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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Eu, Daniel Blake: uma odisseia da resistência

Resistir é preciso. A frase, carregada de vontade, é intensamente tornada ação pelo protagonista de Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016), segundo filme pelo qual o realizador Ken Loach foi contemplado com a Palma de Ouro em Cannes. Sujeito pacato e ainda convalescendo de um ataque cardíaco, ele se vê nas garras de um governo burocrático ao extremo, capaz de exigir provas e tarefas estapafúrdias em troca da concessão de um auxílio financeiro durante sua impossibilidade de trabalhar. Muito se falou sobre Aquarius (idem, 2016) - também exibido na Croisette - ser um filme de fortes reverberações políticas, mas este aqui vai ainda mais fundo em questionar um sistema defasado e desumano que coloca um trabalhador em uma espiral de humilhações. Em comum com Clara, porém, Daniel tem o espírito guerreiro. São legítimas ilustrações da expressão "não deixa a peteca cair". 

Mais uma vez, Loach dirige e Paul Laverty escreve - tomara que essa parceria siga firme e forte - a trajetória de um sujeito na contramão das circunstâncias que angaria simpatizantes e defensores que se identificam diante da sua disposição em assumir o posto de estandarte dos desmandos de uma organização nefasta, que lembra muito o horror da burocracia brasileira. É o governo das escrivaninhas, literalmente, que cava uma trincheira entre o cidadão e seus direitos mais básicos, chegando ao cúmulo de vilanizá-lo pelo descumprimento de uma regra absurda: é preciso cumprir 40 horas semanais de procura por emprego, mas não se pode aceitar nenhuma oferta; é uma procura "para inglês ver", os ingleses compatriotas, nesse caso. Daí surge a exasperação na audiência exposta àquele caso que, pasmem, está longe de ser singular. Newcastle, afinal, não parece mais tão longe assim.

O papel é defendido com tarimba por Dave Johns, cuja estrada artística passa pelo stand-up comedy e pela escrita além da atuação. Para o público brasileiro, porém, ainda representa sangue novo, e sua aparência de homem comum é um gancho perfeito para o estabelecimento de uma forte empatia com sua causa que, como já se disse, é a de muitos outros cidadãos. Quem nunca se viu ao menos uma vez pendurado em um telefone com uma musiquinha insuportável à espera de atendimento? E, para piorar, quando a tal musiquinha é interrompida, receber a informação redundante de que todas as linhas estão ocupadas e é necessário esperar o contato de um atendente? Essas e outras situações irritantes formam o périplo de Dan, como é chamado pelo vizinho estrangeiro que tenta fazer a vida com um comércio alternativo de tênis, por assim dizer. Em torno de Dan, parece haver somente pessoas em situação parecida ou pior que a sua, e seu caminho logo se cruza com o de uma jovem também vítima do governo.


O verdadeiro vilão da história é essa tal entidade quase abstrata, da qual todos nos queixamos e a cujas arbitrariedades acabamos por nos curvar. O governo maltrata, retarda, testa, exige, questiona e não oferece uma contrapartida razoável diante de tantos verbos negativos. Mas Dan resiste. Resiste como o Eric (Steve Evets), de À procura de Eric (Looking for Eric, 2009), o Fergus (Mark Womack) de Rota irlandesa (Route irish, 2010), o Robbie (Paul Brannigan) de A parte dos anjos (The angel's share, 2012), o  Jimmy (Barry Ward) de Jimmy's hall (idem, 2014), só para citar alguns homens da galeria construída pelo diretor e seu parceiro roteirista. Não é de se espantar que se transforme em uma espécie de herói, sobretudo quando recorre a uma medida desesperada para atrair atenção para seu caso. É assim, aliás, que Loach reafirma sua veia política, tônica de boa parte de seus filmes, talvez todos, mesmo os mais aparentemente despretensiosos. A rotina de tapeações de Dan encontra paralelo na do personagem de Ricardo Darín em Relatos selvagens (Relatos salvajes, 2014), este em guerra contra a indústria de multas automobilísticas. 

Por sua estrutura tão verossímil e suas interpretações tão orgânicas, Eu, Daniel Blake tem seu título facilmente interpretável como uma triste metonímia. É também a prova de que uma nação dita de primeiro mundo também carrega suas mazelas e não distribui igualitariamente suas riquezas. Com toda a razão, Loach e sua equipe foram ovacionados por 15 minutos após a exibição do filme em Cannes. Ele também é um resistente, com seus 80 anos de vida e uma carreira fílmica que já se tornou cinquentenária. Para além de rótulos de comunismo, capitalismo e tantos outros "-ismos", o roteiro nos lembra que é importante conservar a humanidade, na acepção do sentimento que leva a se colocar no lugar do outro, de ver que ambos estão no mesmo barco e precisam singrar juntos o mar encapelado.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

BALANÇO MENSAL - DEZEMBRO

Hora de dar o adeus definitivo ao ano de 2016 no que se refere ao mundo cinematográfico. Seguem abaixo meus preferidos do mês de dezembro acompanhados de pequenos textos, assim como a relação completa de filmes vistos e revistos, entre longas e curtas, e os que considerei melhores em algumas categorias. Feliz Ano Novo!

PÓDIO

MEDALHA DE OURO

O lamento (Na Hong-jin, 2016)


O cinema de horror é formado por obras legendárias, que habitam o imaginário cinéfilo e são citados com recorrência em listas de melhores ou preferidos. Pois o gênero recebeu mais um integrante de peso em 2016 com a realização de O lamento, que acompanha um inspetor da Polícia à volta com uma misteriosa força espiritual que produz estragos na pequena cidade que habita. Indo longe na exposição do mal e suas facetas, o cineasta e roteirista produz imagens acachapantes, como a do ritual de exorcismo liderado por um xamã a quem o inspetor recorre diante da ineficiência dos métodos aos quais está habituado. Some-se a isso uma direção engenhosa, de planos complexos, e estamos diante de um olhar sobre a importância de não ignorar nem subestimar as artimanhas satânicas.

MEDALHA DE PRATA

Nossa irmã mais nova (Hirokazu Kore-eda, 2015)


Desde os tempos da Grécia Antiga existe a discussão sobre a ficção e como é importante estabelecer um conflito para o andamento da narrativa. Afinal, qual interesse haveria em acompanhar uma história em que nada (?) acontece, cujos personagens vivenciam momentos que qualquer um de nós atravessamos dia após dia? Pois foi essa a escolha de Kore-eda, realizador afeito a examinar os meandros familiares com paciência e carinho. Focado em três irmãs de idades próximas que resolvem se aproximar da irmã adolescente que vivia com o pai delas, o drama é pontuado por situações prosaicas, como uma caminhada despreocupada na praia, e o encantamento por fogos de artifício em uma noite de céu escuro. Yasujiro Ozu teria ficado orgulhoso do discípulo.

MEDALHA DE BRONZE

Sinfonia da necrópole (Juliana Rojas, 2014)


Manuel Bandeira, poeta recifense, chamou a morte de A Indesejada das Gentes. Mas é diretamente com ela que Deodato (Eduardo Gomes) e Jaqueline (Luciana Paes) lidam em sua rotina de trabalho. Afinal, são funcionários de um cemitério. A base insólita de Sinfonia da necrópole serve a um enredo de momentos engraçados sem a menor força, mas também dotados de um sentimento muito próximo de um estado de pureza. O rapaz, um coveiro não muito satisfeito com seu ofício, fica mais animado com a chegada da moça, que abraça a missão de revitalizar o lugar em algumas semanas. Juliana Rojas assina seu primeiro filme solo como diretora - depois de suas parcerias com Marco Dutra - e acerta em cheio nas sequências musicais inesperadas, que fazem as vezes dos diálogos que, apenas falados, teriam sido banais.

INÉDITOS

LONGAS

380. Como roubar um milhão de dólares (William Wyler, 1966) -> 7.5
381. Napoleon Dynamite (Jared Hess, 2004) -> 6.0
382. Terra em transe (Glauber Rocha, 1967) -> 7.0
383. O vale do amor (Guillaume Nicloux, 2015) -> 7.5
384. Kubo e as cordas mágicas (Travis Knight, 2016) -> 8.0
385. Os passos (Luigi Bazzoni e Mario Fanelli, 1975) -> 8.0
386. Party girl (Marie Amachoukeli-Barsacq, Claire Burger e Samuel Theis, 2014) -> 7.0


387. Departure (Andrew Steggall, 2015) -> 6.0
388. Deserto (Jonás Cuarón, 2015) -> 8.0
389. Vou rifar meu coração (Ana Rieper, 2011) -> 7.5
390. O lamento (Na Hong-jin, 2016) -> 9.0
391. A economia do amor (Joachim Lafosse, 2016) -> 7.5
392. Os últimos passos de um homem (Tim Robbins, 1995) -> 8.0


393. A garota de rosa-shocking (Howard Deutch, 1986) -> 6.0
394. A vizinhança do tigre (Affonso Uchoa, 2014) -> 8.0
395. Sinfonia da necrópole (Juliana Rojas, 2014) -> 8.0
396. Amor a toda velocidade (George Sidney, 1964) -> 5.0
397. 007 - O amanhã nunca morre (Roger Spottiswoode, 1997) -> 7.0
398. Um dia perfeito (Fernando León de Aranoa, 2015) -> 6.0
399. Nus na noite (Takashi Ishii, 1993) -> 6.0
400. Pessoas, lugares e coisas (James C. Strouse, 2015) -> 7.5


401. Rogue one: uma história Star Wars (Gareth Edwards, 2016) -> 7.5
402. Sete homens e um destino (Antoine Fuqua, 2016) -> 8.0
403. Baccalauréat (Cristian Mungiu, 2016) -> 8.0
404. O último cine drive-in (Iberê Carvalho, 2015) -> 7.5
405. Sully (Clint Eastwood, 2016) -> 7.0
406. Nossa irmã mais nova (Hirokazu Kore-eda, 2015) -> 8.5
407. Entre as pernas (Manuel Gomez Pereira, 1998) -> 6.0


408. Invasão zumbi (Sang-ho Yeon, 2016) -> 8.0
409. Manglehorn (David Gordon Green, 2014) -> 5.0
410. A tartaruga vermelha (Michael Dudok de Wit, 2016) -> 8.0
411. O ato de matar (Joshua Oppenheimer, 2012) -> 7.0
412. Herança de sangue (Jean-François Richet, 2016) -> 6.5
413. A qualquer custo (David Mackenzie, 2016) -> 7.0

CURTAS

A voz mais rápida do Oeste (Erick Kissack, 2014) -> 7.0
Monsieur Pug (Janet Perlman, 2014) -> 6.0

REVISTOS

Um tiro na noite (Brian De Palma, 1981) -> 8.0
Assassinato em Gosford Park (Robert Altman, 2001) -> 8.0
O homem sem passado (Aki Kaurismäki, 2002) -> 9.0
No decurso do tempo (Wim Wenders, 1976) -> 9.0
Viajo porque preciso, volto porque te amo (Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, 2009) -> 8.0

MELHOR FILME: O lamento 
PIOR FILME: Manglehorn
MELHOR DIRETOR: Na Hong-jin, por O lamento
MELHOR ATRIZ: Isabelle Huppert, por O vale do amor
MELHOR ATOR: Sean Penn, por Os últimos passos de um homem
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Judi Dench, por 007 - O amanhã nunca morre
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Jeong-min Hwang, por O lamento
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Na Hong-jin, por O lamento
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Tim Robbins, por Os últimos passos de um homem
MELHOR FOTOGRAFIA: O lamento
MELHOR TRILHA SONORA: Kubo e as cordas mágicas
MELHOR CENA: A travessia no túnel em Invasão zumbi
MELHOR FINAL: Invasão zumbi

sábado, 31 de dezembro de 2016

CINEMA 2016: OUTRAS CATEGORIAS

O último dia do ano traz consigo a segunda e última parte de mais uma retrospectiva dos meus preferidos do cinema. Ao longo de 2016, foram 465 longas-metragens vistos e revistos, 18 a mais que em 2015, além de alguns curtas, cuja quantidade não sei de cabeça no momento - mas não devem ser mais que 7 ou 8. 

No meio dessa miscelânea de temas, diretores, estilos, idiomas, lugares e tudo mais que o Cinema proporciona, voltei a selecionar os de que mais gostei nas seguintes categorias: roteiros (sem distinção entre original e adaptado), trilhas sonoras, fotografias, cenas e cartazes, estas abrangendo somente lançamentos em circuito comercial. Por fim, mais uma vez trago meus 20 preferidos fora do circuito, levando em consideração apenas títulos inéditos. 

A lista de piores me pareceu inviável esse ano, já que não cheguei a ver nenhuma bomba efetiva, e os mais fracos que vi não foram em número suficiente para serem listados. Em 2017, vem o balanço de filmes vistos e revistos em dezembro, e assim meu 2016 cinematográfico estará devidamente encerrado.

MELHORES ROTEIROS


1. Aquarius, por Kleber Mendonça Filho

2. Truman, por Tomás Aragay e Cesc Gay

3. Os oito odiados, por Quentin Tarantino

4. O lamento, por Na Hong-jin

5. As montanhas se separam, por Jia Zhang-ke

6. Kubo e as cordas mágicas, por Marc Haimes e Chris Butler

7. Certo agora, errado antes, por Hong Sang-soo

8. Invasão zumbi, por Sang-ho Yeon

9. Deus branco, por Kornél Mundruczó, Viktória Petrányi e Kata Wéber

10. Cemitério do esplendor, por Apichatpong Weerasethakul


MELHORES FOTOGRAFIAS


1. As montanhas se separam

2. Cemitério do esplendor

3. O lamento

4. Doutor Estranho

5. Carol


MELHORES TRILHAS SONORAS


1. As montanhas se separam

2. Aquarius

3. Rogue one: uma história Star Wars

4. Carol

5. Kubo e as cordas mágicas


MELHORES CENAS


1. O plano final em As montanhas se separam

2. A vingança de Clara em Aquarius

3. O diálogo dos amigos sobre o cão em Truman

4. Kubo apresentando seu número musical em Kubo e as cordas mágicas

5. A esperança renovada de Leia em Rogue one: uma história Star wars

6. O baile de Ano Novo em Café society

7. A travessia do túnel em Invasão zumbi

8. A primeira batalha em outra dimensão em Doutor Estranho

9. A música no enterro da mãe em Capitão Fantástico

10. A menina tocando corneta para os cães em Deus branco


MELHORES CARTAZES

1. Os oito odiados


2. Capitão Fantástico 


3. Doutor Estranho



4. Certo agora, errado antes


5. Brooklyn


6. Boi neon 


7. Kubo e as cordas mágicas


8. Café society


9. Aquarius


10. Rua Cloverfield, 10 



FORA DO CIRCUITO (em ordem cronológica das sessões)


1. O cidadão do ano (Hans Peter Moland, 2014)
2. O estranho que nós amamos (Don Siegel, 1973)
3. Breaking news - Uma cidade em alerta (Johnnie To, 2004)
4. Montanha da liberdade (Hong Sang-soo, 2014)
5. Amantes (John Cassavetes, 1983)
6. Falsa loura (Carlos Reichenbach, 2007)
7. O intruso (Claire Denis, 2004)
8. O rio das almas perdidas (Otto Preminger, 1954)
9. Poesia (Lee Chang-dong, 2010)
10. Sublime obsessão (Douglas Sirk, 1954)
11. Um lugar tranquilo no campo (Elio Petri, 1968)
12. Marcas da vida (Andrea Arnold, 2007)
13. Juha (Aki Kaurismäki, 1999)
14. O esporte favorito dos homens (Howard Hawks, 1964) 
15. As vinhas da ira (John Ford, 1940)
16. Hanami - Cerejeiras em flor (Doris Dörrie, 2008)
17. O mundo dos pequeninos (Hiromasa Yonebayashi, 2010)
18. Amor à queima-roupa (Tony Scott, 1993)
19. A terra e a sombra (César Augusto Acevedo, 2015)
20. Headhunters (Morten Tyldum, 2011)
21. Um retrato de mulher (Fritz Lang, 1944)
22. O verão de Sam (Spike Lee, 1999)
23. Linha de passe (Walter Salles e Daniela Thomas, 2008)
24. O intendente Sanshô (Kenji Mizoguchi, 1954)
25. Os últimos passos de um homem (Tim Robbins, 1995)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

MELHORES FILMES, DIRETORES E ATUAÇÕES DE 2016

Parece que foi ontem que eu estava diante da tela do laptop redigindo os artigos com meus preferidos do cinema em 2015. Mas já faz 1 ano! Além de significar que o ano passou voando - constatação bastante óbvia, por sinal -, esse período transcorrido indica também que é tempo de reunir em uma única publicação o que mais amei entre janeiro e dezembro - também é uma constatação óbvia...

Obviedades à parte, aquele misto de prazer e tortura que envolve a composição de listas de melhores trouxe como resultado mais uma leva de 15 filmes, a exemplo do que venho fazendo desde 2012 (e publicando em forma de artigo desde 2013). Em comparação com os anos anteriores, creio que este foi mais fraco em termos de lançamentos. Afora a clássica temporada de filmes do Oscar, que costuma ser no primeiro trimestre, o restante do ano foi pontilhado por um e outro grande filme, o que tornou a montagem da lista de 2016 um pouco menos trabalhosa. Apenas 1 ou 2 títulos não couberam na seleção final, que apresento junto com o grupo de cineastas que mais acertou em seus longas.

Reforço que, como sempre, o requisito objetivo para integrar minhas listas é ser um filme lançado no circuito comercial brasileiro. Moro no Rio de Janeiro e sou relativamente privilegiado no que se refere a filmes em cartaz, já que muitos deles chegam aqui, ainda que com certo atraso. Consigo imaginar a dificuldade de um cinéfilo morador de cidades como Ribeirão Preto, Ponta Grossa ou Quixadá, só para citar lugares distantes das capitais. Ainda assim, o circuito carioca é bastante afunilado, e cabe ratificar esse problema e a esperança de que melhore no próximo ano. 

Um detalhe que difere essa retrospectiva das anteriores é que optei por não separar os atores e atrizes em principais e coadjuvantes. A exemplo do que se pratica no Festival de Cannes, que concede os prêmios de interpretação feminina e masculina, reúno aqui 10 nomes de cada sexo, e assim está formada a primeira de duas partes das revisitas aos que mais amei ao longo de 2016. 

FILMES

1. Aquarius (Kleber Mendonça Filho

Sobre as memórias e os afetos de quem fica.


2. Truman (Cesc Gay

Com sua pegada mansa e amorosa, deixa a certeza de que pessoas vêm e vão, mas grandes amigos a gente carrega para além das circunstâncias. Privilegiados são aqueles que contam com uma amizade incondicional.



3. As montanhas se separam (Jia Zhang-ke

Celebra o poder da imagem e do som com momentos de beleza embevecedora. Melodrama tríptico que brinca com os formatos de tela e faz meditar sobre a ocidentalização chinesa, bem como sobre a universalidade dos sentimentos.



4. Anomalisa (Charlie Kaufman e Duke Johnson)  

Humanidade que incomoda.



5. Deus branco (Kornél Mundruczó

A metáfora poderosa e acessível reverbera do começo ao fim como um triste emblema de nossos tempos. É preciso amplificar as doces melodias e silenciar os grunhidos cruéis. 


6. A juventude (Paolo Sorrentino

Sorrentino volta a deslumbrar retinas e a produzir sentidos usando signos imagéticos. Os anos passam e o que realmente sabemos?



7. O lamento (Na Hong-jin

Após uma toada algo cômica de uns quarenta minutos, desvia a rota para um suspense estarrecedor, com algumas das sequências mais bem filmadas desde sabe-se lá quando. Uma narrativa para ficar remoendo na memória.


8. Boi neon (Gabriel Mascaro)  

Nordeste sensorial segundo Mascaro.


9. Café society (Woody Allen)  

Allen volta a apostar no tom jocoso para ratificar seu discurso sobre o quanto somos instáveis. Os ecos de outros títulos de sua longa carreira conferem deliciosa intertextualidade.


10. Capitão Fantástico (Matt Ross)  

Mortensen entrega mais uma atuação certeira e o elenco infantojuvenil também segura o rojão muito bem. Belo achado do roteiro lançar a dúvida sobre o pai: um homem exemplar ou uma péssima referência para os filhos?



11. Elle (Paul Verhoeven)  

Michèle é exímia jogadora, por isso move os peões com facilidade a seu bel-prazer, e teve a intérprete certa para ganhar vida. Feliz encontro de um diretor possante com uma atriz entregue.



12. Certo agora, errado antes (Hong Sang-soo)   

Desses acasos da vida que vão e vem...



13. Os oito odiados (Quentin Tarantino)  

Pelas mãos desse octeto nada dócil, sangue e neve se misturam com incrível facilidade. Tarantino segue prolixo, mas envolve a plateia como um legítimo ás do diálogo.



14. Julieta (Pedro Almodóvar

O humor praticamente ausente deixa o melodrama fluir com impressionante organicidade, ratificando Almodóvar como um contador de histórias exemplar. Dessa vez, escolheu abordar o perdão: ao outro e a si mesmo.


15. O regresso (Alejandro González-Iñárritu) 

Uma ode selvagem à sobrevivência. E para onde a vingança leva?


DIRETORES

Na Hong-jin (O lamento

Jia Zhang-ke (As montanhas se separam)  

Hong Sang-soo (Certo agora, errado antes)   

Quentin Tarantino (Os oito odiados)

Paul Verhoeven (Elle)



ATUAÇÕES FEMININAS

Sonia Braga (Aquarius)  

Isabelle Huppert (Elle)

Kate Winslet (Steve Jobs)

Jennifer Jason Leigh (Os oito odiados)

Amy Adams (A chegada)



Jane Fonda (A juventude)

Maeve Jinkings (Boi neon)  

Cate Blanchett (Carol)

Dolores Fonzi (Paulina)

Agata Kulesza (Agnus Dei)


ATUAÇÕES MASCULINAS

Samuel L. Jackson (Os oito odiados)  

Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)

Jeong-min Hwang (O lamento)

Kurt Russell (Os oito odiados)

Ricardo Darín (Truman)


Juliano Cazarré (Boi neon

Sylvester Stallone (Creed - Nascido para lutar)

Javier Cámara (Truman)

Tom Hardy (O regresso)

Vincent Lindon (O valor de um homem)


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

QUINTETO DE OURO - AKI KAURISMÄKI

A poucos meses de seu sexagésimo aniversário, Aki Kaurismäki foi o escolhido para o último Quinteto de Ouro de 2016, uma primeira temporada que passeou por diretores, atores, nacionalidades, prêmios e parcerias. Se tem um cinema que prima pelo simples aliado ao inventivo, esse é o cinema do realizador finlandês. São pouco mais de 30 anos de carreira de filmes que raramente alcançam 90 minutos de duração, e ele mesmo já afirmou que não é necessário mais do que isso para contar uma história.

Essa concisão é uma das peculiaridades que tornam sua obra memorável, ao mesmo tempo que ainda é subestimada. Mesmo entre os cinéfilos mais vorazes, são raras as vezes em que seu nome é mencionado e posto em discussão. No que se refere ao uso das cores, seus longas também são um deslumbre à parte, que não deve em nada ao seu colega de ofício Pedro Almodóvar, com a diferença que este investe nas cores cálidas e aquele se vale de uma paleta fria, ainda assim alegre e contrastante com o estado de espírito melancólico de seus protagonistas e coadjuvantes. 

Vez por outra, Kaurismäki - que tem um irmão mais velho também cineasta, com quem trabalhou no início da carreira - concede entrevistas e deixa à mostra seu jeito um tanto tímido e de pausas silenciosas, tão comuns em seus filmes. Em uma dessas entrevistas, comentou que satisfaz sua fome cinéfila apenas com filmes em DVD, e tem como um dos heróis da juventude (e até hoje) ninguém menos que Charles Chaplin. Faz todo o sentido quando vemos os tipos aparvalhados, mas cheios de coração, que ele entrega a cada novo trabalho, do qual também normalmente é roteirista. Não é um sujeito fácil de travar diálogo, como fez questão de deixar registrado a jornalista Pamela Bienzóbas. Mas se esforça.

Sua atriz fetiche é Kati Outinen, uma parceira de oito filmes, e quase todos os meus escolhidos a têm no elenco. Em um desses felizes encontros, ela foi reconhecida com o prêmio de interpretação feminina no Festival de Cannes, em O homem sem passado (2002), também escolhido como o representante da Finlândia daquele ano para concorrer a uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar. Fica o convite para conhecer um pouco de sua profícua obra, da qual foram pinçados meus cinco preferidos, dispostos em ordem cronológica. Alguns parágrafos vêm de críticas já escritas sobre seus filmes, e outros foram escritos especialmente para esta edição. Tomara que acendam a chama de potenciais admiradores.

1. Ariel (idem, 1988)


Típica comédia de erros que Kaurismäki domina como poucos, Ariel conta a história de um homem preso após uma acusação de um crime pelo qual não é responsável. Uma vez na cadeira, passa a engendrar sua vingança. Não se deixe levar somente pela sinopse: é o detalhe que menos pesa em se tratando dos filmes do realizador. A banalidade da trama é atravessada por momentos de humor lacônico em lugar das cenas gargalhantes, e aqui não é diferente. E o que dizer da trilha de canções internacionais - ele ama usar músicas em inglês para sonorizar suas histórias - que mesclam um ar descolado às condutas desajeitadas do protagonista, de palavras raras e sorrisos quase inexistentes. Mas essa carapaça difícil recobre um coração capaz de atos generosos e passível de arrependimento. Essa parece ser a noção de humanidade e amor para Kaurismäki.

2. A garota da fábrica de caixas de fósforos (Tulitikkutehtaan tyttö, 1990)


"[...] uma pergunta se subscreve a toda a narrativa do filme, que, por pouco, não seria um média-metragem: a inocência e o otimismo suportam todo tipo de adversidade e crueldade? Como tentasse responder a esse profundo e inquietante questionamento, Aki Kaurismäki entrega uma história forte, de diálogos esparsos, alicerçada em um minimalismo que se reflete em todos os aspectos. O interesse maior do cineasta é pela observação, meio que ele elege para tentar dar conta de explicar a complexidade da temática que decidiu abordar. O filme se inicia justamente com a tal fábrica onde Iris trabalha, e somos colocados diante de uma série de máquinas que, com suas repetições mecânicas, delimitam que aquele espaço é reservado unicamente a um trabalho cego." A tal garota é vivida por Kati Outinen, que já merecia desde então um prêmio por seu marcante desempenho.

3. Nuvens passageiras (Kauas pilvet Karkaavat, 1996)


"Parte integrante de uma trilogia sobre os chamados "perdedores", Nuvens passageiras (Kauas pilvet karkaavat, 1996) oferece a possibilidade de entender um pouco da crise europeia quando ela ainda estava em seus primeiros sintomas, longe do que se iria verificar através da mídia no início dos anos 2010. [...]. O título é carregado de otimismo, dando a entender que não há situação ruim que dure para sempre. Para dar conta de expressar essa visão de mundo, o realizador não apresenta estereótipos de sonhadores ou otimistas ingênuos. Antes, prefere mostrar seres humanos verossímeis, que se agarram às oportunidades que surgem e colocam em prática o ditado "Se a vida te der um limão, faça uma limonada". Está claro que os percalços surgem para todos nós. Por que não poderiam atingir pessoas como Ilona e Lauri também? Demonstrando ciência dessa verdade, eles se empenham e têm ideias simples e criativas que acabam dando certo.

4. Juha (idem, 1999)


Praticante de um cinema minimalista - inclusive no que tange à duração da maioria dos exemplares de sua carreira fílmica - Kaurismäki aboliu a palavra falada em Juha. O título é o nome do protagonista, um homem tão grande em tamanho quanto em generosidade que se apaixona por uma mulher órfã e se casa com ela. A proposta de uma vida glamourosa, longe daquele ambiente campestre, vem encarnada na figura de um homem que a seduz, e pouco há a ser acrescentado ao enredo do longa de 70 minutos. Nem importa, aliás, pois o brilhantismo do cineasta se mostra muito mais na forma do que no conteúdo, ainda que o segundo não seja negligenciado. Prestando uma deliciosa homenagem ao cinema mudo e fazendo comédia de sorrisos de canto de boca, ele consegue entregar uma preciosidade audiovisual - sim, os ouvidos também são agraciados com a trilha sonora de pulsações intensas e até dançantes onde não seriam esperadas inicialmente.

5. O homem sem passado (Mies vailla menneisyyttä, 2002) 


Espancado até desmaiar, um sujeito acorda sem memória e tenta recomeçar a vida de outro jeito. Essa trama simples oferece a possibilidade de trazer novamente à tona algumas constantes do cinema de Aki Kaurismäki, como a direção de atores em tom algo teatral, que pode causar a impressão de certo distanciamento e artificialismo nas interpretações, e também o emprego de cores frias e extravagantes nos ambientes por que passam os personagens, compondo quadros estilizados. Sem falar no humor de sorrisos de canto de boca, por vezes tão discreto que pode passar despercebido para espectadores em busca de ensejos para risadas mais efusivas e a aposta em uma abordagem humanista, que se encontra subscrita a contextos de certo pessimismo e, a partir de certo momento, ergue-se triunfante sobre uma ampla gama de mazelas e misérias de caráter.