que vão e vêm da mente de Lee após seu retorno a Manchester. Essas memórias, a propósito, são distribuídas na trama sem demarcação temporal, num exercício de montagem idêntico ao usado por Woody Allen em Blue Jasmine (idem, 2013), e ajudam a elucidar passagens marcantes que Lee não é mais capaz de verbalizar.

Trata-se de um filme sobre o não-dito e sobre o que foi dito e não pode mais ser recolhido; esse segundo aspecto é a grande tristeza de Randi (Michelle Williams), outra figura importante do passado de Lee que ressurge durante essa visita mais longa dele. Com apenas quatro curtas aparições, a personagem é outra que carrega um coração esfacelado e de maneira irreversível estará conectada a ele - eles têm basicamente as mesmas razões para se sentirem tão doloridos agora. Com sua babagem de dramaturgo, Lonergan valoriza os atores e coloca em seus lábios diálogos cheios de verdade, muito mais nos que cercam Lee, de quem arrancar palavras é uma tarefa árdua desde o trauma, e agora ele é um sujeito que, nos seus próprios termos, está "cagando" para muitas coisas. Não estamos diante da história de um herói em reconstrução, mas de um homem e sua incapacidade declarada de superação.

Na contramão de muitos dramas hollywoodianos, Manchester à beira-mar praticamente abdica de uma trilha sonora. Quando esta surge, é quase sempre incidental: uma única canção com voz aparece em toda a narrativa lá pelas tantas, quando percebemos Lee no que parece um caminho sem volta. E a trilha de acordes é acionada em dois momentos cruciais da trama, um deles o reencontro de Lee e Randi no funeral de Joe, quando Lonergan se vale da linguagem cinematográfica, deixando a imagem suplantar a palavra e a emoção fluir de forma genuína e natural, um exemplo a ser seguido por seus compatriotas e colegas de arte. E que bons atores ele escalou para ser Lee, Randi e Patrick... Cheios de desenvoltura nos seus respectivos papéis, demonstram compreender que menos é mais: aquelas cenas típicas de catarse verbal (existem várias boas, vale ressaltar) que pontuam outros títulos do gênero estão ausentes aqui. O que temos são pessoas que não sabem o que dizer e como dizer.

Essa dificuldade do quê e do como perpassa a relação de Lee e Patrick no presente da história. Existe amor e carinho entre eles, mas as expressões desses sentimentos se dão de forma velada a maior parte do tempo. Como espectadores, ficamos à espera de um abraço e um beijo, e Patrick é o que tenta romper a cerca invisível de arame farpado que Lee erigiu ao seu redor para, ao menos, um rápido contato corpóreo junto com um "boa noite". Seu intérprete não é novato, mas pode causar essa impressão porque mudou um bocado desde Moonrise kingdom (idem, 2012), um de seus primeiros trabalhos na telona. De qualquer modo, é aqui sua primeira grande atuação, e fica o desejo para que ele continue crescendo em atividade diante das câmeras. A simbiose dramática com Affleck chega a fazer pensar que são mesmo tio e sobrinho. 

Chamado pelas línguas maledicentes de "o irmão talentoso de Ben" e por um certo Rubens Ewald Filho de "canastrão", Casey está em um de seus melhores momentos junto com O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford, 2007) e O assassino em mim (The killer inside me, 2010), neste segundo também interpretando um personagem de sobrenome Ford. Existe um elo importante entre esses três papéis, uma associação que fica nítida para o espectador durante o após a sessão do filme de Lonergan. Em proporções e circunstâncias distintas, é verdade, mas o ponto de intersecção está lá. No lugar de páginas e páginas de roteiro para memorizar, ele teve que recorrer muito mais aos olhos e aos movimentos do corpo para dizer, e foi muito bem-sucedido nesse caminho. Williams é outra que já vem de desempenhos fantásticos, e destrói em poucos minutos de cinema, à semelhança de Hal Holbrook em Na natureza selvagem (Into the wild, 2007) e Viola Davis em Dúvida (Doubt, 2008). Se a Academia ainda não lhe fez justiça, é torcer para que tal fato seja só uma questão de tempo.

Nas entrelinhas, Manchester à beira-mar salienta que o passado tem peso, e Lee "opta" (até que ponto é uma escolha e não uma total inabilidade de ser de outro jeito?) por carregá-lo em silêncio. A vida em Boston era uma forma de escape, já que encarar as figuras com que convivia à época da tragédia aviva de mais a dor, e o perdão dos outros soa irrelevante diante da impossibilidade de perdoar a si mesmo. Eis um homem que não conhece as respostas certas (sim, elas existem), à deriva em seus próprios sentimentos e fechado para novos encontros. Julgar e condenar alguém assim é ato irresponsável, e não há espaço para tal conduta no texto de Lonergan, que assumiu a direção do projeto quando Matt Damon (!) desistiu do posto para ser "somente" produtor. Existem pessoas que fazem jus ao nosso acolhimento; outras simplesmente precisam dele.    

9/10

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Toni Erdmann ou os muitos lados dos humanos e suas relações

Maren Ade faz algumas escolhas inusitadas ao longo de Toni Erdmann (idem, 2016). Já em seus primeiros minutos, conhecemos o criador do personagem-título, um senhor na casa dos 60 anos que forja um irmão para receber uma encomenda e logo em seguida admite ao entregador que os dois homens são ele mesmo. Sua maneira extravagante de agir e se relacionar com o mundo demonstra uma riqueza de percepção que a maioria das pessoas ao redor parece não ter, e as esquisitices praticadas por ele vão fazendo do longa uma história menos comum sobre as muitas facetas dos indivíduos e suas complicações ao se relacionar. Por outro lado, as famílias normalmente têm um membro palhaço - aquele tio da piada natalina do pavê é um exemplo - e Winfried (Peter Simonischek, espécie de Tarcísio Meira alemão) preenche essa cota. 

A relação enfocada é com sua filha, Ines (Sandra Hüller), executiva preocupada em garantir o fechamento de um bom negócio com uma empresa romeno. Ela não pode fazer feio diante do homem, e Winfried representa uma ameaça ao seu sucesso com suas intervenções fora de hora, sobretudo quando se traveste de Toni Erdmann e insiste numa encenação constrangedora para Ines. À medida que o espectador vai acompanhando o desenrolar dessa relação, drama e comédia se revezam habilmente no roteiro da própria Ade, cuja filmografia pregressa continha, até então, quatro filmes. A caracterização de Toni é ridícula: uma peruca preta de fios mal penteados e uma dentadura pavorosa que torna hilária qualquer frase saída de sua boca. Mas ele é capaz de mostrar tanto um lado piadista quanto sério sob o disfarce, resultando em uma figura carismática, em contraste com a postura sisuda adotada pela filha.

Por muitas vezes, percebe-se a relação de Ines e Winfried como um intenso morde e assopra. Ela não embarca em seu jeitão bem humorado e solta frases um tanto cruéis quando perguntada com simplicidade sobre estar ou não feliz. Ele, incapaz de reagir na mesma linha, prefere lançar-lhe um olhar conformado, para na cena seguinte tudo parecer perfeitamente normal de novo entre os dois. É assim durante sua visita a ela, até que os humores de ambos definitivamente não se conciliam e ele parte para casa. Seu retorno já é como o insólito Toni Erdmann. Como boa escritora e observadora do ser humano (só assim para justificar a riqueza da trama), Ade oferece camadas de seus personagens, e os desempenhos de Simonischek e Hüller demonstram compreensão desse olhar distante de enviesamentos. Lá pelas duas horas e pouco de filme, uma das colegas de trabalho de Ines - hierarquicamente subalterna - comenta sobre a diferença entre a profissional e a mulher, bem como outro momento anterior revela Ines como alguém capaz de atitudes imprevisíveis. É ou não um banho de humanidade?


Winfried, por sua vez, não é um poço sem fundo de alegria e bom humor. Existe nele uma certa mágoa resignada com o comportamente arredio da filha, e o passado deles é somente acenado em uns diálogos. Não está tudo mastigado conforme a tendência hollywoodiana. Na verdade, é uma das características da chamada Escola de Berlim, movimento cinematográfico que remonta à década de 70. Mais um ponto a favor de Ade, que se esquiva do lugar comum da jornada edificante de pai e filha diametralmente opostos, embora haja ótimos títulos que se enveredam por tal possibilidade. Acaba que Toni é uma eficaz válvula de escape que, de alguma forma, reconfigura seu contato com Ines e corrói em boa parte o verniz arisco da executiva, permitindo lampejos de descontração e até uma sequência de ares confessionais em que ela canta Whitney Houston após a insistência do pai, que a segue ao piano. A cena já tem vaga cativa na lista de melhores do ano por seu alto teor catártico, sobretudo quando se pensa no que tinha sido desenhado até ali pelo espírito inventivo e sentimental de Ade. 

Toni Erdmann foi um dos queridinhos do 69º Festival de Cannes, de onde saiu com o prêmio da crítica. Exibido num dos primeiros dias, repercutiu ao longo de toda a mostra e mesmo sua longa duração não chega a tornar a narrativa enfadonha, como de outros filmes que erram a mão na prolixidade e não justificam mais de 120 minutos. Por investir em momentos cômicos que aliviam o peso da relação tumultuada entre Winfried e Ines, a produção também ajuda a "combater" o mito de que alemães não são bem-humorados ou avessos a ironias. Eu mesmo conheço um alemão que contradiz essa hipótese, em que pese o fato de já estar vivendo em solo carioca há pouco mais de 1 ano. No fim das contas, Toni é aquela porção de ridículo de que todos nós precisamos em meio às exigências carrancudas do dia a dia. Daí a legitimidade do questionamento: Você é mesmo um ser humano?

8/10